Apesar do calor e da tensão no Oriente Médio, peregrinação a Meca reúne mais de 1,5 milhão de fiéis

Sob temperaturas que chegaram a 45 °C durante o dia, cerca de 1,5 milhão de fiéis muçulmanos, oriundos de todo o mundo, iniciaram nesta segunda-feira (25) o hajj, a peregrinação anual a Meca, na Arábia Saudita. O ritual - um dos cinco pilares do Islã -, acontece em um contexto marcado pelas tensões da guerra e por negociações diplomáticas no Oriente Médio. O calor não impede os peregrinos muçulmanos circundem a Caaba, o local mais sagrado do Islã, na Grande Mesquita.

25 mai 2026 - 13h27

Rami El Meghari, correspondente da RFI em Gaza, e AFP

Neste ano, o início do hajj coincide com a intensificação das negociações entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito regional, que afetou países do Golfo, atingidos durante semanas por drones e mísseis iranianos, em retaliação ao ataque israelense-americano de 28 de fevereiro contra Teerã.  

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O presidente norte-americano Donald Trump afirmou na segunda-feira que países de maioria muçulmana, incluindo a Arábia Saudita, "deveriam ser obrigados" a normalizar suas relações com Israel no âmbito de um acordo de paz, adicionando um novo fator de incerteza às negociações. 

Apesar da guerra e da incógnita sobre uma possível retomada do conflito no Irã, a peregrinação tem atraído mais visitantes do que no ano passado, segundo autoridades sauditas. Entre eles, mais de 26 mil peregrinos do Irã, país de maioria xiita. 

Peregrinos vestidos de branco realizam o rito do “tawaf”, que consiste em dar voltas ao redor da Caaba — a estrutura cúbica negra para a qual os muçulmanos de todo o mundo se voltam para rezar — no coração da Grande Mesquita.
Peregrinos vestidos de branco realizam o rito do “tawaf”, que consiste em dar voltas ao redor da Caaba — a estrutura cúbica negra para a qual os muçulmanos de todo o mundo se voltam para rezar — no coração da Grande Mesquita.
Foto: RFI

Ao que tudo indica, Riad não penalizou os iranianos pelas tensões políticas, não reduzindo drasticamente o número de vistos concedidos após os ataques atribuídos a Teerã em março. Pelo contrário, as autoridades sauditas se esforçam para afastar o caráter político do evento. 

"As forças de defesa aérea têm a missão de proteger o céu sobre os locais sagrados e enfrentar qualquer ameaça aérea, garantindo a segurança e a tranquilidade dos peregrinos", afirmou o Ministério da Defesa nas redes sociais, divulgando um vídeo com os dispositivos de segurança instalados nos arredores de Meca.

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Palestinos de Gaza privados da peregrinação

De outro lado, também há os conflitos que ainda persistem em Gaza e no Líbano, apesar dos anúncios de cessar-fogo. Para os palestinos de Gaza, este é o terceiro ano consecutivo em que são privados da peregrinação. Mesmo que tivessem condições financeiras, os moradores não poderiam viajar por causa do bloqueio israelense. 

"Pediram para renovarmos nosso cadastro, mas infelizmente o posto de fronteira ainda não foi reaberto e não conseguimos sair, continuamos presos aqui", lamenta Férial Al Tawil à RFI

Como ela, mais de 2 mil peregrinos inscritos terão que esperar novamente este ano no enclave, rezando pelo fim da guerra. "Será que estaremos vivos e com saúde? Esperamos que Deus ajude a trazer a paz a Gaza, para que possamos cumprir os rituais nos próximos anos", completa Férial. 

Risco logístico de um novo conflito 

O reino busca se apresentar como legítimo guardião dos locais sagrados do islã - uma antiga fonte de tensão com o Irã. Mais de € 1 bilhão foram investidos em segurança, saúde, transporte e conforto dos peregrinos, em meio a um calor intenso que também preocupa. 

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Em 2024, mais de 1.300 pessoas morreram por causa das altas temperaturas. 

Neste ano, porém, o ambiente é bem organizado, segundo os próprios fiéis. "Os hotéis, a alimentação, tudo está ótimo; a organização e a recepção são perfeitas, as forças de segurança estão presentes", afirma Abou Asawar. 

O peregrino, vindo do Iraque, gastou o equivalente a € 4.500, suas economias de uma vida inteira, para fazer a viagem. Ele chegou aos locais sagrados uma semana antes do início da peregrinação e diz não ter preocupações. "Mesmo se a guerra recomeçar, voltaremos pela estrada. A Arábia Saudita é um país vizinho", lembra. 

Mas a situação pode não ser a mesma para todos. Caso o conflito entre Estados Unidos e Irã seja retomado, o transporte e a recepção dos peregrinos podem se tornar um grande desafio logístico para as autoridades. Alguns países, inclusive os Estados Unidos, já recomendaram que seus cidadãos evitem viajar para a Arábia Saudita. 

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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