Uma missa homenageou as vítimas da colisão em alta velocidade entre dois trens ao sul de Madri, que deixou ao menos 69 mortos e dezenas de feridos e desaparecidos. Autoridades trabalham na complexa identificação dos corpos por DNA e não descartam novas mortes. Investigações preliminares apontam falha humana após uma ordem equivocada do centro de controle, enquanto o primeiro-ministro Pedro Sánchez enfrenta forte pressão política e sindicatos convocam greves no setor ferroviário espanhol.
Os bancos da igreja San Juan Bautista estavam lotados. Do lado de fora, dezenas de outras pessoas se reuniram para acompanhar a celebração. Algumas enxugavam lágrimas.
O acidente ocorreu quando um trem que fazia o trajeto entre Madri e Sevilha colidiu em alta velocidade na traseira de outro trem da companhia privada Iryo, subsidiária do grupo público italiano FS (Trenitalia), que estava parado nos trilhos, a 150 quilômetros ao sul de Madri.
As autoridades concluíram as autópsias das 69 pessoas mortas no acidente, e 36 já foram identificadas. Durante a missa, o arcebispo de Toledo, Francisco Cerro, afirmou aos presentes que os dias que se seguiram à tragédia foram como "uma Sexta-Feira Santa para todos nós". Ele reconheceu que "não existem palavras capazes de trazer consolo" àqueles que perderam familiares.
"Queridas famílias afetadas pelo acidente ferroviário, vocês não estão sozinhas. A sociedade está com vocês. O que ela tem de melhor está com vocês", declarou. Ele também homenageou as equipes de resgate e os voluntários, agradecendo aos profissionais de saúde, bombeiros, policiais e socorristas por seus esforços, e saudando o que descreveu como "uma verdadeira onda de solidariedade".
O presidente da região de Castela-La Mancha, Emiliano García-Page, e o prefeito de Urda, Manuel Galán, estavam entre as autoridades presentes à cerimônia. Os moradores de Urda, cidade com cerca de 2.500 habitantes, "estão profundamente abalados, sofrem muito e têm uma enorme necessidade de apoio", declarou Galán à emissora pública espanhola TVE antes da missa.
"Trabalhamos sem descanso"
"Estamos trabalhando sem descanso, com todos os órgãos do Estado mobilizados para tentar fornecer o máximo de informações, o mais rapidamente possível e de forma confiável, às famílias das vítimas", declarou o primeiro-ministro Pedro Sánchez nesta sexta-feira após uma reunião com equipes de resgate nas proximidades de Urda, onde ocorreu a tragédia.
Sánchez reiterou o "compromisso" de "informar (às famílias) o destino de seus entes queridos à medida que avança todo o processo de identificação (...) das vítimas deste terrível acidente".
"Estamos fazendo o que podemos, choramos, tenho meus dois filhos aqui me dando muito apoio, mas estamos passando por momentos muito difíceis", afirmou Javier Barrio, que procura sua esposa. Ela realizava sua última viagem de trabalho a bordo de um dos trens acidentados antes de se aposentar.
"Ainda não tenho a confirmação da morte", mas "as chances" de encontrá-la viva são "mínimas", reconheceu ele em Toledo, onde o instituto médico-legal conduz as operações de identificação e onde dezenas de parentes aguardam notícias em meio à angústia.
Outras mortes "não estão descartadas"
As autoridades da região de Castela-La Mancha, onde ocorreu o acidente, informaram que foram registrados 67 relatos de desaparecimento, dos quais 14 envolvem estrangeiros, entre eles cidadãos da Argentina, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Japão, República Tcheca, Tunísia e Venezuela.
Para facilitar o trabalho de identificação, as famílias forneceram amostras de DNA. "Não descartamos a possibilidade de haver mais mortos", advertiu o presidente regional, Emiliano García-Page. Segundo ele, além de "corpos intactos", os socorristas recolheram "até 31 sacos contendo restos mortais parciais e isso, como se pode imaginar, torna a identificação extremamente complexa".
Até o momento, 12 corpos haviam sido identificados. Um português que trabalhava em um dos trens está entre os mortos. Trinta e nove feridos continuam hospitalizados, mas todos apresentam "evolução razoavelmente positiva", acrescentou García-Page.
Com o auxílio de três enormes guindastes brancos e cães farejadores, as buscas por vítimas continuavam na sexta-feira no amontoado de metal retorcido em que se transformaram vários vagões, embora "reste cada vez menos a ser descoberto", declarou à emissora pública TVE Esther Padilla, porta-voz do governo de Castela-La Mancha.
Investigação
Paralelamente ao trabalho de identificação, a investigação sobre as causas do acidente prossegue em meio à comoção, já que o trem é um meio de transporte bastante utilizado na Espanha.
O ministro dos Transportes, Óscar Puente, que apontou uma "falha humana" e "circunstâncias inexplicáveis", explicou que os acontecimentos começaram com um problema no sistema que obrigou vários trens a parar.
Mas, segundo os primeiros elementos da investigação, pouco depois uma "ordem equivocada" foi dada a partir do centro de controle de Madri para que o trem da Renfe retomasse a marcha.
Segundo um relatório preliminar da autoridade administrativa independente encarregada de investigar acidentes ferroviários, o trem teria então atingido a composição parada "a uma velocidade estimada entre 160 e 200 km/h".
"A confiança no sistema de trens de alta velocidade do nosso país foi abalada", reconheceu Pedro Sánchez na sexta-feira, diante das crescentes críticas da oposição de direita a menos de um mês das eleições legislativas de 29 de novembro. O líder socialista tenta a reeleição em um cenário de pesquisas desfavoráveis.
"O papel do governo não é apenas fazer um diagnóstico, mas conhecer as causas" e "oferecer soluções para que uma tragédia dessa magnitude não volte a acontecer", concluiu. O sindicato Semaf convocou os ferroviários da companhia estatal Renfe para uma greve nos dias 10 e 12 de novembro.
Com agências