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Aqui seu celular é proibido e as fotos expostas nunca serão postadas; conheça nova mostra em SP

A exposição 'Fotos que Nunca Serão Postadas', do Instituto ViaFoto, propõe experiência sem registros. Imagens são cobertas por uma cortina e o visitante escolhe se quer vê-las ou não

7 fev 2026 - 05h41
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Antes de entrar na exposição Fotos que Nunca Serão Postadas, no Instituto ViaFoto, na zona oeste de São Paulo, o visitante deve deixar seu celular guardado em um armário trancado com chave. Livre dos aparelhos que insistimos em levar para todo lado, ele se depara com uma espaço expositivo amplo, com luzes baixas, repleto de cortinas pretas onde normalmente estariam as obras de arte.

Cada uma dessas cortinas contém uma descrição em texto apresentando a imagem que está por baixo dela e o nome de quem a registrou. Após a leitura dessa descrição, o visitante pode escolher se deseja ver a imagem ou não, puxando uma corda que revela o que está por trás do pano preto. São imagens fortes, por vezes explícitas, que provavelmente seriam censuradas pelo algoritmo se estivessem em uma rede social.

Foi exatamente isso que os curadores Marcello Dantas e Luciana Brafman, que propuseram a exposição à direção do ViaFoto, queriam contornar. "As redes sociais, que proliferaram a fotografia de forma tão intensa, negligenciaram uma faixa muito grande de criatividade: fotos que são 'impostáveis'. Aquilo que é impublicável pede uma exposição. Se eu não posso fazer disso um post, para onde vai isso?", diz Dantas.

Com isso em mente, ele e Luciana elaboraram uma proposta de exposição que convidasse o visitante a estar realmente presente, a ser surpreendido e impactado pelas fotografias que estão à sua frente. As imagens nem sempre são fáceis de serem vistas (podem causar gatilhos ou sensações desagradáveis) e, justamente por isso, eles queriam permitir que o espectador pudesse ter a escolha ativa de vê-las ou não.

Ideia dos curadores é permitir que o espectador possa escolher se quer ou não ver as imagens
Ideia dos curadores é permitir que o espectador possa escolher se quer ou não ver as imagens
Foto: ViaFoto/Divulgação / Estadão

"Aquilo pode te agredir. E eu respeito e entendo isso", afirma Dantas. Ele também diz que existe certa mágica no ato de levantar a cortina: ao puxar a corda, a luz se revela lentamente, até que fotografia possa ser completamente vista. "Individualmente, para cada pessoa que puxa aquela cortina, tem tempo do texto e o tempo da imagem", completa.

Ao todo, são 35 imagens feitas por uma variedade de nomes, de fotógrafos consagrados a personalidades da mídia. Miguel Rio Branco, um dos grandes nomes da fotografia brasileira, expõe imagem inédita realizada em 1978, censurada no Brasil e na China, nunca exibida em museus.

Gabriel Chaim, fotógrafo brasileiro especializado em zonas de guerra, escolheu fotografia feita em 2019, na Síria. Claudio Edinger apresenta foto feita em 1989 no Hospital Psiquiátrico do Juquery, em Franco da Rocha (SP), parte de uma pesquisa que revelou o íntimo de pacientes do que chegou a ser o maior hospital para pessoas com transtornos mentais da América Latina.

Há também nomes que o grande público facilmente reconhecerá: Zeca Camargo, Mariana Ximenes, Bárbara Paz e Petra Costa, por exemplo. Isso foi uma escolha proposital, segundo a curadoria. "Achamos muito importante buscar pessoas diversas. Não só fotógrafos. A seleção foi feita assim: 'Quem tem algo a dizer, quem tem coragem, quem tem um repertório artístico?'", explica Luciana Brafman.

Na fotografia de Bárbara Paz, dois homens estão de pé, nus e na iminência de um abraço, em cima de um pedra costeira. Ao Estadão, a atriz e cineasta explica que a imagem foi feita durante uma viagem pela Grécia, antes mesmo do convite para participar da exposição. "É um casal de amigos, casados há quase 30 anos. Aquela imagem estava tão linda que eu tinha que fotografar. É uma coisa sobre intimidade e amor, sobre corpos livres", diz.

Registro de Bárbara Paz faz parte da mostra. 'Acho que o privado está ganhando de volta o valor que sempre mereceu', diz
Registro de Bárbara Paz faz parte da mostra. 'Acho que o privado está ganhando de volta o valor que sempre mereceu', diz
Foto: Fernando Mucci/Divulgação / Estadão

Para ela, visitar a exposição é comparável a estar em uma sala de cinema: "Temos de parar para prestar atenção. Hoje o público está muito rápido e tudo é muito efêmero. E a fotografia tem esse poder de eternizar um momento. A fotografia é eterna, é memória. Acho que o privado está ganhando de volta o valor que sempre mereceu".

"A experiência é algo único. Pela primeira vez, você se desfaz e se desconecta. Por meio da leitura, você vê a imagem. Então é algo muito teatral", diz a atriz Natallia Rodrigues, que também expõe uma fotografia na mostra. "Hoje em dia, é tudo sobre um algoritmo, uma censura velada. (Quando veio o convite), pensei: o que não é postado para mim? Como é que eu posso, de alguma forma, apresentar o que não é postado dentro do meu eu feminino?"

Segundo os curadores, as descrições que aparecem nas cortinas pretas foram feitas com ajuda de uma inteligência artificial. O objetivo, segundo eles, era buscar "a neutralidade de uma máquina". "Aquilo que está no texto é a descrição visual do que você tem. Não a descrição metafórica. A gente sente que há um contraste, de certa forma. Em algumas fotos, claramente há um contraste", diz Dantas.

Muitos destes textos revelam apenas temas e características das fotos. Na descrição da fotografia exposta por Oskar Metsavaht, lê-se que um rosto desfocado está coberto por um "objeto escuro levado à boca - possivelmente um microfone, um cigarro ou a própria mão". Quem visitar a exposição verá que não é exatamente nenhuma dessas opções.

Descrições das fotos que aparecem nas cortinas foram feitas por IA para buscar 'a neutralidade de uma máquina'
Descrições das fotos que aparecem nas cortinas foram feitas por IA para buscar 'a neutralidade de uma máquina'
Foto: Phillip Fonseca Zelante/Divulgação / Estadão

"É uma exposição diferente, que precisa de coragem para ser exposta - e essa coragem vem dos curadores. O Marcello e a Luciana resolveram pegar um olhar diferente e nos desafiar. Hoje em dia, vivemos no mundo digital, nas redes, e não temos tempo para viver", aponta David Feffer, presidente do Instituto ViaFoto e presidente do Conselho de Administração da Suzano.

As fotos com temas sensíveis estão sinalizadas na exposição, algumas com contraindicação para quem tem menos de 16 anos, outras para menores de 18. Segundo a curadoria, "não se trata de censura, mas de cuidado".

Luciana espera que as pessoas que visitem a exposição estejam abertas à experiência. "Acho que você pode se surpreender. É importante você de fato ter essa conversa, esse 'um a um' com a obra. De repente, você olha rápido e não vê nada. Mas quando começa a analisar a imagem, vê tudo. E cada um vai ver de uma forma diferente."

Já Dantas deseja que o visitante saia "pensando sobre como documentar a existência do real". "A exposição é sobre a realidade. A realidade inclui fetiche, inclui tabus, inclui imagens duras, difíceis de simbolizar. Inclui as vísceras, inclui a nudez, a sexualidade. Todas essas relações que fazem parte do mundo real. E a gente não quer uma vida desprovida do real."

Fotos que Nunca Serão Postadas

  • Quando: a partir de 5/2. Terça a sexta, das 13h às 19h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h.
  • Onde: Instituto ViaFoto (Rua Fernão Dias, 640, Largo da Batata, Pinheiros, São Paulo)
  • Quanto: Gratuito.
Estadão
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