Sem anúncios concretos, Milei usa discurso no Congresso para atacar opositores e defender reformas

Na abertura das sessões legislativas ordinárias de 2026, na noite deste domingo (1º), o presidente argentino, Javier Milei, falou durante 1h42, mas praticamente não fez anúncios, limitando-se a menções superficiais a futuras reformas. Não faltaram, porém, provocações e críticas a opositores e empresários.

2 mar 2026 - 07h18
(atualizado às 11h45)

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

O presidente da Argentina, Javier Milei, ao chegar para a sessão de abertura da 144ª Legislatura do Congresso Nacional, em Buenos Aires, em 1º de março de 2026.
O presidente da Argentina, Javier Milei, ao chegar para a sessão de abertura da 144ª Legislatura do Congresso Nacional, em Buenos Aires, em 1º de março de 2026.
Foto: © Agustin Marcarian / REUTERS / RFI

Somente às 22h44, já no final do discurso, Milei prometeu dez pacotes de reformas por cada um dos nove ministérios, totalizando 90 iniciativas a serem debatidas ao longo dos próximos nove meses no Congresso.

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"Cada ministério preparou dez pacotes de reformas estruturais, motivo pelo qual, todos os meses apresentaremos projetos de lei para serem tratados por este Congresso. Esse será o nosso calendário: nove meses ininterruptos de mudanças estruturantes que vão traçar a arquitetura institucional da nova Argentina", apontou Milei.

"Alguns dirão que 90 pacotes de reformas em um ano é excessivo, ditatorial, ou seja lá o que for. A nossa ambição reformista não pode ser entendida como uma tentativa de concentrar poder", defendeu-se antecipadamente.

Milei não entrou em detalhes sobre as reformas, mas citou algumas como a tributária, a do sistema eleitoral, a do sistema educativo, a do Código Civil e Comercial, a do Código Alfandegário e uma codificação da lei de Defesa do Consumidor e da Concorrência.

Abertura comercial indiscriminada

O presidente avisou que continuará abrindo a economia, apesar das críticas de empresários que o acusam de promover uma "abertura indiscriminada" às importações e destruir empregos.

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"A Argentina é, de longe, o país mais fechado do mundo para o seu nível de PIB. No ranking de abertura do Banco Mundial, está na posição 178ª entre 179 países. (Os empresários) estão querendo defender os privilégios de caçar no zoológico", afirmou, numa metáfora para um mercado consumidor cativo.

A onda de fechamento de empresas e a acelerada destruição de postos de trabalho têm feito do desemprego uma das principais preocupações dos argentinos, associada à queda do consumo.

Mesmo assim, Milei voltou a afirmar que "o pior da crise já passou", ecoando discurso de um ano atrás, ao dizer agora que "a malária terminou".

Controle do Congresso

O presidente também elogiou a atual composição do Congresso, classificando-o como "o mais reformista da história argentina".

A configuração atual resulta das eleições legislativas de outubro passado, nas quais os governistas saíram vitoriosos. Os novos deputados assumiram em dezembro, revertendo uma sequência de derrotas parlamentares e aprovando medidas centrais para Milei, como a reforma trabalhista e a redução da maioridade penal.

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Em 2025, Milei vetou sete das 11 leis aprovadas pelo Legislativo — três tiveram o veto revertido. Desde 10 de dezembro, ele está a apenas 12 votos de obter maioria na Câmara dos Deputados e a um voto de garantir dois terços no Senado para indicar juízes da Suprema Corte.

Pela primeira vez desde 1983, quando o país voltou à democracia, uma força política que não o peronismo controla o Senado.

Insultos e ironias

O discurso de Milei teve 22 interrupções para provocar, ironizar, ridicularizar e insultar opositores e empresários.

Ao longo de quase duas horas, a cada três ou cinco parágrafos surgia uma nova interrupção. Entre os insultos, os termos "ignorantes", "delinquentes", "ladrões" e até "assassinos".

Ele dividiu o discurso em três partes: a situação crítica herdada, as conquistas de seu governo e os próximos nove meses de reformas, sem anúncios concretos.

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Milei baseou suas supostas conquistas econômicas em três pilares: eliminação do déficit fiscal, controle da inflação e recuperação do crescimento.

Entretanto, o atual superávit fiscal não inclui o pagamento de dívidas nem obras públicas paralisadas há dois anos. Com isso, segundo o FMI, o superávit se transforma em déficit.

A inflação caiu de 211,4% para 31,5% entre 2023 e 2025, mas acumula oito meses consecutivos de alta, passando de 1,5% em maio para 2,9% em janeiro. O crescimento econômico só ocorre graças aos setores de energia, minérios e serviços financeiros.

Os setores de Energia e Minérios geram, proporcionalmente, poucos empregos — e reduziram vagas nos últimos dois anos —, enquanto a intermediação financeira esconde a alta taxa de juros que impulsiona os lucros bancários. Todos os demais setores, incluindo a indústria, estão em recessão e passam por intensa destruição de empregos.

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