Venda de carnes silvestres, tanto para subsistência quanto para servir turistas, ameaça mamíferos da Amazônia

Milhões de pessoas dependem da carne silvestre na região, e juntas elas consomem mais de meio milhão de toneladas anualmente

22 jan 2026 - 18h01

O comércio regional e internacional de animais selvagens e produtos de origem animal na Amazônia tem sido alvo de escrutínio global. Espécies vulneráveis e ameaçadas de extinção são vendidas como animais de estimação, violando o direito internacional, e a demanda por produtos de origem animal para alimentação pode levar à caça insustentável sobre essas e outras espécies.

As cidades amazônicas são centros de comércio de espécies nativas e da carne e produtos derivados delas. A cidade de Iquitos, na Amazônia peruana, conhecida como a "cidade-ilha" devido à falta de conexões rodoviárias (embora isso possa mudar em breve), e seu mercado Belén estão entre as fontes mais significativas e notórias de produtos de origem animal na região. De acordo com a legislação peruana, a comercialização de produtos de espécies nativas é ilegal, a menos que provenham de uma região com um plano aprovado de manejo da vida selvagem. Mas são poucos os planos de manejo na região.

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Talvez o produto animal mais importante comercializado em Iquitos seja a carne de espécies nativas para alimentação, a chamada "carne silvestre". Essa carne vem das florestas tropicais de todo o departamento de Loreto e é comercializada por intermediários em cidades portuárias para chegar aos mercados. As espécies que compõem a carne silvestre disponíveis em Iquitos mudaram drasticamente ao longo dos anos, em resposta à evolução das preferências gustativas dos consumidores e ao declínio na disponibilidade de espécies vulneráveis.

Animais como o jacaré-açu (Melanosuchus niger), o peixe-boi-amazônico (Trichechus inunguis), o macaco-prego (Lagothrix lagothricha), a anta (Tapirus terrestris) e o cateto-de-lábio-brancos (Tayassu pecari) já foram comercializados em volumes imensos em relação à população de Iquitos, mas agora são considerados regionalmente ameaçados de extinção, com exceção do jacaré-açu devido à sua grande distribuição geográfica. A popularidade dessas espécies deu lugar a outras mais comuns, como a paca (Cuniculus paca), o caititu (Dicotyles tajacu) e o veado-mateiro (Mazama americana), cuja carne vermelha tem sabor semelhante ao da carne bovina e suína, que agora dominam os mercados de carne silvestre.

A história natural dessas espécies, incluindo sua fisiologia e taxa reprodutiva, as torna uma opção mais sustentável de carne silvestre para alimentação. As tendências do mercado no comércio de carne silvestre foram bem documentadas em Iquitos com pesquisas robustas com vendedores, mas os consumidores urbanos da carne impulsionam a demanda e o preço. Modelos baseados em extensas entrevistas com consumidores indicam que podem existir duas populações distintas de consumidores na cidade, com necessidades e demandas muito diferentes.

Restaurantes para turistas

Há pontos críticos de consumo de carne silvestre no centro de Iquitos, uma área rica que recentemente começou a atender ao crescente setor de turismo e que abriga o famoso mercado Belén, e em comunidades periurbanas localizadas ao longo da estrada Iquitos-Nauta, nas periferias mais pobres da cidade. Os consumidores mais ricos do centro de Iquitos eram mais propensos a consumir carne silvestre — e em maiores quantidades quando a consumiam — do que os consumidores mais pobres da mesma área.

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A prevalência da carne silvestre como um item de luxo pode ser vista nos cardápios dos restaurantes em todo o centro da cidade, onde pratos como guizo de majás, ou ensopado de paca, são anunciados como pratos locais imperdíveis para moradores e turistas. É interessante notar também o surgimento de restaurantes mais voltados para turistas que declaram não servir carne silvestre por motivos de conservação. O uso da carne silvestre para diversificar o paladar dos consumidores ricos é uma tendência que também tem sido observada em outros centros urbanos da Amazônia.

A importância da carne silvestre para os consumidores mais pobres nas comunidades periféricas de Iquitos indica que ela desempenha um papel totalmente diferente ali: segurança alimentar. As pessoas mais pobres também eram muito propensas a consumir carne silvestre, mas era improvável que comprassem essa carne. Em vez disso, sua fonte era geralmente presentes de familiares que vivem em regiões rurais onde é possível caçar, o que constitui uma cadeia de abastecimento informal fora da economia de mercado da cidade.

Esses consumidores também podem ainda manter práticas culturais que persistem desde a migração recente das áreas rurais, incluindo o consumo de carne silvestre. A composição das espécies comercializadas é totalmente diferente da dos mercados, com maior prevalência de espécies menos preferidas e baratas, como primatas. A magnitude dessa cadeia de abastecimento informal — que pode ser quase igual à do comércio no mercado, com dezenas de milhares de animais vendidos anualmente — indica que o consumo de carne silvestre pode ser maior na cidade do que se pensava anteriormente.

Envolvimento da comunidade

Esses consumidores são exemplos das milhões de pessoas que dependem da carne silvestre na Amazônia, que juntas consomem mais de meio milhão de toneladas de carne silvestre, que fornece cerca de metade das proteínas e do ferro necessários à sua alimentação, anualmente. O manejo de mamíferos como a paca, o caititu e o veado-mateiro, juntamente com espécies vulneráveis como a anta e primatas de grande porte, é uma área de foco crítica para garantir a conservação e, ao mesmo tempo, a segurança alimentar de consumidores rurais e urbanos.

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Os sistemas de conservação baseados na comunidade, nos quais práticas, conhecimentos e valores das comunidades rurais e indígenas orientam o desenvolvimento de regimes de manejo, podem ser altamente eficazes para alcançar esses objetivos. Garantir que essas comunidades tenham a posse de suas terras e a autonomia para tomar decisões sobre o uso da biodiversidade nelas é a base para um caminho a seguir para essas espécies, que garante que as florestas e os meios de subsistência tradicionais permaneçam intactos.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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