Frédérique Misslin, correspondente da RFI em Jerusalém, e AFP
Nos últimos três anos, Israel promoveu uma profunda reconfiguração do mapa ao redor de Jerusalém. Os setores políticos mais radicais passaram a defender abertamente o projeto da chamada "Grande Jerusalém".
Entre as iniciativas mais emblemáticas está o projeto E1, que visa criar uma continuidade territorial entre colônias israelenses e Jerusalém. O governo liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu também multiplica projetos semelhantes em toda a área metropolitana da cidade, dentro do território palestino ocupado.
Esse processo é documentado pela organização israelense de direitos humanos Ir Amim, que acaba de divulgar um relatório sobre o tema. No terreno, os efeitos dessa política já são visíveis, inclusive nos arredores de Belém, a poucos quilômetros de Jerusalém.
Para compreender os desafios em jogo, é preciso recuar à divisão territorial definida pelos Acordos de Oslo. A Cisjordânia foi segmentada em três zonas: a Área A, sob controle civil e militar palestino; a Área B, sob administração compartilhada; e a Área C, que corresponde a cerca de 60% do território e permanece sob controle direto de Israel.
Nessas áreas, palestinos e colonos israelenses vivem lado a lado.
"A Grande Jerusalém avança aos poucos"
Segundo Aviv Tatarsky, pesquisador da Ir Amim, quatro novas colônias surgiram recentemente ao redor de Jerusalém, entre elas Mishmar Yehuda e Yatziv.
"O que mostramos é que há etapas sistemáticas que fazem parte de um plano pré‑estabelecido para se apropriar da Zona C e expulsar os palestinos", explica. "Inclui a construção de novas colônias, a expansão das mais antigas, a criação de postos avançados e das infraestruturas associadas, como estradas. Há também a violência de Estado contra os palestinos, com o objetivo de forçá‑los a deixar a área, por meio da demolição de casas, da violência do Exército e do terrorismo dos colonos", diz.
Relato semelhante vem da aldeia palestina de Battir, próxima a Jerusalém. Kamal, guia palestino, descreve uma pressão constante: "Acho que existe um plano. E esse plano é a Grande Jerusalém. Isso avança pouco a pouco", afirma.
"Ontem mesmo, uma casa foi destruída em Al‑Khader. Em Al‑Walaja, três ou quatro casas foram demolidas nos últimos meses. Talvez digam que não tinham as licenças corretas, mas, na prática, quando você pede uma licença, nunca a obtém", explica.
Vilarejos palestinos cada vez mais isolados
O acesso às vilas palestinas também se tornou mais difícil. Dezesseis novas barreiras metálicas amarelas bloqueiam atualmente as estradas que ligam cidades e vilarejos palestinos nas proximidades de Jerusalém.
Para Tatarsky, essas barreiras permitem ao Exército israelense isolar rapidamente comunidades inteiras. "Isso significa que cada cidade, cada vila, pode ser cercada pelo Exército israelense de um minuto para o outro, com saídas bloqueadas por longos períodos", explica à RFI.
Kamal descreve a situação como absurda: "Há uma barreira, um portão, no fim das contas, para cada vila. Dá a impressão de que voltamos à Idade Média. Quando ligo para um amigo, digo: onde podemos nos encontrar? No portão da cidade".
O conjunto dessas medidas busca expandir a presença israelense e criar enclaves palestinos sem continuidade territorial.
Militantes pacifistas tentam conter violência em Jerusalém
Sob um forte sol no fim da manhã desta quinta-feira (14), nas escadarias da Porta de Damasco, uma das entradas da Cidade Velha, dezenas de militantes vestidos de branco ofereceram flores aos pedestres.
Entre eles, Ilan Perez, de 52 anos, que veio do centro do país, disse querer demonstrar "uma forma de solidariedade com a comunidade local".
"Como judeu, como sionista (…) quero que eles façam parte do país, com direitos iguais", declarou, segurando flores brancas.
Dentro da Cidade Velha, ao longo do trajeto da marcha, muitos comerciantes baixaram suas portas de ferro, antecipando possíveis episódios de violência - com frequência marcados por insultos racistas, cusparadas e atos de vandalismo durante a passagem do cortejo. Tradicionalmente, dezenas de milhares de nacionalistas participam da marcha anual, e os incidentes são recorrentes, sobretudo no fim do dia.
Para tentar conter a violência, o partido israelo‑palestino Standing Together mobilizou 300 voluntários. Sua codiretora, Rula Daoud, criticou à AFP os grupos de extrema direita que, segundo ela, vêm "aterrorizar" os moradores palestinos, e afirmou que o objetivo é garantir uma "presença protetora" e ajudar a reduzir as tensões.
Ao meio‑dia, os primeiros grupos participantes da Jornada de Jerusalém entraram pela Porta de Damasco, entoando o slogan "Israel para sempre", sob forte vigilância policial.