O Ministério Público de Paris abriu uma investigação criminal após militantes de extrema direita usarem redes sociais para planejar emboscadas e ataques violentos contra entregadores de aplicativos e muçulmanos. O grupo pretendia atrair trabalhadores a locais isolados para agredi-los, sob o pretexto de combater a islamização. O caso ocorre em meio à escalada do ódio antimuçulmano na França, gerando alerta entre sindicatos, empresas do setor e entidades religiosas após recentes episódios racistas.
Nos áudios, participantes fazem declarações violentas e racistas. Segundo o jornal L'Humanité, militantes de extrema direita fizeram apelos explícitos para atacar entregadores e sugeriram o uso de aplicativos de entrega para atrair vítimas a emboscadas. Uma mulher propõe atacar muçulmanos durante orações realizadas em espaços públicos, enquanto outro participante afirma que seria preciso usar os aplicativos para fazer entregadores "desaparecerem". Um terceiro chega a declarar que "será realmente necessário matar muita gente".
Um dos participantes sugeriu, aos risos: "Vocês pedem um McDonald's ou algo do tipo em áreas isoladas, fazem os entregadores vir e depois os fazem desaparecer."
As mensagens também incluem insultos racistas e apelos à violência. Os participantes mencionavam "envenenamento, ataques a tiros e pulverização" e defendiam aproveitar as orações de rua, quando, segundo eles, os muçulmanos estariam reunidos. O objetivo declarado seria "reconquistar o território" e "francesar e acabar com a islamização", especialmente nos arredores de Paris e na região de Seine-Saint-Denis, periferia da capital francesa.
Questionadas pelo portal, as plataformas Uber e Deliveroo disseram estar "profundamente chocadas" com as mensagens e informaram ter enviado alertas preventivos aos entregadores. "Condenamos firmemente esses apelos a agressões racistas contra os entregadores", declarou Fabian Tosolini, dirigente da organização sindical Union-Indépendants.
Caso vem à tona após ataque racista na região parisiense
Além da acusação de incitação ao ódio racial, a investigação também apura o crime de provocação pública e direta para a prática de atentados contra a vida ou a integridade física de pessoas.
O caso ocorre poucos dias após o atentado racista de Trappes, na região parisiense, que deixou um morto e sete feridos em 23 de outubro e que está sendo investigado pelo Ministério Público Nacional Antiterrorista da França.
Questionado pela AFP, o Ministério Público de Paris informou que tomou conhecimento das publicações e confiou à polícia criminal a investigação sobre a sala de discussão. O inquérito foi aberto por "incitação pública ao ódio ou à violência contra uma pessoa ou grupo de pessoas em razão de sua origem ou de seu pertencimento, ou não pertencimento, a uma etnia, nação, raça ou religião determinada".
A investigação também inclui suspeitas de "incitação direta a um ato terrorista por meio de um serviço de comunicação ao público online" e de "incitação pública e direta, ainda que não seguida de efeito, à prática de crimes e delitos que atentem contra os interesses fundamentais da nação". Os promotores também apuram a hipótese de "incitação pública e direta, sem efeito concreto, à prática de atentados contra a vida ou a integridade física de pessoas".
Em entrevista à emissora Franceinfo, Oumaima Aouad, coordenadora da organização "Maison des Coursiers", que acolhe e presta apoio a entregadores de plataformas digitais, afirmou que alguns trabalhadores disseram estar "assustados" com a situação. "Essas pessoas já trabalham em condições muito precárias e difíceis. Se, além disso, precisarem desconfiar de cada entrega que fazem, a tarefa se torna muito mais complicada", declarou.
"Grau de violência do ódio antimuçulmano na França"
A Grande Mesquita de Paris condenou com veemência nesta terça-feira os atos islamofóbicos registrados contra uma mesquita em Lodève, no sul da França, onde foram encontradas inscrições racistas, um pombo morto e uma placa com os dizeres "a mala ou o caixão", slogan associado aos defensores da Argélia Francesa durante a guerra de independência.
O reitor da instituição, Chems-Eddine Hafiz, afirmou que o episódio se soma a uma série de incidentes recentes, entre eles o atentado racista de Trappes e as convocações a assassinatos de pessoas de origem árabe divulgados nas redes sociais. Segundo ele, os acontecimentos revelam uma escalada preocupante do ódio antimuçulmano na França.
A mesquita pediu que políticos, personalidades da mídia e participantes do debate público tenham responsabilidade em suas declarações, alertando contra discursos que estigmatizam toda uma comunidade.
A ministra encarregada do combate às discriminações, Aurore Bergé, também condenou os atos e fez um apelo à união e ao combate a toda forma de incitação ao ódio.