Um partido governista na Itália apresentou um projeto de lei que prevê a revogação da cidadania de pessoas condenadas por crimes graves, na esteira da ascensão nas pesquisas de um general de ultradireita que faz oposição à premiê Giorgia Meloni.
A iniciativa é de autoria da Liga, legenda nacionalista do vice-premiê e ministro da Infraestrutura e dos Transportes, Matteo Salvini, e tramita em regime de urgência na Câmara dos Deputados.
O texto busca impedir a concessão de cidadania por menores de idade nascidos na Itália, mas filhos de pais estrangeiros, que tenham praticado "crimes graves contra a pessoa e o patrimônio ou tráfico de drogas, até sua plena reabilitação", segundo o líder da Liga na Câmara, Riccardo Molinari.
"No caso dos menores, hoje não existem parâmetros para recusa [da cidadania]", acrescentou. Também ficariam impedidos de obter a cidadania italiana os jovens que representem riscos "comprovados à segurança da República".
Atualmente, filhos de imigrantes só podem solicitar o reconhecimento da cidadania ao completar 18 anos, e desde que tenham nascido e residido legalmente na Itália durante todo esse período.
O projeto da Liga também estabelece a revogação da cidadania de pessoas condenadas por crimes como homicídio, mutilação genital, tráfico de pessoas e violência sexual contra menores ou em grupo. A medida, no entanto, valeria apenas para filhos de imigrantes, não para italianos natos.
A legislação atual prevê a revogação somente em casos de terrorismo e subversão. Com a declaração de urgência aprovada na Câmara, o prazo de análise no texto pela Comissão de Assuntos Constitucionais, última etapa antes de o projeto ir a plenário, cai de 60 para 30 dias.
"A cidadania italiana, como sempre dissemos, não é um presente e precisa ser conquistada", afirmou Massimiliano Romeo, líder da Liga no Senado. "Tornar-se italiano é uma coisa séria, um status que só pode ser alcançado respeitando nossas regras", reforçou o senador Gianluca Cantalamessa, também do partido de Salvini.
Já a oposição de centro-esquerda acusa a Liga de defender a "superioridade racial" ao propor restrições apenas para os italianos filhos de imigrantes. "Não estamos aqui para abdicar do princípio da igualdade e declarar um princípio de superioridade racial", ressaltou a deputada Vittoria Baldino, do Movimento 5 Estrelas (M5S).
"O foco está claramente nos menores nascidos neste país. É um procedimento de punição coletiva de perfilamento racial", avaliou a deputada Ouidad Bakkali, do Partido Democrático (PD).
Ameaça à direita
A tramitação do projeto em regime de urgência chega em meio à ascensão nas pesquisas do novo partido Futuro Nacional, criado recentemente pelo general Roberto Vannacci, dissidente da Liga e que faz oposição de direita a Meloni.
O militar ganhou destaque em 2023, quando publicou um livro no qual diz que homossexuais "não são normais" e denuncia um suposto "lobby gay internacional" para promover as relações entre pessoas do mesmo sexo.
Além disso, afirma que os "traços físicos" de Paola Egonu, melhor jogadora de vôlei do mundo, "não representam a italianidade" ? ela é italiana filha de nigerianos.
Introduzido no mundo político por Salvini, que queria cavalgar na popularidade recém-conquistada pelo general, Vannacci rompeu com a Liga e com o governo Meloni em fevereiro de 2026 para lançar seu próprio partido.
Uma pesquisa divulgada nesta semana pelo instituto SWG mostra que o Futuro Nacional já tem 6% nas pesquisas de intenção de voto, contra 5,6% da Liga, já se aproximando também do moderado Força Itália (FI), do vice-premiê e ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, com 7,4%.
O levantamento é liderado pelo Irmãos da Itália (FdI), partido de Meloni, mas o crescimento de Vannacci tem sido visto com preocupação pelo governo em vista das eleições legislativas do ano que vem, já que poderia roubar votos da coalizão da primeira-ministra.