As equipes de negociação do Irã e dos EUA deveriam chegar a Doha nesta semana, mas o Irã informou na segunda-feira, 29, que nenhuma reunião havia sido agendada, já que os ataques com mísseis de ambos os lados no fim de semana colocaram à prova o cessar-fogo provisório para encerrar a guerra que já dura quatro meses.
O presidente dos EUA, Donald Trump, está enviando seu genro, Jared Kushner, e seu enviado, Steve Witkoff, para liderar a equipe de negociação, segundo sua secretária de imprensa, Karoline Leavitt. Embora o Irã esteja enviando sua delegação técnica ao Catar nesta semana, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei, afirmou que isso "não tem relação" com a visita dos norte-americanos e que não há conversas agendadas entre os dois lados.
"Não teremos nenhuma reunião de negociação, em nenhum nível, com a parte norte-americana nos próximos dias", disse Baghaei.
A divergência sobre se as partes se encontrariam ou não ressaltou a fragilidade do acordo de 17 de junho para suspender um conflito que interrompeu os fluxos globais de petróleo pelo Estreito de Ormuz e criou uma dor de cabeça política para Trump antes das eleições legislativas de novembro.
Os EUA e o Irã se deram pelo menos 60 dias para implementar o memorando de entendimento de 14 pontos com o objetivo de prorrogar o cessar-fogo de abril, discutir o programa nuclear iraniano e negociar uma trégua permanente. Mas o progresso tem sido lento, com cada lado acusando o outro de violar os termos acordados.
Depois que os EUA e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro, o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz — o estreito ponto de passagem que antes transportava cerca de um quinto do comércio global de petróleo — ficou praticamente paralisado.
Israel não se juntou às negociações de paz entre os EUA e o Irã e se distanciou do acordo. As tensões entre Washington e Teerã complicaram os esforços para pôr fim aos combates no Líbano, onde o presidente do Parlamento, Nabih Berri, aliado do Hezbollah apoiado pelo Irã, colocou em dúvida um acordo separado, mediado pelos EUA, entre o Líbano e Israel com o objetivo de interromper o conflito.
O fechamento da via navegável elevou os preços do petróleo para mais de US$100 o barril, impulsionando a inflação global e pressionando Trump antes das eleições de meio de mandato que determinarão o controle do Congresso dos EUA, onde alguns de seus pares republicanos criticaram o presidente por travar uma guerra sem a autorização dos parlamentares.
Uma alta autoridade iraniana afirmou que haveria uma reunião em Doha na terça-feira, mas, ao contrário das negociações técnicas anteriores entre as equipes do Irã e dos EUA na Suíça, o foco seria a gestão do Estreito de Ormuz e a redução das tensões.
Outra autoridade a par dos planos disse que equipes técnicas dos EUA e do Irã devem se reunir separadamente com mediadores do Catar e do Paquistão na quarta-feira.
Incerteza em Washington
Trump disse a repórteres no Salão Oval: "A reunião em Doha talvez seja importante, talvez não. Vamos descobrir."
Ao mesmo tempo, ele afirmou que "estamos vencendo militarmente" e reiterou sua condição de que o Irã deve ser impedido de produzir uma arma nuclear.
O Irã tem buscado obter vantagem ao exercer seu controle sobre o estreito compartilhado com o vizinho Omã, afirmando que planeja cobrar taxas dos navios que utilizam a hidrovia e impedir a passagem de embarcações que se desviem das rotas definidas.
Os EUA acusaram o Irã de atingir pelo menos dois navios comerciais com mísseis ou drones nos últimos dias e, em resposta, bombardearam instalações militares iranianas. Por sua vez, o Irã lançou mísseis e drones contra instalações militares americanas no Kuweit e no Barein na madrugada deste domingo.
Witkoff e o secretário de Estado Marco Rubio informaram os membros do Congresso sobre o Irã por telefone na segunda-feira. O senador republicano Steve Daines disse aos repórteres que eles mantiveram suas declarações ao mínimo, mas, mesmo assim, considerou a conversa "construtiva".
O líder da bancada democrata no Senado, Chuck Schumer, no entanto, considerou a reunião "insuficiente e desprovida de detalhes".
"Depois de arrastar os Estados Unidos para uma guerra onerosa, o governo Trump ainda não consegue citar uma única coisa que os norte-americanos tenham ganho em troca. Em vez disso, o secretário Rubio me confirmou que o Irã arrecadará bilhões em receitas do petróleo, mantendo ao mesmo tempo uma influência perigosa sobre o Estreito de Ormuz", disse Schumer.
Liberação de ativos iranianos congelados
O presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou na segunda-feira que US$6 bilhões dos US$12 bilhões em ativos congelados no Catar seriam liberados e devolvidos ao Irã, segundo informou a mídia estatal iraniana.
Ele descreveu o memorando, que inclui isenções dos EUA para sanções aos setores de petróleo e petroquímico do Irã, como "uma grande vitória para o povo iraniano".
Os preços do petróleo subiram mais de 1% depois que as hostilidades do fim de semana destacaram a fragilidade do acordo entre os EUA e o Irã.
O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou na segunda-feira que estava trabalhando com Omã para amenizar as tensões e que cooperaria com parceiros para remover as minas do Estreito de Ormuz.
Mas o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, respondeu com uma postagem no X afirmando que a remoção das minas deveria ser realizada exclusivamente pelo Irã, de acordo com o plano de 14 pontos. Ele advertiu a França contra complicar a situação.