Suíça tem dia de luto nacional após incêndio de Crans-Montana; donos do bar são interrogados

O casal de franceses Jacques e Jessica Moretti, donos do bar Le Constellation de Crans-Montana, na Suíça, destruído por um incêndio na noite de Ano-Novo, devem ser interrogados nesta sexta-feira (9), dia de luto nacional em homenagem às vítimas. A tragédia na estação de esqui matou 40 pessoas e feriu 116 — em sua maioria adolescentes e jovens adultos.

8 jan 2026 - 16h54

Os dois proprietários do bar prestarão depoimento no Ministério Público às 8h no horário local, (4h em Brasília), na cidade de Sion, capital do cantão do Valais. Esta será a primeira vez que o casal francês será ouvido formalmente desde a abertura do inquérito pelo Ministério Público, em 3 de janeiro. Jacques Moretti, que já teve problemas com a Justiça francesa e foi condenado por um caso de proxenetismo em 2008, e sua esposa, são investigados por "homicídio culposo, lesões corporais e incêndio por negligência". 

Flores, velas e mensagens em memorial improvisado perto do bar Constellation, em Crans‑Montana, em tributo às vítimas do incêndio na noite de Ano‑Novo.
Flores, velas e mensagens em memorial improvisado perto do bar Constellation, em Crans‑Montana, em tributo às vítimas do incêndio na noite de Ano‑Novo.
Foto: AFP - FABRICE COFFRINI / RFI

Se os investigadores concluírem que os proprietários tinham consciência dos riscos, eles poderão enfrentar acusações mais graves, como a de homicídio com dolo eventual — situação em que o autor não tem a intenção de cometer o ato, mas aceita o risco de produzi-lo. A pena máxima para esse tipo de crime pode chegar a 20 anos de prisão.

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O casal não teve a prisão preventiva ou residencial determinada, o que surpreendeu as famílias das vítimas. Os franceses afirmaram, em comunicado, que estão "colaborando totalmente" com a investigação e que "assumirão as consequências."

"Esperamos que o inquérito avance de forma significativa após sexta-feira", diz o advogado Sébastien Fanti, que representa quatro famílias de feridos. "Meus clientes estão aliviados por finalmente serem considerados no processo", declarou Romain Jordan, advogado que representa outras famílias.

"É essencial estabelecer a situação pessoal dos réus, especialmente sob o ponto de vista econômico", ressaltou Jordan. Ele lamenta que o casal não tenha sido submetido a qualquer medida restritiva após a tragédia, e que, até onde sabe, o Ministério Público não tenha realizado nenhuma busca ou apreensão.

Romain Jordan ainda afirma que, "nas primeiras horas da manhã, quando o estabelecimento ainda queimava, os responsáveis pelo bar Le Constellation — ou alguém próximo a eles — bloquearam o acesso às páginas do Facebook e a todas as redes sociais do local, onde havia fotos e vídeos da festa".

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Segundo ele, isso "mostra claramente que eles tinham consciência de um problema e houve uma tentativa de minimizá-lo". Ele também acrescentou que seus clientes "reconhecem o trabalho da imprensa, que já permitiu recuperar diversos elementos digitais".

Velas de vulcão já tinham sido usadas no bar

De acordo com a investigação o incêndio teve início quando velas de faísca — conhecidas no Brasil como velas vulcão, foram colocadas em garrafas de champanhe e tocaram painéis de espuma usados para revestimento acústico, instalados no teto do subsolo.

Vídeos exibidos na segunda-feira (5) pela emissora suíça RTS mostram que não era a primeira vez que esse tipo de vela era utilizado no bar — e que o risco era conhecido. Em uma dessas gravações, feitas na festa de Ano-Novo de 2019, um funcionário alerta: "Cuidado com a espuma!". "Esse vídeo é chocante", reagiu Romain Jordan, afirmando que os proprietários "tinham consciência do perigo e, possivelmente, ele foi aceito".

A investigação deve analisar, entre outros pontos, a conformidade das obras realizadas pelo casal em 2015, os materiais usados, as saídas de emergência, os equipamentos de combate ao fogo e o respeito às normas de segurança, principalmente em relação à espuma, que fez com que o fogo se alastrasse rapidamente.

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Na terça-feira, a prefeitura de Crans-Montana reconheceu que o bar não passava por inspeções de segurança e incêndio desde 2019, o que gerou indignação entre familiares das vítimas.

Funeral reúne milhares de pessoas

Milhares de pessoas participaram nesta quarta-feira (7), na Itália, dos funerais de quatro adolescentes mortos no incêndio. Em Milão, multidões se reuniram para homenagear Chiara Costanzo e Achille Barosi, ambos de 16 anos, em cerimônias marcadas por forte comoção. Famílias criticaram a falta de respostas e pediram transparência na investigação.

Outras cerimônias ocorreram em Bolonha, Lugano e Roma, onde escolas fizeram um minuto de silêncio. Amigos e religiosos descreveram as vítimas como jovens alegres, dedicados e cheios de planos. Para muitos participantes, o impacto da tragédia continua sendo "um choque" difícil de compreender.

Com agências

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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