Streamers que exibiram morte de colega em live são julgados na França

O julgamento dos streamers Owen Cenazandotti, conhecido como Naruto, e Safine Hamadi por violência praticada em grupo e incitação ao ódio ou à violência começou nesta segunda-feira (6) em Nice, no sul da França. Os dois administravam um canal online que transmitiu ao vivo a morte de um de seus colegas, em agosto do ano passado. O caso provocou comoção no país e alimentou o debate sobre os excessos das plataformas de streaming.

6 jul 2026 - 14h43

A audiência teve início no começo da tarde no tribunal criminal de Nice, com os dois réus presentes e acompanhados por dezenas de familiares. O julgamento, porém, não se concentrará na morte de Raphaël Graven, de 46 anos, conhecido como Jean Pormanove, uma vez que a autópsia concluiu que não houve intervenção de terceiros.

Naruto, de 27 anos, e Safine, de 24, proprietários do canal Lokal, respondem por acusações de violência praticada em grupo, abuso de pessoa vulnerável, divulgação de imagens violentas e incitação ao ódio ou à violência. As acusações dizem respeito ao tratamento dispensado a Graven e a outras duas pessoas nos meses que antecederam sua morte.

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O caso veio à tona no fim de 2024, quando o site Mediapart revelou a existência de vídeos violentos no canal dos dois streamers, transmitidos a partir de Contes, cidade próxima a Nice, pela plataforma australiana Kick. A Justiça abriu uma investigação após a divulgação de imagens que mostravam Graven sendo insultado, agredido, tendo os cabelos puxados, sendo ameaçado e até atingido por disparos de paintball sem qualquer proteção durante transmissões ao vivo. O canal reúne quase 200 mil inscritos.

Nos vídeos, outra pessoa, visivelmente portadora de deficiência, Stéphane G., conhecido pelo apelido de Coudoux, também aparecia como alvo de agressões. As imagens mostram ainda um menor sendo arremessado sobre Graven durante uma luta simulada. Ambos figuram como vítimas no processo.

Naruto e Safine chegaram a ser detidos em janeiro de 2025. No entanto, assim como as pessoas apontadas como vítimas, os streamers afirmaram que a violência era encenada para atrair audiência e incentivar contribuições financeiras dos espectadores, cuja receita seria posteriormente dividida entre os participantes. Todos acabaram liberados.

Segundo a Promotoria de Nice, os vídeos eram altamente lucrativos: entre 2021 e 2025, Graven recebeu pelo menos € 140 mil (cerca de R$ 826 mil) de diversas plataformas. No caso de Naruto, o valor chegou a quase € 460 mil (aproximadamente R$ 2,7 milhões) entre 2022 e 2025. Já Safine recebeu mais de € 200 mil (cerca de R$ 1,18 milhão) entre 2021 e 2025.

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JP (esquerda) era constantemente submetido a humilhações por parte de seus colegas streamers, como Naruto (direita).
JP (esquerda) era constantemente submetido a humilhações por parte de seus colegas streamers, como Naruto (direita).
Foto: RFI

Morte reacende caso

As investigações continuaram por oito meses. Durante esse período, Naruto, Safine, Jean Pormanove e Coudoux continuaram realizando transmissões no canal Lokal, na plataforma Kick. A iniciativa, porém, chegou ao fim após um episódio trágico.

Na noite de 17 de agosto de 2025, Jean Pormanove morreu enquanto dormia durante uma transmissão ao vivo, após 12 dias consecutivos de exibição de cenas de violência e humilhação.

Uma investigação foi aberta para determinar as causas da morte. A autópsia, realizada poucos dias depois, não identificou lesões traumáticas internas ou externas, especialmente no rosto ou no crânio, que pudessem explicar o óbito. De acordo com os peritos, os resultados afastaram a hipótese de participação de terceiros. Por esse motivo, Naruto, Safine e as demais pessoas presentes no local não foram processados pela morte.

A repercussão do caso, no entanto, deu novo impulso à outra investigação conduzida pela Promotoria de Nice. Naruto e Safine foram novamente detidos em 27 de janeiro e formalmente colocados sob investigação pouco depois.

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Familiares dos streamers afirmaram que Graven, que tinha saúde frágil e vivia de trabalhos informais após anos de serviço no Exército, estava vivendo "a melhor fase de sua vida" ao lado dos dois jovens, a quem chamava de "irmãos mais novos".

Por outro lado, um militar aposentado que foi amigo de Graven o descreveu como uma pessoa "ingênua" e afirmou acreditar que ele estava sendo "manipulado".

Influenciadores do canal que transmitiu a morte do streamer francês posam ao lado da mãe de Graven durante o funeral, em Nice, em 27 de agosto de 2025.
Foto: RFI

Paralelamente ao processo em Nice, uma investigação sobre a plataforma Kick está em andamento em Paris para apurar se a empresa remunerava os streamers e quais medidas adotou para prevenir abusos após a morte de Graven. No fim de janeiro, foram expedidos mandados para que os administradores da plataforma australiana fossem interrogados.

Após a morte de Pormanove, a Kick baniu o canal Lokal, administrado por Naruto e Safine. Em setembro, porém, Gwen Cenazandotti, irmão mais novo de Naruto, retomou as transmissões com antigos participantes frequentes do canal, a partir do mesmo endereço em Contes, desta vez por meio da plataforma Twitch.

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Em trechos divulgados pelo Mediapart, é possível ver os participantes trocando insultos. Em outros momentos, com a câmera desligada, são ouvidos sons de agressões e risadas. Diante dos novos elementos, o Ministério Público de Nice abriu outra investigação. Equipamentos de informática foram apreendidos e o local passou a ser alvo de medidas restritivas determinadas pelas autoridades.

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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