Com 156 empresas na SIAL Paris, o Brasil projeta movimentar US$ 3,5 bilhões em negócios e ampliar suas exportações. O país exibe grande diversidade produtiva no evento bienal, reunindo gigantes dos setores de carne bovina e ovos processados até dez cooperativas da agricultura familiar, que estreiam promovendo produtos orgânicos e sustentáveis da biodiversidade nacional. A meta é consolidar novos mercados, estabelecer parcerias internacionais estratégicas e fortalecer a presença na Europa.
Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris
Ao todo, 156 empresas brasileiras ocupam mais de 2,5 mil metros quadrados de estandes para apresentar seus produtos a compradores do mundo inteiro. A participação reflete a diversidade do setor, reunindo desde grandes exportadores de proteínas animais até pequenas cooperativas da agricultura familiar.
Entre as empresas presentes está a Netto Foods, de São Paulo, especializada em ovos processados. Com mais de 25 anos de mercado, a empresa destina atualmente 90% da produção ao Brasil, mas já está presente em 15 países e quer ampliar sua participação no mercado internacional.
"Nós processamos atualmente mais de 5 milhões de ovos por dia em três plantas produtivas no Brasil", explica Fausto Clemente, gestor de negócios da empresa. "Nós produzimos o ovo líquido processado, o ovo líquido em pó e você também encontra o ovo separado, ou seja, a clara em pó, a clara líquida, a gema em pó e a gema líquida, que são aplicáveis para os diversos segmentos onde o mercado necessita", completa.
Segundo Clemente, entre as vantagens desse tipo de produto estão a segurança alimentar, a redução do desperdício e uma maior padronização na indústria. "Você tem alguns benefícios. A questão da segurança alimentar, que é o fator primordial, mas você consegue padronizar suas receitas. Então você consegue controlar os seus processos, controlar os seus custos e evitar desperdício", acrescenta.
A participação na SIAL também faz parte da estratégia da empresa para ganhar espaço na Europa. "O nosso plano é realmente estar aqui, olhar, ver o que está acontecendo. E o mais importante: construir o relacionamento com parceiros na União Europeia", afirma.
Carne brasileira busca ampliar presença internacional
As proteínas animais ocupam um lugar de destaque entre os produtos brasileiros apresentados em Paris. O setor de carne bovina participa da feira por meio do projeto Brazilian Beef, desenvolvido pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) em parceria com a ApexBrasil.
Segundo Roberto Perosa, presidente da ABIEC, a presença continuada em eventos internacionais é importante para consolidar mercados para o produto brasileiro.
"Faz 12 anos que a gente vem pra cá junto com a Apex, onde nós temos um projeto em parceria com a Apex que chama Brazilian Beef. A gente divulga a carne de boi no mundo inteiro. Em todos os continentes. E a gente exporta para 177 países. Então, por isso a importância da gente fazer essa promoção comercial contínua e continuar as vendas de carne bovina para o mundo."
Perosa também destaca o crescimento da capacidade produtiva do setor nos últimos anos. "Veja que há seis anos, em 2020, o Brasil abateu cerca de 30 milhões de animais e processou 30 milhões de bois nos frigoríficos e, no último ano, nós processamos 42,9 milhões, crescemos quase 50%. Isso mostra a capacidade da produção pecuária brasileira de aumentar a produção, mas também a capacidade da indústria de processar todo esse material", destaca Perosa.
Ao todo, a SIAL reúne 295 mil profissionais de aproximadamente 194 países. Importadores, distribuidores, varejistas, redes de supermercados, indústrias, restaurantes e hotéis circulam pela feira em busca de fornecedores, produtos e tendências para o mercado de alimentos e bebidas.
Para Laudemir Müller, presidente da ApexBrasil, a dimensão do evento oferece às empresas brasileiras uma oportunidade de estabelecer contatos que podem se transformar em contratos mesmo depois do encerramento da feira.
"Esperamos ter uma venda recorde em torno de 3,5 bilhões de dólares nesta feira, o que mostra a importância do Brasil e estamos muito satisfeitos não só com esse resultado que esperamos ter, mas também com o conhecimento, porque é sempre bom saber que o Brasil está aqui com consistência, que o Brasil chega cada vez com mais força e as nossas empresas, nossos produtores rurais, façam contatos e possam se engajar com compradores internacionais, porque às vezes o negócio não acontece na feira, mas acontece depois", analisa.
Agricultura familiar estreia na feira
Uma das novidades da participação brasileira nesta edição é a presença de dez cooperativas da agricultura familiar. Elas apresentam produtos ligados à biodiversidade brasileira, à sustentabilidade, ao comércio justo, à bioeconomia e ao desenvolvimento regional.
"Toda a indústria do agronegócio está aqui. Mas também estamos trazendo a agricultura familiar, os pequenos empreendimentos da agricultura familiar, e a forma de trazer isso é por meio das cooperativas. Porque o meio de um pequeno agricultor, de uma agricultora familiar chegar no mercado internacional é através da união", observa Laudemir Müller.
Um dos exemplos é a Unicafes, que representa 1.500 cooperativas brasileiras, reunindo cerca de 6 milhões de pessoas em diferentes regiões do Brasil. Na SIAL Paris, aproximadamente cem produtos orgânicos, entre eles mel, própolis, geleias e proteínas vegetais, integram essa vitrine.
Luciano Monteiro da Silva, conselheiro da entidade, afirma que a variedade comercializada pelas cooperativas é ainda maior.
"Hoje nós trabalhamos com quase 500 produtos diversos dos seis biomas brasileiros. Tudo focado na agroecologia, na produção orgânica, no cuidado com a sustentabilidade, com produção saudável. Embora respeitemos todas as exigências de mercado, que é ter qualidade, escala, compromisso, respeitando o produto na sua origem. Aquilo que eu não consumo, eu não vendo nem levo para ninguém", ensina.
Ele destaca ainda a diversidade de frutas cultivadas pelos produtores. "Hoje, no quintal produtivo, nos nossos sítios, nas nossas propriedades, nós temos aproximadamente 37 frutas diferentes, das quais 20 são exclusivas do Brasil. Como é o caso da mangaba, do açaí, do maracujá da caatinga, do pequi do cerrado, da siriguela, do umbu-cajá", cita.
Realizada a cada dois anos, a SIAL Paris aproxima empresas brasileiras de importadores, distribuidores e outros parceiros comerciais internacionais. Nesta edição, a expectativa brasileira é que os contatos iniciados nos corredores da feira continuem depois do evento e abram novos mercados para produtos que vão da carne bovina aos sabores menos conhecidos da biodiversidade nacional.
A próxima questão para o setor é o impacto do acordo entre Mercosul e União Europeia sobre esse comércio.