Tunísia: Copa do Mundo de Cinema
Se no futebol a Tunísia ainda tenta se consolidar no cenário futebolístico mundial, no cinema ela vem conquistando visibilidade crescente, algo facilitado pela dupla exposição idiomática do país, onde o árabe e o francês são bastante utilizados pela população
Por Tem Que Ver*
Se antes era raro ver a Tunísia em Copas do Mundo da FIFA, neste século as coisas mudaram - de sete torneios disputados, as Águias de Cartago se classificaram em cinco oportunidades. Portanto, em 2026, os tunisianos chegaram à sua sétima participação em Copas - e mantiveram a frustração de nunca avançar da fase de grupos, e desta vez isso foi algo ainda mais melancólico, pois foi a única seleção africana a não passar para a fase de 16 avos de final.
A ida da Tunísia à Copa 2026 foi carimbada nas eliminatórias de África de maneira muito fácil: de 30 pontos possíveis em disputa, conquistou 28, e não sofreu nenhum gol em partidas jogadas contra Guiné Equatorial, Libéria, Namíbia, Malawi e São Tomé e Príncipe. A seleção teve dois técnicos durante a campanha: inicialmente, Faouzi Benzarti, que acabou sendo substituído por Sami Trabelsi.
Se no futebol a Tunísia ainda tenta se consolidar no cenário futebolístico mundial, no cinema ela vem conquistando visibilidade crescente, algo facilitado pela dupla exposição idiomática do país, onde o árabe e o francês são bastante utilizados pela população. A sétima arte foi introduzida ali pelos próprios irmãos Lumière, em 1896, que exibiam filmes nas ruas da capital, Túnis.
Um dos primeiros cineastas tunisianos, e, por conseguinte, do Norte de África (também chamada de África branca), foi Albert Samama Chikly, que dirigiu o curta-metragem Zohra, em 1922. Dois anos depois, ele dirigiria Ain Al-Ghazal (A Garota de Cartago, em tradução). Apenas em 1966, porém, seria lançado o primeiro longa-metragem tunisiano, Al-Fajr (O Amanhecer, em tradução), do diretor Omar Khlifi, cujo foco narrativo era a luta contra os colonizadores franceses. Anos após a independência da Tunísia, os filmes passaram a ser produzidos exclusivamente pela Société Anonyme Tunisienne de Production et d'Expansion Cinématographique (SATPEC), fundada em 1964 pelo presidente Habib Bourguiba. Por sua vez, na década de 1980, surgiram produtoras e estúdios privados com o objetivo de transformar a Tunísia na Hollywood do Mediterrâneo.
O diretor Ferid Boughedir talvez seja o nome mais importante da história do cinema tunisiano. É dele o maior sucesso do país nas telas: Asfour Stah (Halfaouine: Child of the Terraces, título em inglês), de 1990. Outro importante marco cinematográfico nacional foi a conquista da Palma de Ouro em Cannes pelo controverso longa-metragem Azul é a Cor Mais Quente, dirigido por Abdellatif Kechiche. No âmbito do cinema contemporâneo da Tunísia, no entanto, nenhum outro nome é tão relevante como o da diretora Kaouther Ben Hania, cujos filmes já receberam três indicações ao Oscar: os longas O Homem Que Vendeu a Sua Pele e A Voz de Hind Rajab, na categoria Melhor Filme Internacional, e As 4 Filhas de Olfa, na categoria Melhor Documentário.
O filme escolhido como representante da Tunísia na Copa do Mundo de Cinema do TemQueVer é um trabalho menos (re)conhecido da cineasta Kaouther Ben Hania, mas que sabe como poucos expressar o quão singular e sutil pode ser a direção cinematográfica levada a efeito por uma mulher: A Bela e os Cães, de 2017. Aqui, a escolha estética mais radical de Ben Hania é estruturar o longa em nove planos-sequência, os quais estão longe de serem mero exibicionismo técnico. Ao negar o corte, a diretora nos joga no tempo diegético (isto é, o tempo real dos acontecimentos) da provação de sua protagonista Mariam (Mariem Ferjani). A câmera flui pelos corredores frios de hospitais e delegacias, transformando o espaço público e institucional em um labirinto kafkiano. Isso leva o espectador a sentir a mesma asfixia, o mesmo desespero e a imobilidade de uma vítima que não consegue escapar do tempo presente.
A Bela e os Cães se insere numa uma forte tradição de mulheres cineastas tunisianas que investigam a condição feminina - tais como Moufida Tlatli e Leyla Bouzid -, mas com uma crueza contemporânea. Mariam não começa o filme como uma heroína política idealizada. Ela é uma jovem universitária comum, que queria apenas se divertir em uma festa estudantil. A sua jornada cinematográfica é a da metamorfose da vulnerabilidade em resistência.
*Texto originalmente publicado no portal Tem Que Ver Cinema
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