Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
A carioca Catherine Leão, que vive há sete anos na Argentina, vai às compras preocupada: o aumento de preços tem desacelerado no país, mas ainda assusta. O poder de compra concorre com a remarcação nas prateleiras.
"Aqui na Argentina, os alimentos básicos viraram artigos de luxo. Café, pães, ovos, laticínios ficaram proibitivos. Eu deixei de comprar e, como consequência, acabei diminuindo a quantidade dos nutrientes que ingiro. Sinto que a minha saúde está sendo prejudicada porque eu tenho comido menos", desabafa Catherine à RFI.
A inflação na Argentina fechou 2025 em 31,5%. As maiores altas foram os restaurantes e hotéis (42,2%), moradia e serviços públicos (41,6%) e alimentos e bebidas (32,2%), especialmente a famosa carne argentina.
O bolso mais apertado de Catherine não é uma mera sensação. A desaceleração no aumento de preços convive com uma perda do poder aquisitivo.
Segundo um estudo do Instituto Argentino de Análise Fiscal (IARAF), com base nos números oficiais, quase todos os setores tiveram um encolhimento na sua capacidade de consumo. Aposentados, trabalhadores privados, funcionários públicos nacionais e provinciais acumulam perdas salariais desde que o presidente Javier Milei assumiu em 10 de dezembro de 2023.
De todos os setores avaliados, apenas a classe baixa, dependente de um subsídio universal por filho, equivalente argentino ao Bolsa Família brasileiro, teve ganho de 67% entre 2023 e 2025. Mesmo assim, a alta foi em parte diluída se for considerado que esse segmento social também perdeu subsídios aos serviços públicos, sofreu com aumento no transporte público e cortes nos refeitórios populares.
Classe média foi a que mais perdeu poder de compra
A classe média foi a que mais perdeu poder de compra. Nos dois primeiros anos de governo Milei, os trabalhadores privados com vínculo empregatício perderam 1,5% em média.
Os aposentados que recebem a aposentadoria mínima tiveram uma perda de 13,8%. Os que recebem acima da mínima tiveram perda menor: 9,3%.
Os funcionários públicos provinciais viram os seus salários encolherem em 11%. Já os funcionários públicos nacionais perderam três vezes mais (33%) com a serra elétrica de Milei.
O feirante Diego Rengel confirma. Os consumidores tomam muito cuidado na hora de gastar, mesmo para a compra de alimentos básicos como frutas e verduras.
"As coisas mudaram muito. As pessoas consomem menos, ajustam o cinto. No ano passado, das frutas e verduras que vendíamos seis caixotes, passamos a vender quatro. Das que vendíamos quatro, passamos a vender três. As vendas diárias caíram de 20 a 25% em 2025 em comparação com 2024", calcula Diego à RFI.
Dos 59 alimentos e bebidas avaliados pelo Instituto Argentino de Estatísticas e Censos (INDEC), 17 alimentos básicos aumentaram mais do que a inflação acumulada de 31,5%. A carne argentina aumentou, em média 65,3%, de acordo com o INDEC. Segundo o Instituto de Promoção da Carne Bovina Argentina, o aumento foi de 69,8%, mais do que duplicando a inflação de 2025.
Sexta maior inflação do mundo
Os números assustariam qualquer país normal, mas é o mais baixo na Argentina nos últimos oito anos. Em 2017, a inflação tinha fechado o ano em 24,7%, antes de começar a escalar a progressiva geometria hiperinflacionária que tocou 211,4% em 2023, quando a Argentina teve índice mais alto do mundo.
Em 2024, a inflação acumulada ficou em 117,8%, deixando o país no terceiro lugar do ranking mundial. Agora, o índice de 2025 ainda deixa a Argentina com a sexta inflação mais alta do mundo, apenas à frente de países como Venezuela (269,9%), Sudão do Sul (97,5%), Zimbabue (89%), Sudão (87,2%) e Irã (42,4%).
Entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025, dois primeiros anos de governo Milei, a inflação acumulada na Argentina é de 259,34%.
Motivos para celebrar
Mas por que, então, o governo argentino festejou um número anual de 31,5%? O economista brasileiro Gustavo Pérego, diretor da consultoria argentina Abeceb, compara o número de 2025 com os 117,8% de 2024 e com os 211,4% de 2023.
"O governo festeja 31% porque, para a história da Argentina, uma história cheia de problemas com a inflação, é um bom número. Os 31% são altos. Estão fora totalmente de qualquer mercado e do planeta Terra. Mas o processo está mostrando que a inflação vem caindo. Por isso, tem de ser festejado porque a inércia inflacionária se freou", indica à RFI Gustavo Pérego.
Nos últimos oito meses, a inflação na Argentina só tem subido: de 1,5% em maio a 2,8% em dezembro (junho, 1,6%; julho, 1,9%; agosto, 1,9%; setembro, 2,1%; outubro, 2,3% e novembro, 2,5%).
Mas o presidente Javier Milei promete que, a partir de agosto, a inflação mensal na Argentina vai ficar abaixo de 1%.
2026 pode ter metade da inflação de 2025
Milei sabe que a avaliação do seu governo depende de quanto conseguir controlar os preços e aumentar o poder de compra dos argentinos. A principal bandeira política do presidente para a sua reeleição em 2027 é o combate à inflação.
O governo prevê uma inflação de 10,1% em 2026, mas os agentes de mercado preveem mais do que o dobro (22,5%), segundo a pesquisa mensal do Banco Central da Argentina.
Pérego é otimista e acredita na meta de Milei. "Pensar em ficar abaixo dos 2% mensais neste ano é viável. Pensar em ficar abaixo de 1% ao mês, se Deus quiser, sim, no final do ano. Mas a expectativa é que possa estar entre 10% e 20% em 2026. Será ainda uma inflação alta, mas, para Argentina, continua sendo uma vitória se chegar a esses números já no final de 2026", aposta o economista.