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Arquiteta de Colônia acredita na restauração de Notre-Dame

17 abr 2019
16h06
atualizado às 16h30
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Em entrevista à DW, arquiteta-chefe da Catedral de Colônia diz que será possível reconstruir tanto abóbadas quanto telhado da igreja em Paris, incluindo a torre que caiu. Já com as obras de arte, afirma, é diferente. No início da noite de 15 de abril, um incêndio irrompeu nos níveis superiores da Catedral de Notre-Dame, em Paris, causando a queda da flecha e consumindo grande parte do telhado.

Catedral de Notre Dame antes do incêndio
Catedral de Notre Dame antes do incêndio
Foto: iStock

Foram necessárias 15 horas para apagar as chamas, e dois dias após o desastre a extensão total dos danos ainda é desconhecida, enquanto se inicia uma investigação das causas. O presidente da França, Emmanuel Macron, prometeu reconstruir o icônico marco arquitetônico da capital, e de todos os lados jorram doações e ofertas de ajuda.

A também famosa Catedral de Colônia, no oeste da Alemanha, ficou seriamente danificada por bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial. A reconstrução concluiu-se em 1956, porém até hoje são necessárias obras de manutenção e restauração constantes.

A arquiteta, restauradora, historiadora da arte e professora Barbara Schock-Werner foi arquiteta-chefe da sé da metrópole renana de 1999 a 2012, e portanto responsável pela conservação estrutural do edifício. Em entrevista à DW, ela fala sobre a destruição parcial de Notre-Dame e o processo de reconstrução.

Deutsche Welle: Qual foi sua sensação, ao ver as imagens de Paris?

Barbara Schock-Werner: Foi horrível. Pensei: não pode ser verdade, não é possível ela queimar assim tão depressa, de forma tão gigantesca! Até agora fico fascinada com que velocidade o incêndio se alastrou, e quão rápido devastou todo o telhado.

Qual é a extensão da perda, em termos de patrimônio cultural mundial?

Vai ser realmente preciso ver. Perda total é a armação do telhado e seu campanário, que data de 1844, mas que seguramente será possível reconstruir, pois ainda existem as plantas originais. Uma metade da armação era realmente medieval, a outra, do século 19.

Agora, o que aconteceu no interior, até que ponto os contrafortes ficaram abalados devido ao superaquecimento, se as pedras foram alteradas — isso nós não sabemos. Também temo que as duas rosáceas — célebres elementos da arquitetura gótica nos dois transeptos — não tenham sobrevivido o fogo. Além disso, havia uma famosa madona ao pé do pilar do cruzeiro, logo abaixo do foco do incêndio. Na verdade, ela não pode ter escapado. Mas vão ser precisos ainda dias, até que se conheça a extensão exata dos danos.

A senhora já foi responsável por uma obra arquitetônica de grande porte. É possível assegurar uma catedral como a de Colônia ou a Notre Dame?

Não, ninguém conseguiria pagar o prêmio.

Qual seria o valor, então?

Não tenho ideia, mas nenhuma seguradora faz isso. Em Colônia, não seguramos nem mesmo a Arca dos Três Reis Magos [um relicário do fim do século 12, obra-prima de ourivesaria]. Claro que temos um seguro de danos a terceiros, para prejuízos causados por nós, mas nenhum seguro imobiliário.

No entanto, temos que fazer, e fizemos, todo o possível para evitar tais catástrofes. O esquema anti-incêndio da Catedral de Colônia é bastante sofisticado e vai sendo sempre aprimorado, em cooperação constante com o corpo de bombeiros. Em Paris pôde-se ver como eles jogaram a água de baixo, do nível da rua. Em Colônia instalamos um monte de tubulações em torno da catedral, para os bombeiros poderem conectar as mangueiras a 50 metros de altura, ou seja, mais perto do foco do incêndio. Ouço de todos os meus colegas que a prevenção de incêndio faz uma grande diferença.

Outros locais correm perigo semelhante?

O fato é que tal coisa acontece com raridade surpreendente. Este é o primeiro grande incêndio, desde que estou na profissão, e lá já se vão algumas décadas. Há pequenos incêndios, mas meus colegas me contam que se ocupam intensivamente do problema. Todos estão interessados em saber por que as coisas deram tão errado em Paris, e esperamos cheios de suspense.

Consta que já foram disponibilizados centenas de milhões de euros para a reconstrução. Mas é sequer possível reconstruir o que foi destruído?

Claro. Estou quase segura de que uma parte das abóbadas despencou. Uma outra, onde o calor era muito grande, vai ter que ser reposta, até mesmo por questão de segurança. Mas é possível reconstruir tanto as abóbadas quanto a armação do telhado, incluindo a torre do cruzeiro — não com facilidade, mas sem problemas. Já com as obras de arte, é diferente, mas o edifício certamente se pode restaurar, dispondo da mão-de-obra e verbas necessárias.

A senhora vai ajudar, com sua expertise?

Se nos perguntarem, com todo prazer. Existe uma associação europeia dos arquitetos-chefes de 14 países, mas os franceses têm seu próprio sistema, e não acredito que vão pedir ajuda internacional. Talvez com exceção do telhado de chumbo: aí eles vão precisar de novo de ajuda inglesa, pois na França o processamento de chumbo é proibido por razões de saúde. É claro que nos apoiamos mutuamente quando podemos, irmãs se ajudam entre si.

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