'Não nos impedirão de protestar': estudantes desafiam governo e mantêm mobilização na França

Desafiando a proibição de uma passeata prevista para esta terça-feira (3), milhares de estudantes do ensino médio e universitários se reuniram no centro de Paris. Em todo o país, diversas escolas e faculdades mantiveram bloqueios.

3 nov 2026 - 15h16
(atualizado às 15h19)
Resumo
Estudantes franceses mantêm mobilizações e bloqueios em escolas e universidades por todo o país, desafiando a repressão policial e a proibição de atos públicos. Considerando insuficientes as concessões anunciadas pelo governo, o movimento reivindica a revogação do sistema de acesso ao ensino superior e um aporte de 10 bilhões de euros na educação pública. Os protestos, que já contam com milhares de manifestantes, funcionam como um preparativo para a greve geral de 5 de novembro.

"Dizem que o movimento está perdendo força, mas não é isso que eu vejo", afirma o doutorando Nao, de 23 anos, em Paris.

Manifestantes seguram faixas durante um protesto organizado por estudantes do ensino médio e universitários em Paris, em 3 de novembro de 2026, como parte de uma mobilização nacional que reivindica um investimento de € 10 bilhões na educação e a revogação do controverso sistema de seleção para o ensino superior.
Manifestantes seguram faixas durante um protesto organizado por estudantes do ensino médio e universitários em Paris, em 3 de novembro de 2026, como parte de uma mobilização nacional que reivindica um investimento de € 10 bilhões na educação e a revogação do controverso sistema de seleção para o ensino superior.
Foto: AFP - GEOFFROY VAN DER HASSELT / RFI

Ao seu redor, alunos do ensino médio e universitários entoavam palavras de ordem como "todos juntos e todas juntas, greve geral" e repetiam slogans contra as forças de segurança, acusadas de empregar violências desproporcionais desde o início da mobilização, em meados de setembro. 

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O trajeto da passeata proposta pela organização Interfac Île-de-France, que se apresenta como a assembleia geral dos estudantes das universidades da região parisiense, previa uma marcha entre o Panteão e a sede do Medef, principal organização patronal da França. No entanto, a Secretaria de Segurança Pública vetou o percurso e autorizou apenas uma manifestação em uma região periférica da capital. 

Cercados pelas forças de segurança por cerca de uma hora, os manifestantes seguiram em direção à Universidade Sorbonne, de onde o ato deveria partir originalmente, antes de se dispersarem de forma pacífica por volta das 16h pelo horário local. De acordo com as autoridades, entre 10 mil e 20 mil pessoas participaram do ato. 

Para Mael, de 20 anos, estudante de Relações Internacionais da Universidade Paris 1, a proibição de protestos no centro de Paris não foi uma surpresa. Ainda assim, ele afirmou estar "chocado" com a "repressão" enfrentada pelo movimento estudantil.

Novos bloqueios

Insatisfeitas com as medidas anunciadas pelo governo, organizações estudantis também convocaram para hoje novos bloqueios em escolas e universidades, em preparação para a greve geral marcada para quinta-feira, 5 de novembro, da qual pretendem participar.

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Segundo o Ministério da Educação da França, em todo o país, 48 escolas de ensino médio estavam bloqueadas nesta terça-feira. O número representa uma pequena parcela dos cerca de 3.700 estabelecimentos secundaristas na França.

Os dados, porém, foram contestados pela União Sindical dos Estudantes do Ensino Médio (USL), que afirmou ter contabilizado cerca de 500 instituições de ensino fechadas, dez vezes mais do que o total informado pelo governo.

Na rede social X, o ministro francês da Educação, Édouard Geffray, defendeu que os estudantes retornem às salas de aula. "Os nossos alunos precisam frequentar as aulas para se preparar para os exames finais e para a continuidade dos estudos. Impedi-los de entrar em sua escola é privá-los de um direito fundamental, o direito à educação", escreveu. 

Medidas consideradas insuficientes

Após mais de um mês de bloqueios, o governo francês anunciou na semana passada uma série de medidas para tentar conter a mobilização estudantil. Entre elas estão a substituição gradual da plataforma de acesso ao ensino superior até 2028, a criação de 500 postos adicionais na educação, a limitação das turmas do primeiro ano do ensino médio a 28 alunos e a abertura de 15 mil vagas extras no ensino superior.

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A frente sindical que reúne a União Sindical dos Estudantes do Ensino Médio (USL), a Unef, a Fage e a União Estudantil continua exigindo a revogação da plataforma de acesso ao ensino superior e um investimento adicional de € 10 bilhões na educação. 

"O mais importante para mim são os professores. No ano passado, ficamos três meses sem professor de matemática, e isso faz diferença agora", relatou o estudante Noé, de 16 anos, em Rennes, no oeste do país. 

Na avaliação de Assia, outra participante do movimento, o prolongamento da paralisação tornou difícil um retorno imediato às aulas. "Já chegamos a um ponto em que, se voltarmos agora, teremos perdido um mês de aula à toa. Então é melhor continuar", disse ela.

Manifestantes abordados e revistados

As forças de segurança permaneceram mobilizadas diante de escolas em diversas regiões do país. Em Rennes, a polícia dispersou no fim da manhã algumas centenas de estudantes do ensino médio que, acompanhados por sindicalistas e professores, marchavam pacificamente pelo centro da cidade apesar da proibição de protestar. Dezenas de manifestantes foram abordados e revistados após serem cercados pela polícia.

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Em Toulouse, no sudoeste, o professor de matemática Raphaël Geromini, integrante do sindicato SNES-FSU, afirmou que a mobilização também reflete problemas estruturais enfrentados pelas escolas. "Aqui, quase todas as turmas têm 35 alunos e o prédio não é adaptado nem ao calor intenso nem ao frio rigoroso", declarou.

Em Lille, no norte, onde policiais estavam posicionados diante de alguns liceus na manhã desta terça-feira, a prefeitura mobilizou um "dispositivo de segurança" em cerca de dez estabelecimentos da região metropolitana para "garantir a segurança" dos alunos que desejavam assistir às aulas. 

Na região de Estrasburgo, no nordeste, a secretaria de segurança pública adotou medidas ainda mais rígidas, proibindo durante toda a semana quaisquer "reuniões que constituam manifestações reivindicatórias em vias públicas" em um raio de 50 metros ao redor de 11 escolas de ensino médio da localidade.

Nas universidades, vários campi permaneceram fechados ao longo do dia após bloqueios promovidos por estudantes. Entre eles estão os campi de Moulins e Pont-de-Bois, dois dos principais da Universidade de Lille.

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RFI com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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