Cabo Verde: Copa do Mundo de Cinema
A história do cinema cabo-verdiano se inicia em 1919, ano em que um esboço de sala de exibição ganha corpo na Ilha de São Vicente
Por Tem Que Ver*
Das quatro seleções estreantes na Copa do Mundo da FIFA deste ano - Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão -, os Tubarões Azuis cabo-verdianos certamente foram aqueles que fizeram a melhor campanha no torneio, alcançando a fase de 16 avos-de-final após uma classificação heroica (num grupo com duas seleções já campeãs mundiais) e saindo sem perder no tempo regulamentar. Além disso, o selecionado insular naturalmente conquistou uma legião de fãs ao redor do planeta, fato este fundamentado, sobretudo, no carisma e nas importantes defesas protagonizadas pelo goleiro Vozinha durante a competição.
Situada em pleno Oceano Atlântico, na porção ocidental do continente africano, Cabo Verde é uma nação de 4.033 km² na qual cerca de 500 mil pessoas habitam um arquipélago formado por dez ilhas. A trajetória da seleção cabo-verdiana começou em 1978, três anos após a independência do país. Ao longo de décadas, a equipe foi acumulando experiência nas eliminatórias africanas - a classificação quase veio para a Copa do Catar, quando disputaram a vaga com a Nigéria até à rodada final. Para a Copa 2026, a vaga finalmente veio após superar os seguintes adversários: Angola, Camarões, Essuatíni (antiga Suazilândia), Líbia e Ilhas Maurício.
O sucesso de Cabo Verde em campo em muito se deve a dois fatores. Primeiro, a liderança de Bubista, ex-capitão e zagueiro da seleção nacional, que assumiu o comando em 2020 implementando forte organização defensiva, disciplina, capacidade de adaptação tática e poderio em contra-ataques. Segundo, o recrutamento de jogadores não nascidos no país, mas que são filhos de indivíduos cuja trajetória remonta à diáspora africana para outros continentes, em especial a Europa.
A história do cinema cabo-verdiano se inicia em 1919, ano em que um esboço de sala de exibição ganha corpo na Ilha de São Vicente. Em 1922, é inaugurado o primeiro espaço oficialmente dedicado à sétima arte no arquipélago, o Eden Park. A popularização do cinema atinge novos patamares nas décadas de 1970 e 1980, com vários espaços improvisados na periferia das cidades servindo como salas de cinema. Eram basicamente quintais e salas que recebiam um equipamento de projeção 16 mm. De resto, cada pessoa levava de casa o seu assento. Os espectadores formavam um público massivamente mais jovem e extremamente entusiasta.
No âmbito da produção cinematográfica, a independência de Cabo Verde, em 1975, foi a mola propulsora do desejo de se produzir imagens próprias do país, que fossem bastante distintas das representações estabelecidas no período colonial, quando o arquipélago estava sob domínio de Portugal. Como representante cabo-verdiano na Copa do Mundo de Cinema, o TemQueVer escolheu Pirinha, média-metragem da cineasta e socióloga Natasha Craveiro. Lançado em 2024 e atualmente disponível na Filmicca, o filme, uma docuficção, estrutura sua narrativa de modo não linear, abdicando do realismo cru para construir um ensaio psicológico. Vale mencionar que pirinha é um termo usado para se referir a doces tradicionais cabo-verdianos e à pureza da infância.
A trama acompanha a jornada interna de uma jovem que mergulha no próprio subconsciente para confrontar fantasmas severos: o abuso sexual infantil e os traumas prolongados na vida adulta. Ao invés de antagonizar a tradição e a modernidade, Pirinha propõe uma síntese. A protagonista utiliza a cosmovisão e o acolhimento ancestral para metabolizar a dor, ressignificando até mesmo as criaturas "malvadas" do folclore local. Descobre-se, de forma dolorosa, que os verdadeiros "demônios" não habitam os mitos, mas, sim, as relações humanas reais.
*Texto originalmente publicado em Tem Que Ver Cinema
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