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Quem dá o tom da infância? Limites, tempo e a puberdade da primeira infância

*Por Beatriz Perpetuo

12 fev 2026 - 05h47
(atualizado às 07h31)

Aos 6 anos, a criança atravessa um marco profundo de desenvolvimento da infância. Algo muda — no corpo, no pensamento, na forma de sentir e de se relacionar com o mundo. Surgem comportamentos mais desafiadores, testes constantes de limites, maior necessidade de autoafirmação e uma curiosidade intensa por explorar possibilidades.

A criança não precisa de adultos perfeitos, precisa de adultos presentes
A criança não precisa de adultos perfeitos, precisa de adultos presentes
Foto: Canva Fotos / Perfil Brasil

Nessa fase, a criança passa a ter mais clareza do que é considerado certo e errado, mas ainda não possui plena consciência das consequências de seus atos. Por isso, o comportamento muitas vezes parece contraditório: ela sabe o que é esperado, mas ainda não consegue sustentar isso de forma consistente.

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A chamada "puberdade do dente mole"

Nos últimos anos, especialistas passaram a nomear esse período como a "puberdade do dente mole" — uma metáfora potente para explicar a intensa reorganização neurológica e emocional que acontece, em geral, entre os 5 e 7 anos.

O neuropsiquiatra Daniel J. Siegel descreve essa etapa como um momento de nova integração neural. Emoções se intensificam, o pensamento se expande e a criança começa a se perceber com mais consciência no mundo. Há um desejo crescente de autonomia, mas sem maturidade suficiente para antecipar consequências, o que ajuda a compreender muitos dos conflitos dessa fase.

No Brasil, o pediatra Daniel Becker reforça que não se trata de falha na educação nem de um problema de comportamento, mas de um salto de desenvolvimento. A criança testa limites porque está tentando entender quem é e até onde pode ir. Não há culpa nesse processo. Há crescimento.

A adolescência da primeira infância

Como educadora, eu ouço, vejo e sinto essas transformações diariamente — nas crianças e também nas famílias. Muito antes de essa fase receber um nome, eu costumava dizer que os 6 anos eram a adolescência da primeira infância.

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É um tempo de transição interna, de reorganização emocional, de perguntas silenciosas e atitudes intensas. Curiosamente, essa leitura dialoga com saberes mais antigos. A pedagogia dos setênios, inspirada por Rudolf Steiner, já apontava que por volta dos 7 anos ocorre uma virada importante no desenvolvimento humano.

Talvez por isso essa fase seja tão intensa.

Não é ruptura. É reorganização.

É importante dizer com clareza: a expressão de descontentamento da criança não é culpa de um terceiro. Não há culpados. Há uma criança testando a si mesma, seus recursos internos e os contornos do mundo.

A pergunta silenciosa que atravessa essa fase costuma ser simples e profunda:

"Até onde eu dou conta de ir?"

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A criança precisa de respeito e de diálogo. Precisa ser ouvida, acolhida e reconhecida em seus sentimentos. Mas isso não exclui limites — pelo contrário. O respeito é construído quando os limites são claros, previsíveis e sustentados com presença adulta.

Rotina, repetição e previsibilidade não engessam a infância.

Elas organizam.

O adulto dá o tom da música

Costumo dizer que é o adulto quem dá o tom da música que a criança vai compor. No início, ela ainda não consegue se compor sozinha. Precisa de alguém que organize o ritmo, sustente a melodia e conduza o compasso.

Com o tempo — e justamente por ter vivido essa condução — ela aprende a compor a própria música.

A criança quer se realizar, experimentar, satisfazer seus desejos. Isso é saudável. O fortalecimento da autonomia acontece quando o adulto organiza o caminho e oferece escolhas que a criança realmente consegue sustentar naquele momento do desenvolvimento.

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É assim que ela se percebe capaz.

Disciplina positiva e limites saudáveis

Na perspectiva da Disciplina Positiva, como propõe Jane Nelsen, gentileza e firmeza caminham juntas. O tom afirmativo é importante, mas é preciso afirmar com clareza:

positividade não exclui disciplina, nem limite.

Liberdade saudável nasce da disciplina.

Autonomia verdadeira nasce de limites possíveis.

Limite não é conter a vida.

Limite é direcionar, mediar e cuidar.

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Do meu lugar de educadora...

Com o tempo, aprendi que educar não é acelerar processos nem evitar conflitos.

É sustentar.

Sustentar o limite quando a criança ainda não consegue.

Sustentar o silêncio quando não há resposta pronta.

Sustentar o tempo — porque crescer leva tempo.

A criança não precisa de adultos perfeitos. Precisa de adultos presentes, que não relativizem o respeito e não se ausentem quando o caminho fica difícil. Quem ama, cuida. E quem cuida, delimita.

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Hoje acredito profundamente que só é emocionalmente saudável quem teve limites na vida. Limites que não machucaram, mas organizaram. Que não calaram, mas deram contorno. Que não apagaram a infância, mas a protegeram.

Enquanto a criança ainda aprende a se compor, alguém precisa dar o tom. Não para controlá-la, mas para que ela não se perca dentro de si. E isso não é pouco. Isso é enorme.

Educar talvez seja isso: dar o tom, sustentar o ritmo e permanecer ao lado até que a criança consiga, sozinha, compor sua própria música e dançar no mundo com segurança.

*Por Beatriz Perpetuo - Educadora inquieta, apaixonada por gente e por transformação. São mais de 30 anos de atuação na educação, sendo 18 deles na liderança pedagógica, formando times, projetos e, principalmente, pessoas.

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*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião de Perfil Brasil.
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