Rússia ataca Ucrânia com míssil hipersônico Orechnik e coloca novamente Europa em alerta

O disparo do míssil de última geração Orechnik pela Rússia contra a Ucrânia na noite de quinta para sexta-feira (9) representa uma nova ameaça para a Europa, segundo a França, a Alemanha e o Reino Unido.

9 jan 2026 - 11h42

Os ataques "contínuos" da Rússia, "incluindo o uso de um míssil balístico de alcance intermediário Orechnik no oeste da Ucrânia", representam "uma escalada e são inaceitáveis", afirmaram o presidente francês, Emmanuel Macron, o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o premiê britânico, Keir Starmer, durante um telefonema, segundo uma porta‑voz de Downing Street, o gabinete do premiê britânico.

Edifício residencial em construção atingido durante o ataque massivo com drones e mísseis russos contra Kiev nesta sexta-feira (9).
Edifício residencial em construção atingido durante o ataque massivo com drones e mísseis russos contra Kiev nesta sexta-feira (9).
Foto: AFP - SERGEI SUPINSKY / RFI

O disparo é um sinal "claro" de "escalada" por parte de Moscou e um "alerta" dirigido à Europa e aos Estados Unidos, também afirmou nesta sexta a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas. O lançamento desse míssil hipersônico de última geração demonstra que Vladimir Putin "não quer a paz, a resposta da Rússia à diplomacia é mais mísseis e destruição", declarou a representante da UE no X.

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Para a chefe do governo italiano, Giorgia Meloni, "chegou o momento em que a Europa deveria falar com a Rússia". Ela defendeu a criação de um "enviado especial" europeu que representasse todos os líderes do continente.

Segundo a premiê italiana, um "enviado especial da Europa para a questão ucraniana permitiria fazer a síntese, falar com uma única voz", pois "desde o início das negociações, muitas vozes falam ao mesmo tempo, de muitas maneiras".

"A questão é saber quem deveria fazer isso. Pois, se cometêssemos o erro de decidir, por um lado, restabelecer a comunicação com a Rússia e, por outro, irmos cada um por conta própria, daríamos mais um pretexto para Vladimir Putin, o que é a última coisa que eu quero", acrescentou Meloni. Questionada sobre a possibilidade de a Rússia reintegrar o G7, ela considerou "prematuro" abordar esse assunto, embora o tema possa ser discutido "quando — e se — houver" paz.

Mensagem aos países que apoiam Kiev

O ataque russo é uma mensagem aos líderes ocidentais e visa assustar as populações dos países que apoiam Kiev, que resiste à invasão russa, dizem especialistas. "Vladimir Putin se comunica assim com os ocidentais, pois certamente poderia obter os mesmos efeitos operacionais sem esse míssil", explica Cyrille Bret, pesquisador do Instituto Montaigne, destacando que "as autoridades políticas e militares russas ativaram todas as suas redes para promover esse ataque do Orechnik".

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A escolha do alvo, na região de Lviv, tem significado. "Bem mais a oeste do que o disparo anterior contra Dnipro, em novembro de 2024, contra uma fábrica militar. Ou seja, muito mais próximo das fronteiras da União Europeia. Provavelmente é preciso ver nisso uma mensagem destinada aos países europeus", estima no X Étienne Marcuz, da Fundação para a Pesquisa Estratégica (FRS). O Orechnik é um míssil balístico de alcance intermediário (IRBM), inferior a 5.500 km, que ameaça, portanto, a Europa.

Ucrânia confirma ataque

O serviço de segurança ucraniano (SBU) confirmou nesta sexta que a Rússia atingiu a região de Lviv com o míssil na noite de quinta. Em comunicado, o SBU afirma ter localizado os destroços do projétil na região de Lviv, que faz fronteira com a Polônia, país membro da União Europeia e da Otan. Entre os fragmentos encontrados estão peças de estabilização e guiagem, além de partes do motor.

As autoridades ucranianas não especificaram quais foram os alvos atingidos nem a extensão dos danos. Esta é a primeira confirmação oficial de que a região de Lviv foi atingida por esse tipo de míssil, capaz de transportar ogivas nucleares — embora não estivesse carregado no ataque. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e o Ministério da Defesa russo já haviam confirmado o lançamento do míssil, mas sem mencionar a área atingida.

"Ao atingir infraestruturas civis em nosso país, perto da fronteira com a União Europeia, o Kremlin tentou destruir os sistemas vitais da região", acrescentou o SBU. De acordo com a Rússia, esta é a segunda vez que o país utiliza um míssil balístico hipersônico em ataques contra a Ucrânia desde o início da guerra, que completa quatro anos em fevereiro.

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O míssil foi implantado em meados de dezembro em Belarus, país aliado da Rússia situado às portas da União Europeia, como já havia anunciado seu presidente, Alexander Lukashenko. O prefeito de Lviv, Andriï Sadovy, declarou pela manhã que o míssil balístico que se deslocava a 13.000 km/h havia sido disparado contra a região, sem identificá‑lo claramente como Orechnik.

Blogueiros militares russos afirmaram que o alvo era um grande depósito de gás situado na região. Sadovy declarou apenas que uma "infraestrutura essencial" havia sido atingida, mas que o ataque não causou vítimas.

Prefeito de Kiev pede que moradores deixem a capital

Os ataques russos iniciados na noite de quinta (8) deixaram ao menos quatro mortos e metade dos prédios residenciais de Kiev sem aquecimento, levando o prefeito a solicitar nesta sexta que os habitantes se retirem "temporariamente" da capital ucraniana.

Jornalistas em Kiev viram moradores correrem para abrigos após um alerta antiaéreo e ouviram drones explodirem contra edifícios. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky exigiu uma "reação clara" da comunidade internacional. "O ataque ocorreu exatamente no momento em que uma forte onda de frio atingiu o país", afirmou.

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Pela primeira vez desde o início da invasão russa em 2022, o prefeito de Kiev, Vitaly Klitschko, pediu que os moradores deixem a cidade "temporariamente", enquanto as temperaturas oscilam entre -7 °C e -12 °C. "Metade dos edifícios residenciais de Kiev — cerca de 6 mil — está atualmente sem aquecimento", alertou.

De acordo com a operadora privada de energia DTEK, 417 mil residências estão sem eletricidade na capital, devido aos ataques russos e às condições meteorológicas difíceis. Cerca de 40 locais foram atingidos pelos ataques russos em Kiev, incluindo 20 prédios residenciais e a embaixada do Catar, segundo Zelensky. A Procuradoria relatou quatro mortos e 26 feridos.

Pelo menos 556 mil pessoas ficaram sem eletricidade e aquecimento na manhã de sexta‑feira na região russa de Belgorod, fronteiriça com a Ucrânia, segundo o governador local, Viatcheslav Gladkov.

Segundo a Força Aérea ucraniana, a Rússia lançou durante a noite 36 mísseis e 242 drones, dos quais 18 mísseis e 226 drones foram abatidos. Moscou afirmou ter atingido "alvos estratégicos" na Ucrânia, inclusive com o míssil de última geração Orechnik.

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De acordo com o Ministério da Defesa russo, esses ataques foram realizados "em resposta ao atentado terrorista perpetrado pelo regime de Kiev" contra uma residência de Vladimir Putin no fim de dezembro — versão negada pela Ucrânia e países ocidentais.

"Um ataque desse porte, tão perto da fronteira da União Europeia e da Otan representa uma ameaça grave para a segurança do continente europeu e um teste para a aliança transatlântica", avaliou o ministro ucraniano das Relações Exteriores, Andriï Sybiga.

Quase quatro anos após o início da ofensiva em larga escala do Kremlin, Moscou continua bombardeando a Ucrânia quase diariamente. O alvo principal é a infraestrutura energética do país.

Com agências

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