A Fundação Cartier para a Arte Contemporânea abriu em outubro de 2025 um novo capítulo de sua história na capital francesa, dessa vez em frente ao Louvre, em um edifício reinventado pelo arquiteto Jean Nouvel. A mostra inaugural percorre quatro décadas de criação contemporânea a partir do acervo da instituição. Concebida como um diálogo entre arquitetura, cidade e memória artística, a mostra revisita o papel da Fundação na trajetória de inúmeros criadores, entre eles o francês Jean-Michel Othoniel, para quem a exposição representa "um pouco da própria juventude" e o início de um vínculo decisivo com o mundo da arte.
"Essa exposição é muito emocionante para mim. Ela representa um pouco da minha juventude, da minha formação, é quem eu sou", relatou à RFI. "Tive a sorte de iniciar um diálogo com a fundação em 1988, com Marie-Claude Beaud, que me ofereceu minha primeira residência artística. Depois disso, a instituição continuou me acompanhando, adquiriu obras de diferentes períodos do meu trabalho, inclusive da época em que participei da Documenta. Em 2004, realizamos uma grande exposição, minha primeira individual em Paris, que me tornou conhecido pelo público dos museus parisienses."
O espaço projetado por Jean Nouvel aposta na transparência e na circulação livre. Cinco plataformas ajustáveis permitem acomodar obras monumentais ou intimistas, enquanto volumes tridimensionais e pontos de vista de 360 graus oferecem uma experiência inédita de observação e circulação. "Jean Nouvel desconstruiu a linearidade da história da arte", explica Béatrice Grenier, diretora de programação da instituição. "Isso nos permite trabalhar com artistas e propor uma nova narrativa da história da arte, conectando o interior da Fundação à cidade e ao patrimônio histórico que nos rodeia."
Entre os artistas presentes estão nomes internacionais como Olga de Amaral (Colômbia), Sally Gabori (Austrália), Chéri Samba (República Democrática do Congo), Damien Hirst (Reino Unido) e Joan Mitchell (Estados Unidos).
"O objetivo era traçar um retrato da Fundação Cartier para a Arte Contemporânea em seu novo endereço, nas duas praças do Palais-Royal, em pleno coração de Paris, em frente ao Louvre e também diante de uma das mais antigas praças públicas da cidade, a Praça do Palais-Royal", destaca Garnier, que é co-curadora da exposição inaugural da nova Fundação Cartier. "A questão era justamente esta: como fazer isso? Como apresentar, ao mesmo tempo, as linhas estruturantes de uma coleção construída ao longo da programação da Fundação nos últimos 40 anos e, ao mesmo tempo, sugerir os temas que a Fundação Cartier pretende continuar defendendo no futuro de sua programação?", sinalizou à RFI.
Desconstruir a linearidade da história da arte
Grenier detalha a opção estética no design do novo espaço. "O arquiteto Jean Nouvel refletiu profundamente sobre essa questão. Ele é o autor do Instituto do Mundo Árabe, [do antigo prédio] da Fundação Cartier no boulevard Raspail, inaugurado em 1994, e também concebeu o Museu do Quai Branly, além do Louvre de Abu Dhabi. Este último se insere, de certa forma, em um percurso de reflexão sobre a evolução da museografia", afirmou.
"O percurso da mostra é fundamental porque Nouvel propôs um plano circular, no qual diferentes objetos, de distintas civilizações, são organizados em uma mesma linha do tempo. O que ele faz com esse edifício é justamente desconstruir a linearidade da história da arte", sublinhou Grenier. "Esse princípio aparece claramente no novo prédio da Fundação Cartier. Em vez de um espaço bidimensional, organizado por uma sucessão linear de paredes expositivas, temos volumes. Isso permite conceber exposições em espaços que oferecem pontos de vista de 360 graus sobre as obras e sobre a própria exposição."
A mudança para um endereço central permite à Fundação Cartier aproveitar o fluxo de visitantes do Louvre e se integrar a um eixo cultural estratégico da cidade, que inclui também a Comédie-Française, o Museu de Artes Decorativas e a Bourse de Commerce, onde fica a coleção privada de François Pinault. A Fundação possui hoje cerca de 4.500 obras, e a exposição rotativa apresenta aproximadamente 600 trabalhos.
A "Exposição Geral" fica em cartaz na nova sede da Fundação Cartier até 23 de agosto de 2026.