Apesar das críticas por viajar durante protestos internos, Emmanuel Macron garantiu no Golfo acordos para o fornecimento de 295 mil toneladas de diesel da Arábia Saudita, Emirados Árabes e Bahrein, cobrindo 10% do consumo francês e visando conter a alta de preços. Acompanhado pelo CEO da TotalEnergies, o presidente francês também negociou rotas marítimas para evitar o estreito de Ormuz, combustíveis com o Kuwait e acordos de defesa, apesar da instabilidade com as tensões entre EUA e Irã.
O presidente francês obteve compromissos de cerca de 100 mil toneladas de diesel por mês dos Emirados Árabes Unidos e outras 100 mil toneladas do Bahrein, onde foi recebido pelo rei Hamad bin Issa Al Khalifa.
"Estamos garantindo quantidades para um abastecimento direto e imediato, com um objetivo: que nossos compatriotas não fiquem sem nada e que façamos os preços baixarem", afirmou o Palácio do Eliseu.
O novo abastecimento irá se somar às 95 mil toneladas adicionais já garantidas junto à Arábia Saudita para outubro e novembro, e que Paris espera manter. Assim, a França dispõe agora de compromissos de fornecimento de 295 mil toneladas, o equivalente a pouco mais de 10% de seu consumo, segundo um conselheiro presidencial.
O volume corresponde a cerca de 2,25 milhões de barris e a 30% das importações mensais de produtos refinados. O mercado de diesel está sob pressão na França, um grande importador, onde o combustível registra a maior alta de preços nos postos.
O Kuwait, por sua vez, assumiu "compromissos muito claros" de fornecimento de diesel e querosene para os territórios franceses no oceano Índico, Mayotte e Reunião, por meio de Omã. A rota permite contornar o estreito de Ormuz, cujo tráfego está fortemente prejudicado desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, no fim de fevereiro.
"Tranquilizar os franceses"
A mais de 4 mil quilômetros da França, Macron, criticado por ter deixado o país em meio à crise provocada pelos episódios de violência e saques registrados em várias regiões durante manifestações pacíficas de estudantes e "coletes amarelos", procurou justificar sua viagem.
"Garantimos quantidades bastante significativas", afirmou um de seus conselheiros, sem conseguir estimar, por enquanto, o impacto dessas medidas sobre os preços, além dos estoques estratégicos que já foram liberados na França.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou em 12 de outubro a venda a preço de custo de 10 milhões de barris de diesel provenientes dessas reservas, com o objetivo de reduzir os preços nos postos entre 12 e 18 centavos de euro por litro a partir de 1º de novembro.
"Estamos principalmente em uma missão de garantir o abastecimento porque existe um risco. Temos um déficit de diesel porque somos um grande importador", afirmou Patrick Pouyanné, CEO da TotalEnergies, que acompanha o presidente na viagem.
"Isso vai tranquilizar os franceses. Não vamos ficar sem diesel em fevereiro", durante o inverno, acrescentou o executivo, cujo grupo deverá fechar os contratos com os operadores locais.
Especialistas, porém, consideram incerto o impacto dessas medidas, já que os países da região continuam sob ameaça de novos ataques iranianos caso as hostilidades entre Estados Unidos e Irã sejam retomadas, o que poderia prejudicar as exportações.
Contornar o estreito de Ormuz
"Há uma grande cautela por parte de nossos parceiros, que estão todos expostos de uma maneira ou de outra", reconheceu o Palácio do Eliseu, mencionando também o risco de a região permanecer por muito tempo em uma situação de "nem paz, nem guerra".
Também estão em andamento discussões com os países do Golfo para reduzir os custos do seguro marítimo e permitir que as empresas transportem maiores volumes de hidrocarbonetos pelo estreito de Ormuz a um custo menor, segundo o Eliseu.
Macron também discutiu com seus interlocutores, entre eles o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed, meios de "proteger" as rotas marítimas e encontrar caminhos alternativos.
A construção de oleodutos e gasodutos para o oceano Índico, contornando Ormuz, e para o Mediterrâneo, passando pelo Egito e com conexão ao porto de Alexandria, também foi discutida, segundo a Presidência francesa.
Depois do Kuwait, dos Emirados Árabes Unidos e do Bahrein, Macron seguirá para o Catar, onde fará uma visita de Estado. Nenhum presidente francês visitava o Kuwait e o Bahrein desde Nicolas Sarkozy, em 2009.
Durante a viagem, também foram firmados acordos de defesa, entre eles um com os Emirados Árabes Unidos para o "compartilhamento de custos" do caça Rafale F5 para a frota do país. As discussões também envolveram possíveis vendas de armamentos.
Com AFP