"Do ponto de vista da produção, eu acredito que é positivo. Claro, é sempre um marco na história de um festival que tem mais de 50 anos, mas, se pensarmos na evolução da sociedade, vejo como algo muito positivo o festival ter essa coragem", afirma Luciana Falcón, coordenadora da Bienal de Quadrinhos de Curitiba.
"Enquanto sociedade, a gente ganha", acredita. "Nesse aspecto de o festival estar se repensando e de não passar pano para nenhum tipo de abuso, enfim, tudo isso que envolveu as causas do cancelamento, eu vejo de forma positiva."
O anúncio do cancelamento oficial da edição de 2026 do FIBD foi feito em 1º de dezembro pela sociedade organizadora 9e Art+. A decisão, inédita, ocorreu após semanas de incerteza sobre a realização da 53ª edição, programada para acontecer entre 29 de janeiro e 1º de fevereiro. O cancelamento veio na sequência de um boicote de autores, incluindo a vencedora do Grande Prêmio de Quadrinhos de 2025, Anouk Ricard, que criticaram a opacidade e a crescente comercialização do festival.
Revelações publicadas pelo jornal L'Humanité apontaram ainda que a 9e Art+ teria demitido uma funcionária que registrou uma denúncia de estupro ocorrida em 2024, o que gerou forte reação no meio cultural.
Surpresa
Luciana Falcón disse à RFI que foi "pega de surpresa" ao saber do cancelamento pela imprensa.
"Já estávamos, inclusive, em articulação com a Embaixada do Brasil em Paris para levar uma nova programação nesta edição. Com o cancelamento, tivemos que recuar", relata. Luciana integra o programa Brasil em Quadrinhos, criado pelo Ministério das Relações Exteriores com o objetivo de promover os quadrinhos brasileiros no exterior.
Segundo ela, alguns artistas brasileiros, por iniciativa própria, já estavam com viagens programadas para o festival, não necessariamente para integrar a programação oficial, mas para acompanhar o evento.
A produtora cultural afirma que, agora, o objetivo é focar em outros festivais na França nesta temporada. "Angoulême é, obviamente, o principal festival, o que tem maior repercussão e visibilidade, mas já temos parcerias estabelecidas com outros festivais franceses. Essa nova configuração acaba abrindo também outras possibilidades", pondera.
Entre os eventos parceiros da Bienal de Quadrinhos de Curitiba estão o Lyon BD e o Quai des Bulles, de Saint-Malo.
O FIBD já premiou artistas brasileiros como Marcello Quintanilha, João Pinheiro e Sirlene Barbosa, fortalecendo a presença das narrativas brasileiras no circuito europeu. Em 2025, a HQ Como Pedra, de Luckas Iohanathan, foi selecionada para a programação oficial do festival.
Para manter viva a tradição do evento em Angoulême enquanto se aguarda o novo formato previsto para 2027, um festival alternativo e gratuito, batizado de "Grand Off", foi organizado às pressas na cidade. A iniciativa acontece a partir desta quinta-feira (29), durante as datas em que o FIBD seria realizado, com festas promovidas por autores e uma grande exposição que celebra os 40 anos da editora Delcourt, uma das líderes do setor na França.