Após os excessos das festas de fim de ano, a ideia de começar 2026 com uma folha em branco pode ser atraente. Pós, comprimidos, chás e sucos "desintoxicantes" prometem uma renovação rápida, muitas vezes com afirmações grandiosas sobre a eliminação de toxinas do corpo.
Essas promessas parecem científicas, mas não correspondem ao que desintoxicação realmente significa. Na medicina, desintoxicação refere-se à remoção de substâncias nocivas do corpo em condições controladas, especialmente no contexto de dependência química ou envenenamento.
Fora desse contexto, a indústria do bem-estar ampliou o significado da palavra para abranger uma ampla gama de práticas e produtos que afirmam livrar o corpo de toxinas não especificadas. Essas afirmações não são comprovadas pela ciência médica.
Nosso corpo possui um sistema de desintoxicação altamente eficaz. O fígado e os rins fazem a maior parte do trabalho. Quando comemos ou bebemos, os nutrientes e os resíduos entram na corrente sanguínea e passam pelo fígado. O fígado produz bílis para ajudar a decompor as gorduras e eliminar as toxinas por meio das fezes e da urina.
O sangue passa então pelos rins, onde pequenas unidades de filtragem chamadas néfrons removem resíduos e substâncias em excesso, enviando o sangue purificado de volta à circulação. Pequenas quantidades de resíduos também são removidas por meio do suor, do ar exalado e da digestão normal. Quando esse sistema falha, os efeitos são graves e óbvios. As pessoas desenvolvem sintomas que requerem cuidados médicos urgentes, não uma dieta especial à base de sucos.
Um problema com a cultura do "detox" é que ela pode até incentivar o consumo excessivo, principalmente de álcool, na esperança de que uma limpeza pós-bebedeira reverta os danos. A única maneira confiável de limitar o impacto do álcool é reduzir a quantidade que bebemos. Nenhum produto ou bebida desintoxicante reverte os efeitos do excesso de álcool.
As abordagens do "detox" variam muito. Algumas são praticamente inofensivas, mas inúteis, enquanto outras apresentam riscos reais. O grupo inofensivo tende a se basear em ideias que parecem saudáveis à primeira vista, mas não são respaldadas por boas evidências.
As "limpezas" com sucos e dietas apenas líquidas, por exemplo, removem ou decompõem grande parte das fibras das frutas e vegetais. Algumas vitaminas e compostos antioxidantes também são perdidos, e os açúcares ficam mais rapidamente disponíveis porque a estrutura da planta é decomposta. Embora beber frutas e vegetais na forma de suco seja melhor do que não consumi-los, comer frutas e vegetais inteiros tende a manter as pessoas saciadas por mais tempo e oferece benefícios nutricionais mais consistentes do que beber suco.
Água com limão é outra recomendação comum. Ela pode ter um sabor forte e refrescante, mas não queima gordura nem remove toxinas.
Chás "detox" com adição de ervas ou minerais são outros produtos frequentemente propagandeados. Alguns contêm nutrientes como selênio, mas esses já são encontrados em muitos alimentos do dia a dia, incluindo frutos do mar, aves e nozes.
Muitos planos "detox" incentivam a redução do consumo de álcool e cafeína. Reduzir o consumo de álcool traz benefícios claros e comprovados para a saúde, mas cortar totalmente o café ou o chá é algo desnecessário para a maioria das pessoas. O consumo moderado de cafeína, cerca de três a quatro xícaras de café por dia, pode se encaixar confortavelmente em uma dieta saudável e até trazer alguns benefícios.
Mas algumas práticas "detox" vão além de serem inúteis e se tornam perigosas. A ingestão excessiva de líquidos é uma característica de vários regimes de desintoxicação.
Um relato de caso descreveu uma mulher que chegou ao hospital com convulsões após consumir grandes quantidades de água e remédios fitoterápicos como parte de um regime de desintoxicação. Seus níveis de sódio tinham caído drasticamente, uma condição chamada hiponatremia, causada pela diluição dos sais no corpo mais rapidamente do que os rins conseguiam corrigir o equilíbrio.
Comprimidos e pós desintoxicantes também podem representar riscos, dado que seus ingredientes nem sempre estão claros.
Alguns suplementos à base de ervas comercializados para limpeza ou apoio ao fígado têm sido associados a lesões hepáticas, como produtos que contêm extrato concentrado de chá verde, açafrão ou misturas complexas de ervas. É uma ironia infeliz que esses produtos possam acabar prejudicando o próprio órgão que realiza a maior parte da desintoxicação do corpo.
Então, há alguma evidência que apoie uma dieta "detox" de Ano Novo? A resposta curta é "não". O funcionamento saudável do fígado e dos rins é suficiente para processar a ingestão alimentar diária. Quando o sistema de desintoxicação do corpo falha, como na insuficiência renal, são necessárias intervenções médicas, como diálise (não água com limão ou bebidas à base de ervas). Para o resto de nós, no entanto, pequenas mudanças sustentáveis são muito mais eficazes do que "limpezas" extremas de curto prazo.
Começar um novo padrão alimentar em janeiro pode ser motivador, mas rotinas drásticas e restritivas são difíceis de manter. Pesquisas mostram que mudanças consistentes e moderadas, como aumentar a ingestão de frutas e vegetais e reduzir o consumo excessivo de açúcar livre e álcool contribuem para a saúde a longo prazo mais do que as dietas "detox" da moda.
Em última análise, os sistemas naturais do seu corpo são extremamente eficientes para sua desintoxicação. Confiar neles e apoiá-los com escolhas saudáveis no dia a dia é muito mais eficaz do que correr atrás do mais novo suco, pó ou chá da moda. Uma abordagem sustentável, em vez de uma mudança radical, será melhor para a sua saúde, não apenas em janeiro, mas durante todo o ano.
Rachel Woods não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.