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'Vamos fazer nossa 1ª aquisição ainda este ano', diz CEO da Shopper

Ao 'Estadão', Fábio Rodas revela que a startup se prepara para comprar uma empresa de software

27 jul 2022 - 17h00
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O supermercado digital Shopper fechou 2021 com aportes que somam R$ 290 milhões. O dinheiro permitiu à companhia passar inabalada pela crise que se instalou sobre o mercado de startups no primeiro semestre deste ano, resultando em demissões e cortes de projetos. Mais do que isso, a Shopper promete ir para o ataque.

Em entrevista ao Estadão, Fábio Rodas, cofundador da companhia, revela que, ainda em 2022, a sua empresa fará uma aquisição de uma empresa de software. Embora o nome não seja revelado, a ideia é turbinar o desenvolvimento dos sistemas da companhia, responsáveis por tarefas que vão desde previsão de demanda à roteirização das entregas.

Na conversa, Rodas, que fundou a Shopper em 2015 junto com Bruna Vaz, também fala sobre a intensificação no setor de compras de mercado online, sobre o atual momento econômico e sobre a desastrada campanha de marketing, que, em maio, fez a empresa ser acusada de explorar a imagem de pessoas em situação de rua e estereotipar asiáticos. Veja abaixo.

Vocês fecharam 2021 com R$ 290 milhões em aportes. O que esse dinheiro tem permitido a vocês?

A gente continua contratando. Hoje, são 1.650 no time. Todo mês são mais de 100 pessoas, e teve mês neste ano que foram mais de 200. A gente viu rodadas estranhas no ano passado, negócios sem fundamentos captando facilmente, e passamos a temer por uma bolha. Então, antecipamos para o ano passado uma rodada que era pra acontecer em abril ou maio deste ano. Isso nos permite não apenas manter a trajetória de contratação, mas também olhar para aquisições. Com certeza vamos comprar uma software house neste ano.

Fábio Rodas é fundador do supermercado digital Shopper junto com Bruna Vaz
Fábio Rodas é fundador do supermercado digital Shopper junto com Bruna Vaz
Foto: Divulgação/Shopper / Estadão

Por que esse tipo de empresa?

Somos uma empresa muito complexa. São mais de 10 mil produtos. A gente compra de centenas de fornecedores diferentes, então temos sistemas de compras desses fornecedores.Temos sistema de previsão de demanda, depois temos que receber a mercadoria e também temos sistema proprietário para isso. Temos sistema para escolher a melhor rota de entrega, temos roteirização, acompanhamento de entrega… Aquilo que o cliente vê no app é apenas a ponta do iceberg. Por baixo, há muita tecnologia. Então, temos robustez de tecnologia e a nossa primeira aquisição vai ser uma empresa de tecnologia pura para acelerar ainda mais o desenvolvimento de todos esses sistemas.

Qual é o nome da empresa que será comprada?

Não temos ainda. Estamos fazendo um funil com alguns nomes e eles têm entre 50 e 150 programadores. Vamos fechar (a compra) até o final do ano.

Vocês estão vendo aquisições de competidores?

A gente sempre olha. Tem dois valores possíveis: a base de clientes e o time ou processos. Em termos de processos e sistemas, é muito difícil achar valor, pois estamos nisso há muito tempo. Em termos de base, pode ser que a gente encontre alguma coisa. Tem chance por esse viés.

Como a Shopper está lidando com o atual momento econômico?

As primeiras mesas da Shopper foram portas que a gente encontrou em caçambas de lixo em São Paulo. A primeira lousa que tivemos também foi achada no lixo. Depois de 5 anos vivendo assim, conseguimos não perder os traços de austeridade. A gente quase não precisou fazer ajustes. Apenas ficamos mais criteriosos para fazer aquisições: baixamos muito a régua na área de fusões e aquisições. Por outro lado, continuamos com as contratações previstas, com as previsões de crescimento… Desde 2018, a gente tem margem positiva. Na época, não tínhamos captado nada, então não havia escolha. E a gente cresce num porcentual constante ano a ano. Tentamos crescer de 150% a 200% todo ano.

A competição no segmento de vocês cresceu e muito dinheiro foi investido em entregas super rápidas. Como vocês navegam nesse novo cenário?

Sobre entregas de 15 minutos, várias empresas fecharam ou deixaram as cidades onde estavam operando nos Estados Unidos, mercado precursor nesse segmento. Pode ser que esse movimento se repita aqui. Quando você tem abundância de capital, você facilita negócios sem fundamentos econômicos. Sobre o nosso setor, a competição aumentou muito. Por outro lado, somos o único player que está há 7 anos nisso e investindo tecnologia para fazer isso muito bem. Os grandes varejistas pegam tecnologias prontas para fazerem os seus processos e nem sempre isso funciona. A curva de aprendizagem nesse setor é longa.

Como trabalhar no cenário de inflação para segurar os repasses de preços?

Nosso setor é muito fragmentado. A indústria tem dificuldade de trabalhar com o pequeno varejista e também não quer ficar dependente do gigante. Então, a indústria tem apoiado muito a gente. O fato de, no aplicativo, o cliente montar a cesta e ela ficar salva tem muito valor. Assim, eles não precisam ficar comprando em gôndola no mercado todo mês. Isso tem facilitado segurar os aumentos e adiar repasses para o consumidor.

Vocês foram bastante criticados pelo anúncio que falava sobre escambo. O que deu errado?

No vídeo completo da campanha, a gente mostrava vários períodos da história: caça, coleta, agricultura, escambo, que precedeu as moedas. Depois veio a vendinha, o supermercado e os apps de entrega. Colocamos a Shopper como modelo mais inteligente, mostrando a evolução nas formas como a humanidade teve para se abastecer. É um vídeo de um minuto e quinze. Cada fase tinha pessoas de diferentes etnias. Então, pegamos frames de cada uma das fases históricas e colocamos nas ruas. Algumas pessoas olharam para o frame do escambo, que estava com vestimentas históricas, e confundiram com um morador de rua. Gerou barulho no microcosmos do Twitter, mas não teve grandes repercussões para a gente. Quando você faz um recorte, você descontextualiza, então decidimos tirar o anúncio.

Faltou olhar com cuidado essa imagem?

Deveria ter colocado, como tem no vídeo, o ano relacionado ao frame. Isso teria ajudado a evitar confusão. Além disso, muita gente confundiu o significado da palavra escambo, achando que isso está ligado a alguma atividade de subsistência de pessoas em situação de rua. Não tem nada a ver. Antes da Shopper, eu a Bruna (Vaz, cofundadora da startup) começamos dentro de um albergue no centro de São Paulo em na ONG Renovatio. As pessoas produziam óculos de grau e moravam no albergue e a gente dava aula para essas pessoas. Elas ganhavam renda e educação. Alguns saíram do albergue e hoje têm casa. A gente sabe que a palavra escambo não é usada para descrever nada de pessoas em situação de rua, mas algumas pessoas não entenderam nada do contexto.

Estadão
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