Críticos contestam benefícios de beber moderadamente
Roni Caryn Rabin
Do New York Times
Trata-se de uma ladainha que a essa altura já se tornou familiar: estudo após estudo demonstra que um uso moderado de álcool pode beneficiar a saúde cardíaca e até mesmo ajudar a prevenir diabetes e demência senil.Os indícios positivos são tão abundantes que alguns especialistas consideram que o consumo moderado de álcool - à razão de cerca de um drinque ao dia para as mulheres e dois para os homens - seja um componente central de um estilo de vida saudável.
Mas e se tudo isso for um grande erro? Para alguns cientistas, essa questão persiste. Não existe qualquer estudo, apontam os críticos, que tenha estabelecido uma relação causal entre beber moderadamente e um risco de morte mais baixo - apenas indicações de que ambas as tendências parecem existir em paralelo. Pode ser que beber moderadamente seja simplesmente alguma coisa que as pessoas saudáveis costumam fazer e não algo que as torne saudáveis porque o fazem.
"As pessoas que bebem moderadamente tendem a fazer todo o resto de maneira igualmente certa - elas se exercitam, não fumam, comem de maneira correta e bebem com moderação", diz Kaye Middleton Fillmore, socióloga aposentada da Universidade da Califórnia em Middleton e uma das críticas das pesquisas que apontam os benefícios do álcool. "É muito difícil desemaranhar todas essas influências e isso constitui um problema real".
Alguns pesquisadores afirmam que se preocupam em função dos erros cometidos em estudos sobre terapia de substituição de hormônios, um método que foi prescrito amplamente durante anos com base em estudos observacionais semelhantes à modalidade que costuma ser apontada como prova dos benefícios do álcool. Também surgiram questões sobre os relacionamentos financeiros que vieram a se desenvolver entre fabricantes de bebidas alcoólicas e muitos centros acadêmicos, que aceitaram verbas oferecidas pelo setor para custear programas de pesquisa, treinar estudantes e promover as conclusões dos estudos realizados por seus pesquisadores.
"O resumo da questão é não existe um único estudo realizado sobre o consumo moderado de álcool e resultados de mortalidade que represente uma pesquisa inatacável - a espécie de teste clínico com designação aleatória de participantes e uso de grupos de controle que seria requerido para que um novo agente farmacêutico pudesse ser colocado à venda no mercado norte-americano", disse o Dr. Tim Naimi, epidemiologista do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.
Até mesmo os mais ávidos defensores dos supostos benefícios de um consumo moderado de álcool temperam suas recomendações com alertas sobre os perigos do álcool, que já foi vinculado ao câncer de mama e pode resultar em acidentes mesmo quando consumido em pequenas quantidades, além de estar conectado a doenças hepáticas, outras formas de câncer, danos cardíacos e derrames, se consumido em largas quantidades.
"É muito difícil formular uma mensagem unificada sobre a questão porque a verdade é que não existe uma forma de resumi-la que sirva a todos, e isso acarreta a necessidade de formular a mensagem de saúde pública quanto a esse tema de maneira muito conservadora", afirma o Dr. Arthur Klatsky, cardiologista em Oakland, na Califórnia, que dirigiu um estudo histórico no começo dos anos 70, de acordo com o qual os beneficiários do plano de saúde Kaiser Permanente, que bebiam de maneira moderada, apresentavam menor probabilidade de hospitalização por ataques cardíacos do que aqueles que eram abstêmios. (Posteriormente, ele veio a receber verbas de pesquisa financiadas por uma fundação setorial da indústria do álcool, ainda que ressalve que pelo menos um dos estudos que conduziu ao longo dos anos tenha constatado que o álcool eleva o risco de hipertensão.)
"As pessoas que não são capazes de se limitar a apenas um ou dois drinques por dia não deveriam beber e as pessoas que sofrem de doenças hepáticas tampouco deveriam consumir álcool", diz Klatsky. Por outro lado, "o homem de seus 50 ou 60 anos que sofre um ataque cardíaco e decide viver de maneira limpa, abrindo mão do cálice de vinho que costumava tomar a cada noite - para uma pessoa como essa, beber moderadamente decerto representa uma forma mais eficiente de cuidar da saúde".
As organizações de saúde usam de extrema cautela ao formular suas recomendações quanto a essa questão. A Associação Cardíaca Americana diz que as pessoas não deveriam começar a beber como forma de proteção contra doenças cardíacas. As normas de orientação dietética adotadas oficialmente pelo governo dos Estados Unidos em 2005 afirmam que "o álcool pode ter efeitos benéficos, quando consumido com moderação".
Essa associação foi feita inicialmente no começo do século 20. Em 1924, um biólogo da Universidade Johns Hopkins, Raymond Pearl, publicou um gráfico que trazia uma figura em forma de U. Os dois traços mais altos de cada um dos lados representavam os índices de mortalidade mais pesados entre as pessoas abstêmias e as que bebiam pesadamente, enquanto a porção central mais baixa mostrava as pessoas que bebem moderadamente e apresentam índices de mortalidade mais baixos. Dezenas de outros estudos observacionais reproduziram essa observação, especialmente com relação a pacientes de doenças cardíacas.
"Com a exceção da correlação entre fumo e câncer de pulmão, eu diria que essa é a mais estabelecida das correlações no campo da nutrição", diz Eric Rimm, professor associado de epidemiologia e nutrição na Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard. "Existem provavelmente cerca de 100 estudos, até o momento, e esse número parece crescer de mês a mês. É isso que torna a situação com relação ao uso moderado de álcool tão única".
Acredita-se que o álcool resulte em redução da incidência de doenças coronárias porque pesquisas constataram que ele eleva o colesterol "bom", o HDL, e tem propriedades anticoagulantes. Também foram sugeridos outros possíveis benefícios. Um pequeno estudo conduzido na China constatou que pacientes idosos que sofrem de redução de capacidade cognitiva se deterioravam menos quando usuários moderados de álcool do que se fossem abstêmios.
Um relatório do Framingham Offspring Study, um estudo médico de longa duração, constatou que as pessoas que bebem moderadamente apresentam densidade mineral superior nos seus ossos pélvicos e na bacia do que os abstêmios. Alguns pesquisadores também reportaram de que a probabilidade de que usuários moderados de álcool desenvolvam diabetes é inferior à registrada entre os abstêmios e que os pacientes portadores de diabetes tipo 2 que bebem moderadamente apresentam menor incidência de doenças cardíacas coronárias do que os abstêmios que sofrem da mesma doença.
Mas os estudos que comparam abstêmios a usuários moderados de álcool estão sob ataque, já há alguns últimos anos. Os críticos apontaram para questões como: Quem são esses abstêmios? Por que eles não usam álcool? Há alguma coisa que os torne mais suscetíveis a doenças cardíacas?
Alguns pesquisadores suspeitam que o grupo dos abstêmios possa incluir pessoas que desistiram de beber porque já tinham doenças cardíacas. Além disso, também existe uma tendência a reduzir o consumo de álcool, à medida que uma pessoa envelhece, o que tenderia a elevar a idade média dos abstêmios - e isso bastaria para torná-los mais suscetíveis a doenças, quando comparados aos usuários moderados de álcool tomados como média.
Em 2006, pouco depois que Fillmore e colegas publicaram uma análise crítica na qual alegavam que vasta maioria dos estudos sobre álcool que haviam revisado apresentavam sérias falhas, o Dr. R. Curtis Ellison, médico da Universidade de Boston que defende os benefícios de saúde do uso moderado de álcool, organizou uma conferência sobre o assunto. Um sumário dos debates realizados no evento, publicado um ano mais tarde, indicava que os cientistas haviam atingido um "consenso" no sentido de que o uso moderado de álcool "tinha consequências predominantemente benéficas comprovadas, para a saúde".
Essa conferência, como boa parte dos trabalhos de Ellison, foi financiada em parte por verbas doadas por companhias produtoras de bebidas alcoólicas. E o sumário foi redigido por Ellison e Marjana Martinic, vice-presidente sênior do Centro Internacional de Normas quanto ao Álcool, uma organização sem fins lucrativos cujas operações são custeadas pelo setor de bebidas. O centro pagou pela produção de dezenas de milhares de cópias do resumo, que foram incluídas como encartes gratuitos em duas publicações médicas, o American Journal of Medicine e o American Journal of Cardiology.
Ellison afirma em entrevista que seu relacionamento com as empresas fabricantes de bebidas alcoólicas não influencia seu trabalho, acrescentando que "ninguém consideraria como aceitáveis as críticas que publicamos caso não apresentássemos uma visão ponderada". Fillmore e outros coautores de sua análise postaram um comentário online sobre as discussões no qual afirmam que o resumo havia desconsiderado algumas das profundas divergências que polarizaram os debates na conferência.
"Também contestamos as conclusões de Ellison e Martinic de que o uso mais frequente de álcool serve como o mais forte fator de projeção quanto a benefícios de saúde", eles escreveram. (Fillmore recebeu apoio da Fundação de Educação e Reabilitação sobre o Álcool, da Austrália, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para prevenir o abuso de álcool e outras substâncias.)
Ellison afirma que a análise de Fillmore ignora estudos mais recentes, nos quais foram corrigidos os erros metodológicos constatados em trabalhos anteriores. "Ela jogou o bebê fora junto com a água do banho", ele afirmou.
Enquanto isso, duas questões fundamentais continuam irresolvidas: determinar se existem diferenças essenciais entre os consumidores moderados de álcool e os abstêmios e, caso existam, se essas diferenças é que fazem o primeiro grupo apresentar maior longevidade e não o seu uso de álcool.
Naimi, do Centro de Controle de Doenças, que conduziu um estudo sobre as características dos abstêmios e dos usuários moderados de álcool, afirma que os dois grupos são tão diferentes que simplesmente não existe como compará-los. Os usuários moderados de álcool são mais saudáveis, têm mais dinheiro e apresentam nível de educação mais elevado e também desfrutam de serviços de saúde superiores aos dos abstêmios, ainda que a probabilidade de que sejam também fumantes seja mais elevada. A probabilidade de que ainda tenham todos os seus dentes, o que representa mais um indicador de bem-estar, é igualmente mais elevada.
"Os usuários moderados de álcool tendem a apresentar vantagens sociais que podem não se relacionar em nada ao uso de bebidas", disse Naimi. "Os dois grupos não apresentam pontos válidos de comparação". E um simples conselho de que os abstêmios se beneficiariam de um uso moderado de álcool não mudará essa situação, ele afirma.
Alguns especialistas afirmam que chegou a hora de conduzir um grande teste clínico, com prazo longo, seleção aleatória de participantes e uso de grupos de controle, tal como os empregados para os medicamentos importantes. Uma possível abordagem seria recrutar um grande número de abstêmios que seriam designados aleatoriamente para ou receber uma dose diária de álcool ou não, e depois seriam acompanhados por alguns anos. Outra possibilidade seria recrutar pessoas que apresentam risco de doenças coronárias.
Mas até mesmo os especialistas que acreditam nos benefícios de saúde do álcool afirmam que essa é uma ideia implausível. Testes de grande porte como esse custam muito caro e não costumam ter credibilidade, a não ser que financiados pelo governo, que dificilmente se interessaria por assumir uma posição quanto a essa controvérsia. E existem problemas práticos e éticos quanto a oferecer álcool a abstêmios, sem que estes o saibam e sem que fazê-lo contribua para maior número de acidentes.
Ainda assim, existem alguns pequenos testes clínicos em curso para determinar se os diabéticos podem reduzir seu risco de doenças cardíacas pelo uso do álcool. Em Boston, pesquisadores do Centro Médico Beth Israel Deaconess estão recrutando voluntários com 55 anos ou mais que sofrem risco de doença cardíaca e os designam aleatoriamente para grupos que bebem uma dose de limonada ou uma dose de limonada temperada com álcool sem sabor a cada dia, enquanto os cientistas acompanham seus níveis de colesterol e o nível de obstrução em suas artérias.
Em Israel, pesquisadores deram a pacientes de diabetes tipo 2 ou vinho ou uma cerveja sem álcool e constataram que os usuários de vinho apresentam queda significativa do nível de açúcar no sangue, ainda que apenas depois de jejuns; os cientistas israelenses agora estão colaborando com uma equipe internacional para iniciar um teste maior, de dois anos de duração. "A última coisa que desejamos como pesquisadores e como médicos é expor as pessoas a algo que poderia prejudicá-las e é esse temor que nos impediu de conduzir um teste", diz o Dr. Sei Lee, da Universidade da Califórnia em San Francisco, que recentemente propôs um grande teste sobre os efeitos do álcool na saúde.
"Mas trata-se de uma questão realmente importante", ele prosseguiu. "Porque temos uma substância muito acessível e amplamente usada que pode ter efeitos positivos significativos sobre a saúde mas não sabemos o bastante a respeito para que possamos fazer recomendações".
Tradução: Paulo Migliacci ME