"Revistaram tudo": Mulheres relatam confiscos e milícias na passagem de fronteira de Rafah

A reabertura parcial da passagem de Rafah, em 3 de fevereiro, permitiu a evacuação de mais de 360 pessoas, entre doentes e feridos, da Faixa de Gaza, acompanhadas por seus cuidadores ou acompanhantes. No sentido inverso, centenas de pessoas vindas do Egito retornaram para casa. Este é o único ponto de travessia possível para entrar e sair do enclave palestino sem passar por Israel. A RFI conversou com mulheres palestinas que cruzaram a fronteira.

13 fev 2026 - 17h11

Com os correspondentes da RFI em Jerusalém, Frédérique Misslin, e Férial Abdou e Rami al Meghari em Gaza

A reabertura de Rafah estava prevista no plano de paz mediado pelos Estados Unidos. Para entrar na Faixa de Gaza, é preciso ter o nome em uma lista previamente aprovada tanto pelos egípcios, quanto pelos israelenses. A primeira verificação é feita do lado egípcio, como relata Lamia, 27 anos, que havia deixado o enclave palestino um ano antes para acompanhar o marido, que sofria de leucemia. Ele morreu três meses depois, no Egito.

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Lamia retornou a Gaza na semana passada, com o filho. Ela conta o que aconteceu na segunda verificação, desta vez perante representantes da Autoridade Palestina e observadores da União Europeia (UE): "Pegaram todos os nossos pertences: líquidos, perfume, loção. Levaram meu celular e meu carregador. Até minha garrafa de água. Eu disse a eles: 'Mas quando meu filho tiver sede, o que vou dar a ele?'".

O exército israelense proíbe qualquer tipo de líquido. A Missão da União Europeia em Israel (EUBAM), que monitora a travessia da fronteira, confirma a existência de uma lista de itens proibidos no acordo firmado entre as partes. A missão destaca que seu papel não é impor os procedimentos, mas auxiliar os agentes palestinos.

Apenas uma bagagem, um telefone celular e no máximo € 550 (cerca de R$ 3.400) em dinheiro são permitidos. Líquidos, cigarros e aparelhos eletrônicos são apreendidos sem explicação.

Depois de cruzar essa fronteira, os palestinos que retornam para casa embarcam em um ônibus rumo à Faixa de Gaza, atravessando a zona controlada por Israel.

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Milicianos contrários ao Hamas presentes na rota

Sabah, uma mãe de 41 anos, testemunhou a presença de integrantes do Abu Shabab, um grupo armado anti-Hamas que ela considera traidor: "Chegamos a um posto de controle, onde havia dois homens do Abu Shabab e outras seis pessoas. Eles nos revistaram, verificaram nossas bolsas e documentos e, em seguida, nos entregaram aos israelenses".

O relato dessa mulher palestina reforça o que o líder da milícia Abu Shabab declarou recentemente à imprensa: que sua unidade "teria um papel importante na segurança da entrada e saída pela passagem de Rafah". Questionado sobre a presença dessas milícias, o Exército israelense não respondeu.

Israel nega os maus‑tratos que os habitantes de Gaza dizem ter sofrido, como interrogatórios com algemas e olhos vendados. Após a passagem pelo posto de controle israelense e a travessia da Linha Amarela, a jornada termina na parte da Faixa de Gaza controlada pelo Hamas. Trezentos habitantes de Gaza retornaram para casa desde a reabertura da passagem de Rafah.

Há meses, a ONU e organizações humanitárias pedem a reabertura total da fronteira com o Egito, conforme estipulado no plano dos Estados Unidos para permitir o fluxo de ajuda humanitária. Até o momento, a ajuda internacional proveniente do Egito tem transitado pela passagem israelense de Kerem Shalom.

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