Maria Paula Carvalho, da RFI
A iniciativa franco-brasileira faz parte de uma cooperação acadêmica que busca ampliar a presença indígena no ensino superior e promover o diálogo entre saberes ancestrais e o conhecimento ocidental.
Uma parceria entre a embaixada da França no Brasil e a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) tem permitido que indígenas participem não apenas da graduação, mas também de programas de doutorado e pós-doutorado — uma novidade da última década, segundo o reitor. Criada em 2005, com um programa ousado de inclusão, a UFGD criou internamente também uma faculdade específica para populações indígenas, do campo e quilombolas.
"É fundamental garantir aos povos indígenas o reconhecimento de sua trajetória, de sua luta e de sua resistência, após séculos de políticas de não inclusão", afirma Jones Goettert.
Há 20 anos, a UFGD tinha cerca de 20 indígenas formados na graduação. Hoje, esse número chega a quase 500, abrangendo os povos Guarani, Kaiowá e Terena. Anualmente, cerca de 10 a 15 doutorandos indígenas iniciam suas pesquisas na instituição, sendo que aproximadamente 50 já são doutores.
Entre os temas estudados estão, principalmente, História, Geografia, Sociologia, Antropologia, Educação e Letras. "As pesquisas tendem a se concentrar na compreensão e análise das realidades no interior das aldeias, mas também nas relações às vezes tensas e complicadas, assim como de reciprocidade, entre a aldeia e a não aldeia", continua o reitor. "Um olhar ancestral que vem contribuindo enormemente para o diálogo com os saberes ocidentais", completa.
'Virada antropológica'
Os indígenas, que antes eram objetos de estudo, agora são os autores de suas próprias teses. "Essa me parece ser a grande virada antropológica e cultural dessa participação dos indígenas nas universidades", destaca o reitor. "Agora, não é mais possível falar da realidade indígena no Brasil sem a participação e a autoria, sem o protagonismo de intelectuais indígenas, e o papel dos mestrados e doutorados é fundamental para isso", observa.
De acordo com o acadêmico, a universidade ganha com essa troca, ao motivar colegas indígenas e não indígenas a pensarem uma mobilidade internacional que, historicamente, esteve muito ligada à classe média-alta. Já nos territórios indígenas, mais estudo significa mais desenvolvimento. "Devemos citar também o progresso sociológico e cultural das comunidades, na medida em que há um reconhecimento desses alunos como lideranças indígenas e territoriais, possibilitando um diálogo ainda mais profundo com a sociedade", completa.
O futuro é ancestral
O professor destaca o interesse de acadêmicos da França pela presença de doutorandos indígenas. "Percebemos que as universidades europeias reconhecem essa dívida que não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro tem com os povos originários ou ancestrais", disse em entrevista à RFI. "A vinda à França faz parte de uma reparação histórica fundamental", acrescenta.
"Há uma necessidade também de a Europa Ocidental começar a escutar e aceitar um diálogo profundo com outros modos de habitar o mundo, outras formas de viver os territórios, naquilo que chamamos de mundo comum", aponta Goettert. "Às vezes são experiências muito diferentes, algumas até antagônicas e contraditórias ao modelo hegemônico. Nesse sentido, os povos indígenas têm muito a contribuir ao apresentarem suas cosmologias, suas cosmografias e apontarem outros caminhos para questões emblemáticas da atualidade, como a questão ambiental e o aquecimento global", avalia.
Em outras palavras, enquanto o mundo moderno precisa desenvolver novos modos de produção e consumo, os povos indígenas podem apontar outras práticas e outros saberes nessa relação com o mundo. Ao fazerem o caminho inverso ao dos colonizadores e virem para o Velho Continente, os indígenas buscam também apoio para as suas causas. "O retorno desses indígenas possibilita um novo olhar e uma nova posição — não mais de subalternidade, mas, de fato, de protagonismo", conclui.