Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão
As conversas, realizadas em Roma, começaram na terça-feira (4) e têm sido descritas como bastante produtivas. No entanto, a reunião de quarta-feira (5) foi encerrada mais cedo em meio a novos ataques israelenses no Líbano. Israel ordenou que moradores deixassem a cidade de Mansouri, no sul do país, antes das ofensivas na região. Segundo o governo libanês, uma pessoa morreu e outras 12 ficaram feridas.
Israel e o Hezbollah estão em trégua desde 27 de junho, mas o acordo vem sendo violado pelos dois lados. Mesmo assim, as negociações continuam avançando e estão divididas em três eixos principais: o político, o militar e o das questões de fronteira.
O principal impasse continua sendo o desarmamento do Hezbollah, considerado um ponto essencial por Israel. No entanto, segundo fontes ouvidas pela imprensa italiana, pela primeira vez a delegação israelense recuou da exigência de que esse tema fosse definido antes dos demais pontos da negociação.
O foco dos dois primeiros dias tem sido a discussão dos aspectos técnicos das chamadas zonas-piloto, que devem ser criadas no sul do Líbano como um teste do novo modelo de segurança. A proposta é que essas áreas passem gradativamente ao controle do Exército libanês, à medida que Israel retira suas tropas. Se o modelo funcionar, ele poderá ser ampliado para todo o sul do país.
Hoje, os detalhes dessas primeiras zonas-piloto devem voltar à mesa de negociação. Também está sendo discutida a possibilidade de ampliar a área prevista inicialmente, embora ainda não haja qualquer aprovação. Além disso, a imprensa italiana destaca que o Líbano deve tentar colocar em pauta a possibilidade de libertação de cidadãos libaneses detidos por Israel, a maioria deles combatentes do Hezbollah.
Conversas em Roma fortalecem imagem do governo italiano
As cinco primeiras rodadas de negociações ocorreram nos Estados Unidos. Agora, pela segunda vez, as conversas estão sendo realizadas na Itália. Embora aconteçam em Roma, as reuniões são realizadas na Embaixada dos Estados Unidos, já que Washington continua sendo o mediador das negociações.
A Itália, porém, é vista como um local mais neutro, devido à relação próxima entre os Estados Unidos e Israel. Apesar de não participar diretamente das conversas, o governo italiano tem aproveitado o fato de Roma sediar as reuniões para reforçar a imagem do país como um ator importante na busca pela paz no Oriente Médio.
Na primeira vez em que as negociações foram realizadas na capital italiana, em julho, o partido da primeira-ministra Giorgia Meloni, o Fratelli d'Italia, fez publicações nas redes sociais com a frase: "Itália: ponto de encontro da paz e do diálogo".
Em abril, a própria Meloni foi a primeira chefe de Estado a fazer uma visita a países do Golfo Pérsico em meio à guerra entre Irã e Estados Unidos. Essa estratégia faz parte de um esforço do governo para fortalecer sua imagem como influente nas questões internacionais, de olho também nas eleições parlamentares previstas para o ano que vem.
O ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, também tem buscado associar o próprio nome ao processo. Na véspera do início das negociações, ele conversou por telefone com os chefes das duas delegações e destacou o papel da Itália no acompanhamento do diálogo. Tajani afirmou que as negociações acontecem em Roma porque a Itália mantém boas relações com todos os países envolvidos na crise.
Na prática, porém, o governo italiano vem demonstrando uma relação um pouco mais próxima com o Líbano recentemente. Em abril, a Itália suspendeu a renovação de um acordo de cooperação na área da Defesa com Israel, o que desagradou Tel Aviv. Além disso, Tajani criticou ataques israelenses ao Líbano, o que levou Israel a convocar o embaixador italiano.
De qualquer forma, o governo italiano espera que um eventual acordo firmado em Roma fortaleça a sua imagem como um dos responsáveis, ainda que indiretamente, a promover a paz.
Fim da UNIFIL coloca nova missão internacional em debate
Outro tema ligado às negociações é o futuro da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil). O mandato da missão está previsto para terminar em 31 de dezembro e, a partir de janeiro, a retirada das tropas de paz deve ocorrer de forma gradual para que o governo libanês assuma o controle da região.
Segundo a imprensa italiana, o próprio governo libanês defenderia que uma futura missão internacional seja liderada pela Itália, em substituição à Unifil. Essa nova força também poderia ajudar a implementar as zonas-piloto que estão sendo negociadas atualmente com Israel.
A Itália, por sua vez, tem tentado liderar as discussões sobre alternativas para o fim da missão de paz. Em junho, durante a cúpula bilateral entre Giorgia Meloni e o presidente francês Emmanuel Macron, foi apresentada a proposta de uma nova missão internacional para garantir a estabilidade da região.
O protagonismo italiano não é por acaso. O país é hoje o segundo maior contribuinte da Unifil em número de militares, atrás apenas da Indonésia. Segundo os dados mais recentes, divulgados em julho, a Itália mantém 740 militares na missão e comanda o setor oeste da operação. Além disso, participa da Unifil desde a criação da força, em 1978, com o objetivo de ajudar a manter a estabilidade no sul do Líbano.
Por isso, o governo italiano enxerga as negociações em Roma como uma oportunidade não apenas de contribuir para um acordo, mas também de reforçar o papel da Itália como um ator cada vez mais relevante na segurança e na diplomacia internacionais.
Apesar das conversas, ataques continuam no Líbano
Israel intensificou os bombardeios no sul do Líbano durante a noite, com ataques na região de Tiro. Um ataque com drones contra a localidade de Bourj al-Chamali deixou quatro feridos, segundo a Agência Nacional de Informação (ANI). A aviação israelense também atingiu Mansouri, cerca de dez quilômetros mais ao sul, após uma ordem de evacuação emitida aos moradores. Na véspera, um bombardeio israelense em Tebnine matou uma pessoa e feriu outras 12, de acordo com o Ministério da Saúde libanês.
A escalada ocorre após o anúncio, na manhã desta quinta-feira, da morte de dois soldados israelenses no sul do Líbano, as primeiras baixas registradas pelo Exército israelense nessa região em mais de um mês. O Hezbollah não reagiu de imediato.
Desde o início da guerra, mais de 4.300 pessoas morreram no Líbano, enquanto 38 soldados israelenses e um civil contratado perderam a vida.