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Para saúde, beleza e contra fome: plantas mudam vidas em BH

Dos quintais sagrados e terapêuticos ao combate à fome, plantas cumprem papel fundamental na sobrevivência das periferias de Belo Horizonte

10 dez 2021 09h00
| atualizado às 10h09
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Foto: Isabelle Chagas / ANF

Durante a pandemia, quando as ruas do centro de Belo Horizonte perderam parte da agitação costumeira, uma das suas avenidas principais ganhou novas moradoras: flores, ervas medicinais e até mesmo frutíferas passaram a habitar canteiros cujas árvores centenárias vêm perdendo cada vez mais espaço nos últimos anos.

As mãos ágeis que as trazem até ali não escondem o orgulho e o intenso trabalho. O motivo? “As plantas me trouxeram a paz que a droga um dia me roubou. Elas me tiraram da dependência”, conta Jefferson Luiz, idealizador do projeto Canteiros - Augusto de Lima.

Por ali, são muitas as pessoas que já o reconhecem pelo nome. Uma muda, um vasinho ou conselho, tudo é trocado com máxima atenção. Os 11 meses ininterruptos em que ‘bate cartão’ de segunda à sexta-feira, das seis da manhã às seis da tarde, no trecho da Avenida Augusto de Lima entre as ruas da Bahia e Espírito Santo, também marcam a sua mais longa recuperação. Dos 39 anos de vida, soma cerca de 15 entre idas e vindas em casas de reabilitação e a rua.

Mas a relação com as plantas, as raízes e os saberes que as envolvem vêm de longe. Descendente do Quilombo dos Luízes, um dos três quilombos urbanos reconhecidos pelo município de Belo Horizonte, Jefferson cresceu experimentando o que a natureza dava por meio da comida, dos chás e remédios. É seu Jorge, o pai, quem protagoniza as cenas mais afetuosas de que se lembra, quando iam pescar e ele lhe ensinava o nome de cada folha e sua utilidade.

“Nos meus momentos de lucidez, os quais eram raros, duravam uma ou duas horas, eu ficava mexendo nas plantas que tinham lá em casa, ou na rua”, explica. Até que decidiu fazer mudas para vender em quebradas conhecidas de outros tempos, como Morro do Papagaio, Ventosa, Morro das Pedras, Serra e Conjunto Santa Maria.

“Um belo dia, meio surtado, eu parei e sentei aqui, nesse lugar onde estamos. Das dezoito mudas que levava num caixote equilibrado na cabeça, vendi quinze. Comecei a olhar os canteiros cheios de lixo, tudo seco, até que parou uma senhora e quis comprá-las”, Jefferson narra cheio de empolgação. “Foi aí que eu decidi vir para cá e, tudo o que eu não vendia, plantava e ainda planto”.

O tempo trouxe a confiança de moradores e comerciantes, que hoje, além das mudas, negociam pequenos reparos e revitalização de jardins. Nos quarteirões do entorno, já somam 38 novos canteiros cuidados sob encomenda de barbearias, sorveterias e até mesmo da delegacia de polícia, onde plantou um Ipê amarelo. Com o intenso trabalho, que acredita ser um dom, Jefferson afirma que, mesmo se quisesse recair, não lhe sobraria tempo.

No bairro Taquaril, na região Leste, onde mora atualmente com a companheira e os seis filhos adotivos, Jefferson repete o que aprendeu desde a infância. Aquilombando e florescendo o terreno onde antes pouco se plantava, revive saberes que acabam se perdendo, diante das violências e precariedades a que são submetidos os povos pretos e pobres da cidade.

“Minha família nem acredita quando me vê, já tinha perdido a esperança. A carne apodrece, é uma doença devastadora. Mas a alma vai recuperando a carne novamente, assim como as plantas fazem”, conta emocionado. É no tempo das folhas que Jefferson se reencontra e retribui a calma, a persistência e o cuidado que vivia desejando.

Você tem fome de quê?

Foto: Isabelle Chagas / ANF

Do outro lado da cidade, na região Norte, Anezia também arranca suspiros de quem conhece a sua horta, cultivada na laje de 18 metros quadrados no terceiro andar de casa. Feita a partir de materiais reaproveitados, como um carrinho de mão velho, ou um pedaço do que um dia foi um tanque de lavar roupas, além de vasos reciclados muito comuns nas periferias, cultiva mais de 23 tipos de plantas, entre comestíveis e ornamentais e não pretende parar por aí.

Há 15 anos na ocupação urbana Vila Nova, há pouco mais de um ela vem exercitando os saberes aprendidos na observação cotidiana dos pais, na roça da família onde nasceu, no Norte de Minas. “Comecei a plantar na pandemia, quando tive mais tempo, pois fiquei desempregada. As plantas ajudam o bolso e a saúde porque, às vezes, a gente não tem nem um real", diz. “Com duas folhas de couve e um tomate, você faz uma salada; com o limão, faz um suco, se quer um chá, pega hortelã ou melissa, o alecrim e a babosa, eu uso no cabelo. A natureza dá tudo para a gente”, conta Anezia.

Além de distribuir e trocar com as vizinhas, muito do que colhe também é usado em pães, bolos, produtos de higiene e limpeza. As plantas servem tanto para a subsistência dela e dos dois filhos, Ana Gabriela e João Gabriel, de 10 e 18 anos, respectivamente, quanto para a comercialização com a vizinhança, complementando a renda da casa. “E o sabor é totalmente diferente”, conta.

Anezia integra as estatísticas das muitas famílias brasileiras que têm sofrido um grave empobrecimento com a crise sanitária, política e econômica intensificada pela pandemia da Covid-19 no país. Os dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, da Rede Penssan (2021), mostram que mais da metade da população (55%) vive com a incerteza cotidiana de não ter alimentos em quantidade necessária para refeições completas e diárias.

Fome e insuficiência de renda acompanham o desmonte de políticas sociais e o aumento do desemprego. E são as mulheres, principalmente as mães solo e que moram nas periferias, as mais afetadas. Segundo a pesquisa SEM PARAR, das que afirmaram que a situação de isolamento social colocou em risco a sustentação da casa, o trabalho e a vida das mulheres na pandemia (Sempre Viva Organização Feminista e Gênero e Número, 2020), 55% são negras e, entre as principais dificuldades relatadas, está o pagamento de contas básicas, como aluguel e compra de alimentos.

Buscando encontrar estratégias para mitigar os efeitos desse cenário na vida das moradoras da Vila Nova, surgiu o projeto Ora-pro-nóbis: cultivando alimentação saudável na periferia. A pesquisa mostra que mais de 40% das famílias só conseguem consumir frutas e verduras quando ganham, e 7% não o fazem pela falta de recursos. Em contrapartida, houve um aumento significativo no consumo de ultraprocessados, que podem contribuir para o desenvolvimento de comorbidades como diabetes, pressão alta e obesidade, fatores de risco para a Covid-19.

Foto: Isabelle Chagas / ANF

Por meio de encontros formativos, as mulheres da comunidade se juntaram para criar canteiros comunitários e também compartilhar suas vivências. O grupo reúne interesses e saberes dos mais diversos em relação às folhas, que vão desde uma alimentação mais saudável e livre de agrotóxicos à proteção espiritual.

Há quem acredite que alimentar o corpo ultrapassa, em muito, o que se come. É o caso de Maria de Lurdes Oliveira, a Lurdinha, conhecida pelo sincretismo que dá sentido à sua experiência de vida.

Com as plantas, fincar raízes

Quem passa em frente ao muro baixo e ao pequeno portão verde, fachada comum a muitas casas da Vila Nova, não imagina que ali abriga um verdadeiro jardim secreto. Cerca de 50 tipos de plantas, em sua maioria medicinais, são cultivadas há mais de 20 anos por Lurdinha em sua laje.

É ali que ela passa a maior parte do dia, no cuidado com as plantas e com ela mesma, aliviando males e alimentando o corpo para muito além do que pode ser visto. Chamadas por diferentes nomes, cada folha representa energias específicas, e cuja manipulação deve ser feita de forma consciente e diferenciada, dependendo do propósito que se busca. O boldo de Oxalá, por exemplo, no banho é energético, e no chá, além de tranquilizante, alivia dores de enxaqueca e estômago.

Quatro cachorros, um enxame de abelhas Jataís, uma maritaca e uma tartaruga completam a sua conexão com o sagrado, cujas práticas sincréticas foram aprendidas desde a infância, na região do Vale do Jequitinhonha (MG). “Abelhas, maritaca e tartaruga pertencem aos caboclos, aos orixás das matas, cachoeiras e dos rios. E os cachorros, a São Lázaro, São Francisco de Assis e São Judas Tadeu, os protetores dos animais”, conta.

As folhas também acompanham as memórias de luta de Lurdinha e muitas outras mulheres da comunidade, cujos 26 anos de ocupação são marcados por disputas judiciais e ordens recorrentes de despejo. Junto às plantas, elas continuamente trabalham para fincar raízes no chão que tanto lhes foi e ainda é negado, na busca pelo direito à moradia, à alimentação e à uma vida digna.

Colheitas de memórias

No quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, na região Leste da cidade, a luta pela terra acompanha a persistência pela manutenção das tradições de matriz africana e indígena que caracterizam a identidade e o modo de vida da comunidade. As históricas violências sofridas pelo grupo, que vão desde a descaracterização do território original, ocupado desde a década de 1970, por ações policiais à negação da cultura das crianças no ambiente escolar, despertaram em Makota Cassia Kidoiale o desejo de levar os modos de aprendizagem que a formaram, para além dos limites do quilombo.

“Eu não concluí o ensino fundamental, e sempre me perguntei o porquê disso. Com o tempo, fui me livrando de mais essa culpa, entendendo que a gente não tem uma educação pensando a nossa identidade como parte da sociedade. E isso sempre me preocupou, somos uma comunidade com baixa formação, principalmente entre as mulheres”, conta Makota Cassia, filha de Mametu Muiandê.

As reflexões a levaram, junto à sua comunidade, a criarem o projeto Eduka Kuilombu, que está sendo transformado em um programa de afrobetização. Além do próprio território, a iniciativa atende crianças do entorno. Durante a pandemia, uma série de vídeos foram produzidos, criando novas possibilidades de visibilidade do trabalho e intercâmbios. As folhas cumprem papel fundamental na transmissão de saberes dessa proposta.

“Para nós, Deus não é um homem ou um livro, ele é a natureza. E o que a gente ensina para as crianças é que é necessário cultivar a natureza para que a gente faça Deus presente, é através dela que os Nkisis [divindades] se manifestam. Acaba sendo uma matéria de meio ambiente, a preservação do território, das plantas”, explica. Essa conexão se dá a partir do plantio e da colheita, da alimentação da comunidade, dos chás, banhos, enfeites, defumação e aromatização dos ambientes.

As crianças aprendem que, assim como elas, as plantas também têm sua identidade e territorialidade, e precisam ser cuidadas. “A gente só planta o que arranca da terra. Às vezes, num pé de couve, nasce uma erva, e nós não a olhamos como daninha, já que tudo o que a natureza nos oferece, é para nossa manutenção”, ensina Makota.

“Muitas das ervas estão sumindo, mas não por falta de plantio e sim de liberdade para nascerem. Essa identidade ambiental das práticas africanas estão desaparecendo, o que acompanha um processo de extinção da humanidade. É necessário a gente entender o nosso comportamento para que a terra volte a respirar. No Eduka Kilombo nós reafirmamos que, para ter vida, é preciso ter natureza, o que mantém a vida humana e não humana”, completa.

Beabá das folhas e alguns de seus usos

A partir dos prazerosos encontros com Jefferson, Anezia, Lurdinha e Makota Cássia, cada qual partindo de encontros com suas ancestralidades, religiosidades e formas de inventividades cotidianas, listamos as folhas mais citadas e alguns seus usos. Longe de esgotar as possibilidades medicinais, culinárias e sagradas desses seres viventes, a ideia é abrir caminhos.

ALECRIM - Muito utilizado em temperos, principalmente de carnes. Poderoso no combate à caspa e queda de cabelo, pode ser banhado na pele como chá ou colocado um ramo no shampoo. Serve também para chás, aromatização de água e ambientes, defumação e banhos energéticos.

ALGODÃO - Como chá, tem poder antibiótico.

BABOSA - Serve para queimadura, hidratação de cabelo e pele.

BOLDO - Erva de Oxalá, o Deus criador e pai de todos os orixás no Candomblé. Como chá, é usado para enjoos, dores e irritações no estômago, enxaqueca. Para banho, é energizante.

ESPADA DE SÃO JORGE - Indicada colocar no quarto durante a noite, para filtrar as energias do ambiente e também o ar. Debaixo do colchão, diz-se que acalma a criança desobediente.

ESPADA DE SANTA BÁRBARA - No sincretismo religioso, Santa Bárbara representa Iansã. Assim como a espada de São Jorge e a lança de Ogum, é protetora, muito usada na entrada de casas e cômodos. Conta-se que deve ser ganhada, e não comprada.

LAVANDA - Calmante, como chá é usada para TPM e cólicas menstruais. Também serve para banhos energizantes.

MANJERICÃO - Muito utilizado como tempero. Em chás e banhos, tem propriedade calmante e energizante.

ORA-PRO-NÓBIS - Folha rica em ferro, é utilizada em temperos, sucos, saladas, cozida com frango ou carne moída. Em banhos e cercas, tem qualidade protetora.

PAU D’ALHO - Como banho, usa-se para descarrego do corpo.

PINHÃO ROXO - Erva de Exu. O leite das folhas é utilizado para cicatrizar machucados.

SAIÃO - Erva de Oxalá, no sincretismo religioso também ligado aos Pretos Velhos. Usa-se para banhos e chás, propriedade calmante.

SETE FORÇAS - Muito utilizada para banhos e chás, propriedade calmante e energizante.

ANF
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