Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas
Apesar de ser uma reunião entre aliados, a expectativa é de que a cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) seja marcada por disputas diplomáticas. Donald Trump diverge da maioria dos países-membros em praticamente todos os temas do encontro.
O presidente americano já era um crítico declarado da Otan antes mesmo de voltar à Casa Branca, mas essa relação ficou ainda mais delicada após a guerra com o Irã. Durante o conflito, países da aliança se recusaram a enviar reforços ou oferecer apoio logístico aos Estados Unidos e a Israel. Os aliados negaram o uso de suas bases aéreas e demonstraram resistência em participar das operações militares para reabrir e patrulhar o Estreito de Ormuz.
A expectativa é que Trump volte a pressionar pelo aumento dos investimentos em defesa. Na cúpula do ano passado, os membros da Otan chegaram a um acordo para elevar esse financiamento para 5% do Produto Interno Bruto (PIB), sendo uma parte destinada à defesa tradicional e outra à infraestrutura e capacidades relacionadas. Mas, segundo Matt Whitaker, embaixador dos Estados Unidos na Otan, muitos aliados ainda estão atrasados nesse compromisso. Na visão americana, a relação dentro da aliança não é equilibrada e a presença do contingente militar dos Estados Unidos na Europa também deve entrar nas discussões.
Trump tem mencionado repetidamente a possibilidade de deixar a Otan. O governo dos EUA também fala em uma profunda transformação da aliança. O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, mencionou uma "OTAN 3.0", um termo que alimenta questionamentos nas capitais europeias.
Em uma tentativa de preparar o terreno para a cúpula e reduzir as tensões, o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, visitou a Casa Branca. Na ocasião, afirmou que a Otan está entrando em uma nova fase, centrada em uma maior responsabilidade europeia, mas mantendo o engajamento dos Estados Unidos.
Over the next two days, 32 #NATO Allies, along with partners from Ukraine, the EU, the Indo-Pacific and the Gulf will gather here in Ankara to ensure that NATO continues to deliver
Allies have already shown that they're stepping up in a big way.
We are stronger together, in… pic.twitter.com/yEZlWVbuhh
— Mark Rutte (@SecGenNATO) July 6, 2026
Crise inesperada entre Trump e Meloni
Outro ponto de atenção nos bastidores da cúpula será o encontro entre Donald Trump e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni. Até pouco tempo atrás, os dois líderes eram considerados próximos por causa da semelhança ideológica, e Meloni era vista como uma das principais interlocutoras europeias do governo republicano. Mas a relação se deteriorou após a decisão da Itália de negar aos Estados Unidos o uso da base aérea na Sicília como apoio durante a guerra com o Irã.
Trump afirmou que Meloni tem baixa popularidade na Itália por ter recusado ajudar os Estados Unidos e chegou a dizer que a primeira-ministra teria implorado por uma foto ao lado dele.
Meloni respondeu dizendo que esses ataques eram "constantes e gratuitos" e afirmou que sua proximidade com Trump certamente não ajudou sua imagem política.
Uma pesquisa realizada em abril mostrou que 35% dos italianos tinham uma visão favorável da primeira-ministra, enquanto 57% tinham uma visão negativa.
O encontro em Ancara será o primeiro entre os dois líderes desde o início da troca pública de críticas.
Guerra com o Irã
A posição de Trump é conhecida: o presidente americano queria mais apoio dos parceiros durante o conflito. Já a maioria dos países europeus avalia que Washington tentou arrastar a aliança para uma guerra que não era de interesse dos demais membros e que ainda provocou impactos econômicos globais com a alta do preço do petróleo.
Por enquanto, o cessar-fogo foi restabelecido e o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz será gradualmente retomado. O objetivo dos aliados agora busca transformar essa trégua temporária em um acordo permanente, evitando uma nova crise energética, além de debater uma estratégia para garantir a segurança da passagem pelo estreito.
Trump, por outro lado, afirmou que pretende chegar a um acordo com o Irã, mas voltou a ameaçar uma ação militar ao dizer que, caso isso não aconteça, os Estados Unidos "teriam que terminar o trabalho".
Ucrânia continua como um dos principais desafios
A guerra na Ucrânia também estará no centro das discussões da cúpula. Existe um grupo, principalmente formado por países europeus, que pretende manter o apoio financeiro, político e logístico à Ucrânia pelo tempo que for necessário.
Trump, no entanto, mantém como prioridade encerrar rapidamente o conflito. O presidente americano deve pressionar por um acordo durante o encontro bilateral que terá com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, em Ancara.
Nesta semana, Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, também concordaram em conversar por telefone, embora a data da ligação ainda não tenha sido definida.
O presidente americano afirmou recentemente que uma solução para a guerra está mais próxima do que muitos imaginam, mas não apresentou detalhes.
A expectativa é que a busca por um acordo para o conflito continue sendo um dos principais pontos de tensão entre Washington e os aliados europeus.
Como país anfitrião da cúpula, a Turquia pretende usar o evento para reiterar sua importância estratégica. Com o segundo maior exército da Otan, depois do dos Estados Unidos, Ancara ocupa um lugar central na estrutura militar da aliança. Sua posição geográfica, na encruzilhada da Europa, do Oriente Médio e do Mar Negro, a torna um ator indispensável.
O presidente Recep Tayyip Erdoğan vem buscando um delicado equilíbrio há vários anos. Seu país fornece apoio militar à Ucrânia, ao mesmo tempo que mantém um diálogo estreito com a Rússia, com quem nunca rompeu relações diplomáticas.
Essa capacidade de dialogar com ambos os lados permite que o país mantenha uma influência significativa em importantes questões internacionais. Trump também mantém uma relação de trabalho relativamente tranquila com o presidente turco, o que pode facilitar certas trocas de informações durante a cúpula.