O 'último cidadão soviético': o cosmonauta 'abandonado' no espaço há 35 anos durante o colapso da União Soviética

Quando a missão decolou, em maio de 1991, para uma missão espacial de cinco meses, Sergei Krikalev não sabia o que aconteceria. Ele passou mais de 10 meses orbitando a Terra e pousou em um novo país

23 mai 2026 - 15h01
Krikalev na ISS
Krikalev na ISS
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Da estação espacial soviética Mir, o cosmonauta Sergei Krikalev tinha uma vista privilegiada do planeta Terra, tão idílica que não pôde ver a fogueira política em que seu país estava queimando.

Esta semana marcou o 35º aniversário de lançamento da missão. Em 18 de maio de 1991, Krikalev partiu a bordo da espaçonave Soyuz TM-12 para uma missão de cinco meses na estação Mir, que orbitava a Terra.

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Junto com ele viajaram a britânica Helen Sharman e o também soviético Anatoly Artsebarsky. Sharmann retornaria uma semana depois com os cosmonautas substituídos por Krikalev e Artsebarsky, que permaneceram na Mir.

O lançamento foi no cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, o mesmo de onde a União Soviética assumiu a liderança na corrida espacial contra os Estados Unidos, consolidando feitos como colocar em órbita o primeiro satélite, o Sputnik, a viagem da cachorra Laika e a chegada do primeiro ser humano ao espaço: Yuri Gagarin, em 1961.

Vários marcos da corrida espacial foram alcançados no cosmódromo de Baikonur
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Naquela época, a estação Mir era um símbolo do poder soviético na exploração espacial.

A missão de Krikalev e seu colega era de rotina; eles estavam incumbidos de fazer alguns reparos e melhorias na estação.

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Mas, enquanto as coisas corriam bem no espaço, em terra firme a União Soviética estava começando a se desintegrar rapidamente.

Em questão de meses, ocorreu o colapso da então potência — enquanto Krikalev estava no espaço.

Por essa razão, o que foi inicialmente uma missão descomplicada deixou Krikalev no limbo por meses, flutuando no espaço mais do que o dobro do tempo que havia planejado e submetendo seu corpo e mente a efeitos desconhecidos.

Estação Mir foi uma das grandes conquistas do programa espacial soviético
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ele passou mais de 10 meses orbitando a Terra e pousou em um novo país. Por isso, entrou para a história como "o último cidadão soviético".

Ao espaço

Sergei Krikalev nasceu em 1958 em Leningrado, atualmente São Petersburgo.

Ele se formou como engenheiro mecânico no Instituto de Mecânica de Leningrado em 1981 e, após quatro anos de treinamento, tornou-se cosmonauta.

Em 1988, Krikalev fez sua primeira viagem à estação Mir, que orbitava a Terra a uma altitude de 400 km acima da superfície terrestre.

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Gorbachev anunciou sua renúncia por motivos de saúde e selou fim da URSS
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Sua segunda viagem à estação foi a de maio de 1991, meses antes da dissolução da União Soviética. O plano era de que ele retornasse em outubro, com Anatoly Artsebarsky, e que ambos fossem substituídos.

Mas os planos foram atropelados pelo convulsão política e social que já vinha ocorrendo na União Soviética, desde que o presidente Mikhail Gorbachev, com sua famosa política de "Perestroika" ("reestruturação" em tradução livre do russo) tentou modernizar o país. Sua ideia era aproximá-lo do capitalismo, descentralizar o poder econômico de várias empresas estatais e permitir a criação de empresas privadas.

Esse processo causou muita resistência dentro do Partido Comunista, principalmente quando várias das repúblicas que compunham o país começaram a declarar sua independência.

Entre 19 e 21 de agosto de 1991, um grupo da ala mais dura do Partido Comunista tentou um golpe contra Gorbachev, que, embora sem sucesso, deixou a URSS mortalmente ferida.

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Novos planos

Nessa época, Krikalev e Artsebarsky não sabiam ao certo do que acontecia no país. Foi quando Krikalev foi convidado a permanecer no espaço até novo aviso.

Multidão comemora o golpe fracassado de 1991
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Para nós foi algo inesperado, não entendíamos o que estava acontecendo", lembrou o próprio Krikalev no documentário da BBC O último cidadão soviético, de 1993.

Os russos tinham um cosmonauta para substituir Artsebartsky, mas não tinham um substituto para Krikalev.

Além disso, o governo tinha prometido ao Cazaquistão, república que tinha acabado de declarar sua independência, que enviaria um cosmonauta daquele país na próxima troca de pessoal da Mir.

Krikalev, junto com o francês Jean-Loup Chrétien e Alexandre Volkov na espaçonave Soyuz em 1988
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Decidiu-se que um cosmonauta cazaque acompanharia a missão enviada pela Soyuz TM-13 em outubro, e que ele retornaria à Terra uma semana depois com Anatoly Artsebarsky.

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Assim, Krikalev, sem substituto, teve de permanecer a bordo da Mir, agora com um novo companheiro, o cosmonauta Alexander Volkov.

"Será que vou ter força suficiente, posso me reajustar para uma estada mais longa? Tive minhas dúvidas", lembrou o cosmonauta.

Segundo Cathleen Lewis, historiadora especializada nos programas espaciais soviético e russo do Museu Nacional Smithsonian do Ar e Espaço em Washington D.C, nos Estados Unidos, os mais preocupados com Krikalev eram pessoas de fora da União Soviética, que o viam como um homem "abandonado no espaço", exposto a efeitos físicos e mentais que ainda não são totalmente conhecidos.

Segundo a Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, a exposição à radiação no espaço traz riscos ligados a câncer ou doenças degenerativas.

A falta de gravidade causa perda de massa muscular e óssea; e o sistema imunológico pode sofrer alterações.

E o isolamento pode desencadear problemas psicológicos, como mudanças de comportamento ou perda de humor.

O governo russo, entretanto, "tinha outras prioridades, outras preocupações". E, em 25 de dezembro de 1991, a União Soviética finalmente entrou em colapso total.

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Naquele dia, Gorbachev anunciou sua renúncia por motivos de saúde. A URSS se fragmentara em 15 nações; o país que enviara Krikalev ao espaço já não existia mais.

Sua cidade natal, Leningrado, agora se chamava São Petersburgo.

O 'último cidadão soviético'

Decidiu-se que um cosmonauta cazaque acompanharia a missão enviada pela Soyuz TM-13 em outubro, e que ele retornaria à Terra uma semana depois com Anatoly Artsebarsky.

Assim, Krikalev, sem substituto, teve de permanecer a bordo da Mir, agora com um novo companheiro, o cosmonauta Alexander Volkov.

"Será que vou ter força suficiente, posso me reajustar para uma estada mais longa? Tive minhas dúvidas", lembrou o cosmonauta.

Segundo Cathleen Lewis, historiadora especializada nos programas espaciais soviético e russo do Museu Nacional Smithsonian do Ar e Espaço em Washington D.C, nos Estados Unidos, os mais preocupados com Krikalev eram pessoas de fora da União Soviética, que o viam como um homem "abandonado no espaço", exposto a efeitos físicos e mentais que ainda não são totalmente conhecidos.

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Segundo a Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, a exposição à radiação no espaço traz riscos ligados a câncer ou doenças degenerativas.

A falta de gravidade causa perda de massa muscular e óssea; e o sistema imunológico pode sofrer alterações.

E o isolamento pode desencadear problemas psicológicos, como mudanças de comportamento ou perda de humor.

Bill Shepherd, Yuri Gidzenko e Sergei Krikalev foram primeira tripulação da ISS
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Ele sempre me disse que estava tudo bem, então era muito difícil saber o que ele realmente sentia no íntimo", diz a mulher do cosmonauta.

Na estação, Krikalev passava seu tempo contemplando a Terra, ouvindo música e, claro, falando no rádio.

O regresso

Exatamente três meses depois da dissolução da União Soviética, em 25 de março de 1992, Sergei Krikalev e Alexander Volkov retornaram à Terra.

Ao todo, Krikalev passou 312 dias no espaço, circulando a Terra 5 mil vezes.

Estação Mir foi desativada em 2001
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Sua aparência, segundo um relato da época, era de um homem "pálido como farinha e todo suado", e que precisou da ajuda de quatro homens para conseguir ficar de pé.

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"Apesar da força da gravidade, foi muito agradável voltar, nos libertamos de um fardo psicológico", disse o cosmonauta.

"Não diria que foi um momento de euforia, mas foi muito bom."

Krikalev logo se recuperou. Em 2000, ele fez parte da primeira tripulação a viajar para a recém-inaugurada Estação Espacial Internacional (ISS), um símbolo da nova era espacial, que deixou para trás velhas rixas e deu lugar a um modelo colaborativo entre vários países para ajudar a continuar revelando mistérios do universo.

No ano seguinte, a Mir foi aposentada após 15 anos em operação.

Atualmente, Krikalev é o diretor de missões tripuladas da Roscosmos, a agência espacial russa.

Esta reportagem foi publicada originalmente em 25 dezembro de 2021

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