Uma expedição de mergulho nas Maldivas terminou em tragédia. Cinco turistas italianos morreram após entrarem em uma caverna submersa a aproximadamente 60 metros de profundidade. Durante as buscas pelos corpos, um sargento mergulhador também perdeu a vida.
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Especialistas entrevistados pelo Fantástico, da TV Globo, afirmam que o mergulho em cavernas está entre as modalidades mais técnicas e perigosas do mundo, exigindo preparo específico, equipamentos sofisticados e protocolos rígidos de segurança.
As águas cristalinas das Maldivas ajudam a explicar o interesse de mergulhadores pela região. Formado por quase 1.200 ilhas, o país recebe turistas de diversas partes do mundo em busca de mergulhos recreativos.
Por trás da paisagem paradisíaca, porém, também existem perigos. O acidente aconteceu em uma caverna localizada no atol de Vaavu. O acesso ao local fica a cerca de 50 metros abaixo da superfície do mar. De acordo com especialistas, cavernas submersas funcionam como verdadeiros labirintos, repletos de túneis e ramificações que podem provocar desorientação.
Especializado em operações de resgate, o mergulhador finlandês Sami Paakkarinen participou da recuperação dos corpos dos turistas. Segundo ele, esse tipo de ambiente exige treinamento adequado e o uso de misturas especiais de gases.
“Profundidades entre 60 e 70 metros geralmente exigem equipamentos especializados, gases especiais e treinamento especializado”, afirmou.
Relembre o caso
Os cinco italianos participavam de um passeio de mergulho a bordo de um iate de luxo. As vítimas foram identificadas como a professora de ecologia Mônica, sua filha Giorgia, a pesquisadora Muriel, o biólogo marinho Frederico e o instrutor de mergulho Gianluca. O grupo deveria retornar ao meio-dia, mas desapareceu.
Ao longo dos dias seguintes, equipes de resgate conseguiram localizar os corpos. Durante a operação, o sargento mergulhador Mohamed morreu enquanto tentava auxiliar nas buscas. As autoridades das Maldivas classificaram o episódio como a maior tragédia desse tipo já registrada no país.
Importância da preparação
Com 30 anos de experiência em mergulho em cavernas, o instrutor brasileiro Eduardo Macedo explicou ao Fantástico que essa prática exige um longo período de preparação. “O mergulho em caverna é mais técnico, mais difícil, mais complexo e mais perigoso”, disse. Conforme explica, o treinamento costuma durar cerca de um ano e envolve dezenas de mergulhos.
Os equipamentos utilizados também são muito diferentes daqueles usados no mergulho recreativo. Lanternas extras, máscaras reservas, cilindros adicionais, carretilhas com cabos-guia e sistemas de reciclagem de ar estão entre os itens necessários.
Entre os aparelhos usados está o “rebreather”, equipamento que reaproveita o gás respirado pelo mergulhador e permite permanência de até cinco horas debaixo d’água.
De acordo com Girardi, a redundância dos equipamentos é indispensável porque, dentro de uma caverna, não há possibilidade de subir rapidamente à superfície em caso de emergência. “Qualquer problema que eu tenho lá dentro, eu tenho que resolver lá dentro”, explicou.
O que difere o mergulho recreativo do técnico
Especialistas ressaltam à TV Globo que há uma diferença significativa entre o mergulho recreativo, voltado ao lazer, e o mergulho técnico em cavernas. Enquanto o mergulho recreativo costuma ter limite de até 40 metros de profundidade e utiliza equipamentos mais simples, o técnico é realizado em profundidades maiores e em ambientes fechados, como as cavernas submersas.
Segundo apuração do Fantástico, ainda não foram divulgados detalhes sobre os equipamentos usados pelos italianos nem se todos possuíam habilitação específica para mergulho em cavernas. No entanto, segundo Sami Paakkarinen, o material utilizado pelos mergulhadores não era o indicado para operações desse tipo.
O que pode ter causado desorientação de vítimas
A investigação acredita que os mergulhadores tenham perdido a visibilidade dentro da caverna depois que a areia do fundo se espalhou pela água. Especialistas explicam que essa situação pode transformar o ambiente em um “breu total”, dificultando a localização da saída.
A cerca de 60 metros de profundidade, os corpos foram localizados em uma área sem saída da caverna. Segundo o médico hiperbárico Francisco Lobo, a desorientação nesse tipo de ambiente pode provocar pânico e fazer com que os mergulhadores passem a respirar mais rápido.
“Ele pode começar a respirar rápido dentro d’água, consumindo todo o ar que está dentro do cilindro”, afirmou.
Causa da morte do socorrista
As autoridades já identificaram a causa da morte do sargento Mohamed: doença descompressiva. A condição acontece quando bolhas de gás, principalmente nitrogênio, se acumulam no sangue e nos tecidos do corpo.
De acordo com especialistas, o tratamento requer administração imediata de oxigênio e o uso de uma câmara hiperbárica, aparelho que reproduz a pressão encontrada no fundo do mar para auxiliar na dissolução dessas bolhas de gás.
O equipamento, porém, não chegou a ser utilizado por Mohamed, que foi encontrado sem vida.
Mesmo após o acidente, especialistas afirmam que o mergulho segue sendo considerado seguro quando as normas e protocolos são cumpridos corretamente.
“Eu mergulho há 30 anos e nunca tive um acidente. A diferença é equipamento e treinamento adequado”, disse Eduardo Girardi.