A ameaça de Washington contra a França ocorre no mesmo momento de outra decisão inédita envolvendo o Brasil. Nessa terça-feira (4), Washington retirou o visto da embaixadora brasileira no país, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Nos dois casos, a administração Trump utiliza instrumentos diplomáticos normalmente reservados a situações excepcionais para expressar seu descontentamento. As iniciativas revelam um endurecimento da política externa americana tanto em relação ao Brasil quanto à França, dois países que recentemente divergiram de Washington em temas políticos, eleitorais e multilaterais, destaca a imprensa francesa.
Segundo a reportagem publicada pelo Le Figaro, a ameaça de Trump de bloquear a nomeação do futuro embaixador francês em Washington abre uma nova crise diplomática entre a França e os Estados Unidos. Aurélien Lechevallier deveria assumir o cargo em setembro.
De acordo com o diário, o estopim foi uma mensagem publicada pela representação francesa em Genebra criticando a posição americana contra a renovação do mandato de Volker Türk, alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos. O texto francês afirmava que os Estados Unidos deixaram de ser um "farol dos direitos humanos" e hoje estariam isolados ao lado de países como Rússia, Coreia do Norte e Nicarágua.
Em resposta, o Departamento de Estado se recusou, por enquanto, a conceder o aval diplomático necessário para a posse do novo embaixador francês. Autoridades americanas acusam a França de adotar uma retórica "irresponsável", "desrespeitosa" e cada vez mais "arrogante".
O Le Figaro destaca que a tensão não se limita a esse episódio. Nos últimos meses, Paris e Washington já trocaram críticas sobre direitos humanos, interferência em processos eleitorais europeus, tarifas comerciais, a questão da Groenlândia e a segurança no Oriente Médio. A delegação americana chegou a abandonar uma reunião do Conselho de Segurança da ONU durante uma intervenção francesa, sinalizando o nível de irritação entre os dois governos.
Apesar da gravidade simbólica da ameaça, considerada inédita nas relações franco-americanas, diplomatas franceses ouvidos pelo jornal acreditam que, como em outras crises recentes, a disputa acabará sendo resolvida nos bastidores, preservando a cooperação estratégica entre os dois aliados históricos.
Crise entre Brasil e EUA
Os jornais Le Monde e Le Figaro abordam a crise desencadeada pela retirada do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti. Segundo os dois jornais, a medida é considerada rara na diplomacia e representa uma nova escalada das tensões entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva.
De acordo com as reportagens, os Estados Unidos justificam a decisão pela demora do Brasil em conceder o aval diplomático ao novo embaixador americano em Brasília, Daniel Perez, indicado por Trump. Washington afirmou que a revogação do visto poderá ser revertida caso o governo brasileiro aprove a nomeação.
O governo Lula reagiu duramente, classificando a iniciativa como parte de uma "escalada deliberada de medidas hostis" contra o Brasil, motivada por razões ideológicas. O Le Monde também lembra que Brasília recentemente negou visto a autoridades americanas que pretendiam se reunir com representantes da Justiça Eleitoral brasileira, alegando risco de instrumentalização política.
Os jornais destacam ainda que a crise ocorre em um contexto mais amplo de deterioração das relações bilaterais. Em julho, o governo Trump impôs novas tarifas sobre produtos brasileiros e tem demonstrado apoio político ao campo conservador brasileiro. Embora o visto da embaixadora tenha sido revogado, Washington enfatiza que ela não foi expulsa dos Estados Unidos e pode continuar no país enquanto se busca uma solução diplomática para o impasse.