O acordo, negociado há mais de 25 anos, será votado pelos embaixadores dos países‑membros do bloco nesta sexta‑feira (9), em Bruxelas, e leva a imprensa francesa a examinar o custo político da decisão do presidente Emmanuel Macron de rejeitar o pacto.
Sem o apoio italiano, "a sorte está lançada", afirma o Libération. O bloco que a França havia conseguido construir com Roma, Varsóvia, Budapeste e Dublin deixou de existir. Para barrar o acordo, seria necessário reunir no mínimo 13 dos 27 países da União Europeia ou Estados que representem 35% da população do bloco - um objetivo que agora se tornou inalcançável para Paris.
De acordo com uma reportagem do Les Echos, para os dirigentes de mais de mil empresas francesas estabelecidas no Brasil, a provável assinatura do tratado é vista como uma boa notícia, após anos de frustração com a falta de avanço nas negociações. Segundo Thierry Besse, presidente da Câmara de Comércio França‑Brasil em São Paulo, ouvido pelo jornal, assinar um acordo que dê acesso à economia brasileira - considerada "a mais fechada do G20" do ponto de vista comercial - teria um impacto estratégico significativo.
Besse destaca que as tarifas alfandegárias brasileiras, que podem chegar a 35%, representam um entrave importante para as empresas europeias. A entrada em vigor do acordo colocaria os europeus em uma posição vantajosa em relação aos concorrentes norte‑americanos e chineses, que não dispõem de um tratado equivalente com o Brasil. Para esse segmento do empresariado francês, o Mercosul não é uma ameaça, mas uma oportunidade de crescimento e de reposicionamento estratégico.
Caso a maioria qualificada seja alcançada na votação desta sexta‑feira - isto é, 55% dos Estados‑membros que representem 65% da população europeia -, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderá embarcar para o Paraguai, onde deverá assinar formalmente o acordo na próxima segunda‑feira (12), destaca o jornal.
Isolamento político
Para o Le Figaro, a França acaba politicamente isolada dentro da União Europeia ao tentar bloquear o tratado, após a mudança de posição da Itália. O diário observa que, apesar de ter obtido diversas concessões ao longo das negociações, Paris manteve uma postura inflexível que não conseguiu explicar claramente à opinião pública nem impor em Bruxelas. O governo francês invoca a autonomia estratégica europeia, mas se opõe a um acordo que a maioria de seus parceiros considera essencial para fortalecer o bloco diante da China e dos Estados Unidos.
Internamente, aponta o jornal, setores que poderiam se beneficiar do tratado permaneceram em silêncio diante da forte pressão do setor agrícola. O resultado é uma França politicamente fragilizada e cada vez mais distante da maioria europeia, presa entre o discurso e a prática.
Paradoxo econômico e agrícola
"O Executivo diz não ao Mercosul, mas não consegue conter a revolta dos agricultores", resume o Les Echos em sua análise. Para o diário econômico, a decisão da França de votar contra o acordo - algo incomum para um país fundador da União Europeia - não resolve a crise agrícola francesa, que continua a se intensificar, com protestos, bloqueios de estradas e um clima de tensão crescente no campo.
O governo de Emmanuel Macron tentou inicialmente deslocar a pressão dos agricultores para Bruxelas, mas acabou sendo obrigado a endurecer sua posição no plano interno, o que agravou a irritação dos produtores rurais. O jornal destaca o paradoxo central: o Mercosul foi transformado em símbolo de ameaça, inclusive para setores que poderiam ser favorecidos pelo acordo, enquanto tanto sua aprovação quanto sua rejeição deixam intactos os múltiplos problemas estruturais da agricultura francesa.
Segundo o Les Echos, o tratado acabou se tornando um foco que encobriu dificuldades mais profundas - da renda dos agricultores às exigências ambientais, da competitividade internacional à renovação geracional. O resultado é um impasse político e social, sem respostas claras sobre como o governo pretende enfrentar a crise agrícola nem com quem poderá contar para isso, tanto na França quanto no restante da União Europeia.