Após saques a mais de 3 mil lojas durante protestos contra o custo de vida, o governo francês exigiu a retirada imediata de anúncios de produtos roubados em plataformas online como Vinted, eBay e Amazon. As ofertas suspeitas de mercadorias novas a preços irrisórios motivaram a convocação de uma reunião emergencial entre ministérios e gigantes digitais. Líderes políticos pressionam por cooperação tecnológica para identificar os perfis envolvidos e barrar a revenda ilegal.
Os anúncios suspeitos começaram a ser postados desde domingo (18) e chamaram a atenção. Entre as ofertas, bolsas da Sephora cheias de produtos novos vendidos a granel, itens de maquiagem da Chanel oferecidos por preços muito abaixo do mercado. Roubados ou não, anúncios similares se multiplicaram nos sites de revenda entre particulares após os saques a estabelecimentos comerciais ocorridos no sábado e domingo, durante os protestos contra a alta do custo de vida.
Durante o fim de semana, mais de 3.000 estabelecimentos comerciais foram invadidos ou depredados em toda a França. Muitos deles tiveram seus estoques roubados.
Os anúncios suspeitos oferecendo produtos novos, ainda embalados e de categorias variadas, começaram a ser denunciados em diversas publicações nas redes sociais, acionando o alerta no governo.
"Artigos saqueados neste fim de semana" em várias regiões da França "estão sendo colocados à venda em algumas plataformas", afirmou a ministra delegada para o Digital, Anne Le Hénanff, na rede social X.
Ela acrescentou esperar a retirada "sem demora" dos anúncios em questão.
As plataformas foram convocadas para uma reunião nesta segunda-feira às 19h (pelo horário local, 14h em Brasília) com o ministro do Comércio, Serge Papin. Representantes dos ministérios do Interior e da Justiça também participam da discussão que contará com a presença de dirigentes da Vinted, Amazon, eBay, Leboncoin, Meta e TikTok.
Tolerância zero
Procurada pela AFP, a Vinted garantiu adotar uma política de "tolerância zero" para esse tipo de situação.
"Desde este fim de semana, nossas equipes agiram imediatamente para identificar e remover anúncios de bens roubados. Também reforçamos o monitoramento de anúncios suspeitos", informou a empresa lituana, sem detalhar a dimensão do fenômeno.
A plataforma acrescentou que, em caso de violação de suas regras, toma medidas contra as contas envolvidas. A punição pode chegar ao banimento definitivo. A Vinted afirmou ainda colaborar "ativamente com as forças de segurança e as autoridades francesas".
Já o eBay declarou que, "neste momento", não está em condições de confirmar um aumento de anúncios possivelmente relacionados aos saques ocorridos durante o fim de semana. O site de leilões online informou contar com uma equipe especializada que utiliza ferramentas tecnológicas e análise manual para detectar possíveis fraudes, além de levar em consideração denúncias feitas por usuários. A empresa acrescentou que disponibiliza às autoridades um portal específico para facilitar solicitações de investigação.
O Leboncoin afirmou que "100% dos anúncios publicados" na plataforma passam por controles automatizados antes de serem postados e que a empresa também mantém uma equipe dedicada à moderação. "Até o momento, não dispomos de dados consolidados que permitam estabelecer um aumento no número de anúncios irregulares ou uma variação de preços diretamente ligada aos acontecimentos de 17 e 18 de outubro", informou a plataforma, ressaltando, contudo, estar "particularmente vigilante".
Reações políticas
O presidente do partido de extrema direita Reunião Nacional (RN), Jordan Bardella, criticou duramente a situação. "Os franceses não tolerarão que delinquentes enriqueçam às custas da comunidade nacional com os frutos de seus saques", declarou. Bardella defendeu uma cooperação mais estreita entre o Estado e as plataformas para "identificar os perfis que tentam revender mercadorias roubadas".
O candidato do partido governista Renaissance à Presidência da República, Gabriel Attal, fez um apelo semelhante. "Quando vemos jovens que se exibem nas redes sociais ou em plataformas de venda online com bens roubados para revendê-los, devemos ser capazes de identificar parte dessas pessoas", afirmou à rádio RTL.
"Há itens furtados, incluindo equipamentos de informática, que, na minha opinião, podem ser geolocalizados. Além disso, existem anúncios publicados online e um grande número de vídeos postados nas redes sociais", acrescentou.
Com AFP