Moradores famintos de cidade ocupada pela Rússia voltam à Ucrânia em raro cessar-fogo

31 out 2026 - 12h37
Resumo
Após mediação de Melania Trump e do papa, um raro cessar-fogo de seis dias na cidade ocupada de Oleshky permitiu o retorno de civis ucranianos famintos ao seu país, via Belarus. A trégua local mais longa desde a invasão russa viabilizou o envio de ajuda humanitária a uma população isolada desde maio. Embora a ação mostre avanços pontuais no diálogo entre Rússia e Ucrânia antes de negociações em Abu Dhabi, combates intensos continuam em outras frentes do conflito e o Kremlin vê o caso como isolado.

Moradores famintos e exaustos da ‌cidade de Oleshky, controlada pela Rússia, cruzaram a fronteira para a Ucrânia neste sábado, em um grande retorno de civis no âmbito da primeira trégua humanitária desse tipo em mais de quatro anos de guerra.

A trégua local de seis dias em Oleshky foi alcançada após esforços de mediação da primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, e com o envolvimento do papa. Trata-se da mais longa pausa local nos combates desde a invasão da Ucränia pela Rússia em 2022.

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"Até o momento, cidadãos ⁠ucranianos de Oleshky cruzaram a fronteira ucraniana na região de Chernihiv. Todos receberão a assistência de que precisam", disse o presidente ucraniano, ‌Volodymyr Zelenskiy, agradecendo aos EUA e a Melania Trump pela mediação.

Autoridades ucranianas receberam os evacuados com cartazes com as mensagens "Vocês não estão sozinhos" e "Nós os abraçamos de coração".

Uma senhora idosa disse que eles haviam escapado do inferno ao descer de ‌um ônibus. Ela foi recebida por outra mulher envolta na bandeira nacional ‌da Ucrânia, azul e amarela. Ambas choraram.

Para chegar ao território controlado pela Ucrânia, os moradores de Oleshky tiveram que ⁠seguir uma rota complicada para deixar a cidade devastada, a apenas alguns quilômetros da linha de frente.

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Primeiro, viajaram de ônibus pela Crimeia até a cidade russa de Anapa, antes de voarem para a Belarus, de onde seguiram para a Ucrânia.

Um vídeo compartilhado pelo ombudsman da Ucrânia mostrou dezenas de moradores de Oleshky desembarcando lentamente de um avião em um aeródromo bielorrusso. Muitas pessoas eram idosas. Algumas precisavam de ajuda para andar, e algumas foram transportadas em macas ou cadeiras de rodas. Elas ‌carregavam pouca bagagem. Cães foram retirados do avião em gaiolas.

ÔNIBUS CRUZAM FRONTEIRA

À medida que vários ônibus grandes cruzavam a fronteira de ‌Belarus para a região de Chernihiv, no ⁠norte da Ucrânia, os moradores foram ⁠recebidos por parentes. Ambulâncias se alinharam e várias grandes tendas militares foram montadas, onde foram fornecidas refeições quentes, chá e assistência médica. 

Ração ⁠para animais de estimação e garrafas de água estavam empilhadas em várias ‌mesas.

"Percorremos um caminho complicado: desde as negociações ‌e o acordo sobre um cessar-fogo até a entrega de ajuda humanitária diretamente em Oleshky e a organização da retirada de civis", disse Dmytro Lubinets, ouvidor de direitos humanos da Ucrânia.

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O cessar-fogo vem sendo mantido desde terça-feira sem violações, segundo autoridades ucranianas e russas. Isso permitiu que as estradas fossem limpas de minas e que alimentos, medicamentos ⁠e outros suprimentos fossem levados para a cidade.

As rotas de abastecimento para Oleshky foram interrompidas pelos combates e pelos drones. Segundo alguns moradores, as entregas de alimentos foram interrompidas em maio, levando centenas de pessoas à fome.

O cessar-fogo terminará no domingo.

Lubinets disse que o morador mais velho que retornou tinha 94 anos, enquanto o mais jovem era um bebê com pouco mais de um ano. Ele não forneceu números exatos sobre quantas ‌pessoas voltaram para a Ucrânia.

Alguns moradores decidiram ir para a Rússia, enquanto outros optaram por permanecer em Oleshky, apesar da falta de gás, eletricidade e água encanada.

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Oleshky tinha uma população de cerca de 24 mil habitantes antes da guerra. ⁠Antes da retirada, estimava-se que restassem 1.700. A cidade está sob ocupação russa desde os primeiros dias da invasão. Ela foi devastada após a destruição da barragem de Kakhovka em 2023 e a inundação das áreas vizinhas.

CONFLITOS CONTINUAM

Apesar do cessar-fogo na frente sul de Kherson, os combates continuaram intensos em outras partes da guerra. Tanto a Rússia quanto a Ucrânia também mantiveram ataques com drones.

Zelenskiy afirmou que a Rússia atacou a infraestrutura energética ucraniana, atingindo subestações de energia elétrica, usinas termelétricas e infraestrutura de gás.

As forças armadas da Ucrânia informaram terem atingido um importante produtor russo de combustível para mísseis na região de Rostov.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que os ouvidores ucranianos e russos mantiveram um bom diálogo e começaram gradualmente a confiar uns nos outros ao trabalharem juntos durante o cessar-fogo de Oleshky, segundo reportagem do jornal russo Vedomosti.

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Mas o Kremlin afirmou na sexta-feira que se tratava de uma situação isolada, difícil de extrapolar para o processo de paz mais amplo.

Negociadores da Ucrânia, da Rússia e dos EUA devem retomar as negociações em Abu Dhabi no início de novembro, após as discussões terem sido suspensas em fevereiro, na sequência do início da guerra no Irã.

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