O que começou como uma tentativa de superar um recorde mundial terminou com um resultado que vai muito além da marca esportiva. Aos 43 anos, o guarda-vidas Flávio Henrique Pinto dos Santos percorreu impressionantes 201 quilômetros em uma esteira manual durante 24 horas ininterruptas, em Praia Grande, no litoral de São Paulo.
Além de ultrapassar o recorde registrado no Guinness World Records para a modalidade, o desafio também arrecadou 1,1 tonelada de alimentos que serão destinados ao Fundo Social de Solidariedade do município.
Recorde histórico e solidariedade
A prova aconteceu na Arena Torcida PG e superou a marca anterior, de 188 quilômetros, pertencente ao multiatleta brasileiro Pepe Fiamoncini. Flávio também foi além da meta que havia estabelecido para si mesmo, de 195 quilômetros.
Apesar da conquista histórica, ele afirma que o maior objetivo nunca foi apenas bater um recorde. "Decidi entrar para os bombeiros para ajudar as pessoas e agora quero ajudar também fora da corporação. Acredito que estamos aqui de passagem e, nesse tempo, não devemos pensar apenas nas nossas vidas. Temos que pensar no próximo também", afirmou, em entrevista ao gshow.
Essa não é a primeira vez que o guarda-vidas une esporte e solidariedade. Em 2025, ele já havia realizado uma corrida de 24 horas pelas ruas de Praia Grande, quando percorreu 169 quilômetros e arrecadou mais de uma tonelada de alimentos para doação.
Muito além da força de vontade
Embora correr mais de 200 quilômetros possa parecer resultado apenas de determinação, desafios dessa magnitude exigem meses de preparação física e mental. Após descobrir que existia um recorde mundial para a corrida em esteira manual, Flávio decidiu oficializar uma tentativa junto ao Guinness. Com a autorização concedida, iniciou um período específico de adaptação ao equipamento.
Segundo ele, correr em uma esteira manual é bastante diferente de utilizar uma esteira convencional, já que todo o movimento depende exclusivamente do impulso do próprio corpo. "Fiquei um mês treinando especificamente na esteira manual. É muito diferente de uma esteira comum. Você precisa controlar o ritmo o tempo inteiro. Se desvia o olhar por alguns segundos, já diminui a passada e perde velocidade."
Além desse período de adaptação, o atleta manteve uma rotina diária de corridas entre 10 e 20 quilômetros e já acumulava experiência em provas de endurance, como ultratriatlos e Ironman. Estudos publicados na revista científica Sports Medicine mostram que o desempenho em ultramaratonas depende de uma combinação de fatores, como elevada capacidade aeróbica, boa economia de corrida, estratégia de ritmo, resistência muscular, experiência em provas longas e um planejamento cuidadoso de alimentação e hidratação durante todo o percurso.
Alimentação, pausas e o desafio da madrugada
Durante as 24 horas de prova, Flávio precisou administrar cada minuto disponível. A cada hora completada, ele tinha direito a cinco minutos de pausa, mas sabia que utilizar todo esse tempo poderia comprometer a tentativa de recorde.
Por isso, praticamente todas as necessidades foram atendidas enquanto ele permanecia em movimento. "Comi correndo, bebi água, isotônico, carboidrato em gel, carboidrato em pó. Em dois momentos comi macarrão com purê, tudo em cima da esteira."
O momento mais difícil aconteceu durante a madrugada, quando o sono passou a disputar espaço com o desgaste físico. "O sono bateu muito forte. Teve hora em que eu olhava para o painel da esteira e parecia que estava tudo embaralhado."
Mesmo diante do cansaço extremo, o guarda-vidas explica que a vontade de desistir faz parte de qualquer prova de longa duração. "No endurance, a vontade de desistir sempre vem. Em vários momentos. O que muda é como você trabalha isso. Eu tento usar essa dor e essa vontade como combustível para continuar, não como motivo para parar."
Um recorde que inspira outras pessoas
Depois de ultrapassar os 188 quilômetros, Flávio conta que sentiu um alívio por saber que havia atingido a marca necessária. Como ainda restava tempo, decidiu continuar correndo e terminou o desafio com 201 quilômetros percorridos. Agora, ele aguarda a validação oficial do Guinness World Records, para a homologação da nova marca.
Mais do que entrar para a história, porém, o guarda-vidas espera que sua experiência incentive outras pessoas a adotarem hábitos mais saudáveis e a acreditarem que grandes conquistas começam com pequenos passos. "O que motiva a gente é motivar a galera. Mostrar que, se eu estou correndo 24 horas, eles também podem correr uma hora, meia hora, começar do zero". Ao unir esporte, solidariedade e superação, Flávio mostra que recordes podem ser importantes, mas o impacto positivo que deixam na vida de outras pessoas pode ser ainda maior.