Alice Campaignolle, enviada especial da RFI a La Guaira, e AFP
No norte do país, os tremores deixaram um cenário de devastação, com inúmeros prédios desabados, especialmente em La Guaira. É ali que o gramado do principal estádio de beisebol abriga, desde sexta-feira (26), equipes de resgate do mundo inteiro.
Suíça, Colômbia, Alemanha, Espanha: em campo, falam-se todas as línguas, e as Nações Unidas coordenam os trabalhos. "Não podemos esquecer que as pessoas já estão há muito tempo sob os escombros. Com o calor que faz, há todos os problemas de desidratação, entre outros. Estamos realmente correndo contra o tempo", lembra Fabien Walterio, chefe das operações da equipe suíça.
Para apoiar esse trabalho, uma pista do aeroporto de Caracas foi reaberta para receber aviões americanos que transportam ajuda humanitária. "Com a chegada de equipes vindas de Miami, os Estados Unidos contam agora com cerca de 250 socorristas civis especializados mobilizados na Venezuela", informou o Departamento de Estado americano na rede X.
"Em princípio, agora os corpos já não apresentam sinais de vida, mas, graças a Deus, às vezes ainda conseguimos encontrar sobreviventes", afirmou um socorrista salvadorenho em Playa Grande, em La Guaira, cidade litorânea vizinha a Caracas.
Nas proximidades, um menino de 11 anos foi milagrosamente retirado com vida dos escombros, em Caraballeda. "Neste momento, cada vida é fonte de esperança para a Venezuela", escreveu durante a noite na rede X a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, ao compartilhar um vídeo do resgate.
Hace pocos minutos fue rescatado con vida un niño de 11 años en Caraballeda. En estas horas cada vida es esperanza para Venezuela. pic.twitter.com/Pjj5ETaaYe
— Delcy Rodríguez (@delcyrodriguezv) June 28, 2026
Na véspera, a alegria tomou conta de La Guaira quando moradores salvaram um bebê. Em um vídeo publicado nas redes sociais, um homem se emociona às lágrimas enquanto segura a criança nos braços.
Número de vítimas não para de subir
Por enquanto, o último balanço indica 1.430 mortos na tragédia, mais de 3,2 mil feridos e mais de 50 mil desaparecidos, segundo autoridades e a ONU. A organização alerta que esses números devem "aumentar consideravelmente".
Vários estrangeiros estão entre as vítimas dos terremotos na Venezuela. O balanço inclui 28 portugueses ou luso-descendentes, além de 85 desaparecidos, ao menos nove espanhóis (e 152 desaparecidos), dois brasileiros, sete chineses, um chileno, um uruguaio e um ítalo-venezuelano. Autoridades desses países afirmam prestar assistência consular às famílias.
Equipes relatam caos para acessar Caracas
Apesar da mobilização crescente, a chegada das equipes de resgate atrasou. "O trajeto de Caracas até aqui foi interminável. O Google Maps indica 2h30, mas levamos 7h30. O caos foi causado por pessoas que queriam ajudar e, agora, vemos que a ordem voltou. Há uma espécie de normalidade se restabelecendo", continua Fabien Walterio.
Paralelamente, a indignação da população cresce. No local, moradores denunciam a falta de apoio ou até a ausência do governo nas operações de resgate. A presidente Delcy Rodríguez foi vaiada na sexta-feira perto de um prédio desabado em um bairro de alto padrão de Caracas. Voluntários venezuelanos, que chegaram com pás para tentar salvar vidas, tiveram no sábado o acesso negado à área mais afetada.
Como consequência, uma fila enorme se formava diante do Poliedro, a sala de espetáculos onde o governo distribui autorizações para voluntários que desejam acessar a área atingida, enquanto máquinas começam a retirar os escombros. Os danos são estimados em cerca de US$ 7 bilhões, o equivalente a 6% do PIB, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Quase sete milhões de afetados
Diante da indignação popular com a gestão da crise, Delcy Rodríguez destacou e agradeceu a ajuda internacional. Vinte e quatro países enviaram 521 toneladas de equipamentos, mais de 2.700 socorristas e 86 equipes com cães treinados para localizar vítimas, detalhou.
Quase sete milhões de pessoas foram afetadas pelos dois terremotos, estimaram as Nações Unidas no sábado.
A Venezuela é um país com risco sísmico, embora nenhum grande terremoto tenha sido registrado desde 1997.