O duplo terremoto que atingiu a Venezuela na semana passada deixou pelo menos 1.719 mortos e cerca de 50 mil desaparecidos, segundo o balanço mais recente divulgado pelas autoridades na segunda-feira, 29. Imagens de satélite analisadas pela NASA indicam, porém, que a dimensão da destruição pode ser ainda maior: a agência estima que cerca de 58.870 edifícios tenham sido danificados ou destruídos no país.
A estimativa da agência norte-americana foi elaborada com base em imagens de radar de alta resolução da Agência Espacial Europeia (ESA), coletadas por pesquisadores da Universidade Estadual do Oregon no dia seguinte aos tremores. Os cientistas ressaltam, no entanto, que se trata de uma avaliação preliminar, feita a partir de alterações detectadas na superfície, e que ainda depende de confirmação por equipes em campo.
O levantamento contrasta com o balanço divulgado pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, segundo o qual 855 edifícios foram atingidos, dos quais 189 sofreram colapso total, evidenciando uma grande discrepância entre as avaliações preliminares feitas por satélite e os dados oficiais consolidados até o momento.
Operações de resgate continuam
Seis dias após os terremotos, equipes de resgate continuam mobilizadas entre os escombros. Segundo a ONU, somente no estado de La Guaira, o mais atingido, há cerca de 1,2 milhão de toneladas de destroços. Apesar da mobilização internacional, as chances de encontrar sobreviventes diminuem a cada hora.
Em La Guaira, parentes dos desaparecidos continuam as buscas dia e noite diante dos edifícios que desabaram. Em muitas áreas, diante da falta de efetivos venezuelanos, são os próprios moradores que realizam as escavações. Integrantes da Defesa Civil admitem que encontrar alguém com vida neste momento seria "um milagre". As equipes internacionais conseguiram resgatar sete pessoas com vida no domingo, mas a expectativa é de que novos resgates se tornem cada vez mais raros.
Enquanto as equipes estrangeiras concentram esforços na busca por sobreviventes, muitas famílias aguardam a retirada dos corpos para poder realizar os sepultamentos. Centenas de corpos estão sendo armazenados em necrotérios improvisados instalados em armazéns do porto de La Guaira. Diante da expectativa de que o número de vítimas continue aumentando, a ONU anunciou o envio de 10 mil sacos mortuários para o país.
Ajuda internacional tardia
A ajuda internacional continua sendo reforçada. Segundo as autoridades venezuelanas, cerca de 30 países participam das operações de resgate e assistência. Os Estados Unidos dobraram o valor da ajuda humanitária, elevando-a para US$ 300 milhões destinados a agências da ONU e organizações não governamentais.
Washington também enviou 130 fuzileiros navais para apoiar as operações de emergência e reconstrução. O porto de La Guaira voltou a operar, permitindo o desembarque e a distribuição de ajuda humanitária. Um navio anfíbio da Marinha americana, o USS Fort Lauderdale, permanece ancorado na região para dar apoio logístico às operações.
Especialistas destacam, no entanto, que o reforço internacional chegou apenas após as primeiras 72 horas, período considerado decisivo para o resgate de sobreviventes. Nos primeiros dias após a tragédia, moradores de La Guaira dependeram quase exclusivamente das próprias mãos para tentar retirar vítimas dos escombros.
Desde o terremoto de 24 de junho, mais de 609 réplicas foram registradas, incluindo um tremor de magnitude 4,6 sentido na segunda-feira em Caracas e em La Guaira. Segundo as autoridades, não houve registro de novos danos significativos. A ONU estima que os prejuízos causados pelo desastre alcancem cerca de US$ 7 bilhões, o equivalente a aproximadamente 6% do Produto Interno Bruto (PIB) da Venezuela.