Stéphane Geneste, da RFI, em Paris
Os cabos submarinos costumam ganhar atenção quando sofrem danos ou sabotagem, mas raramente quando operam normalmente. Ainda assim, eles são essenciais para o funcionamento do mundo digital. Atualmente, cerca de 99% do tráfego digital global passa por esses cabos de fibra óptica instalados no fundo dos mares.
Com pouco mais de dez centímetros de espessura, esses cabos podem parecer estruturas simples, mas desempenham um papel central nas comunicações globais. Por meio deles, em poucos milissegundos, é possível enviar uma ordem de transferência de Dacar a Pequim, realizar uma transação financeira entre Londres e Singapura ou fazer uma chamada de vídeo entre Buenos Aires e Atenas sem dificuldades e rapidamente.
Essa relevância estratégica ajuda a explicar o interesse recente do Irã por essas infraestruturas no Estreito de Ormuz. O país avalia impor taxas de passagem aos operadores desses cabos, uma proposta apoiada pela Guarda Revolucionária e com implicações significativas.
À primeira vista, a ideia de taxar cabos submarinos pode parecer abstrata. No entanto, há precedentes. O Egito obtém receitas importantes graças à sua posição estratégica no canal de Suez, inclusive a partir de infraestruturas digitais que passam pela região, gerando bilhões de dólares por ano. Esse modelo parece inspirar Teerã. Ainda assim, a comparação apresenta limites. Suez é um canal artificial administrado por um único Estado, enquanto Ormuz é um estreito natural regido pelo direito marítimo internacional e compartilhado entre diferentes soberanias.
Apesar dessa diferença, o raciocínio iraniano é direto. Os cabos passam próximos às suas águas e geram valor econômico, o que, na visão de Teerã, justificaria a cobrança de uma taxa. Em outras palavras, se essa rota é essencial para o fluxo de dados global, o país considera legítimo obter parte dessa receita. Ao mesmo tempo, essa posição transmite uma mensagem política: o Estreito de Ormuz não deve ser visto apenas como uma rota para o petróleo, mas também como um ponto estratégico para os fluxos digitais globais.
Um imposto improvável, mas preocupante à economia mundial
A adoção imediata de uma taxa desse tipo é improvável. Empresas como Google, Microsoft e Amazon dificilmente fariam pagamentos diretos a Teerã, especialmente devido às sanções impostas pelos Estados Unidos. Ainda assim, o principal impacto não está necessariamente na implementação da medida, mas na incerteza que ela gera. Quando um corredor estratégico passa a ser percebido como politicamente instável, operadores são levados a rever suas estratégias, com mais investimentos em segurança, diversificação de rotas e aumento de custos com seguros.
Essa incerteza é reforçada pela possibilidade, mencionada por autoridades iranianas, de interferência ou até sabotagem desses cabos. Um apagão digital global é considerado pouco provável, devido à redundância das redes. No entanto, interrupções localizadas poderiam afetar pagamentos internacionais, dificultar transações financeiras entre Europa e Ásia ou impactar o acesso a determinados serviços de armazenamento em nuvem.
O cenário evidencia o grau de dependência global dessas infraestruturas, e essa dependência implica vulnerabilidades. No contexto da economia digital, o poder não está apenas em quem produz dados, mas também em quem controla sua circulação. Ao destacar o papel do Estreito de Ormuz nesse sistema, o Irã busca reforçar sua posição em um ponto estratégico das redes globais.