Guilherme Lemes e casado com a norte-americana Rachel Ann Leidig, de 36 anos, que está grávida de sete meses. Em conversa exclusiva com o Terra, a maquiadora relata a luta para conseguir a soltura do marido, que está preso há mais de 20 dias em 'condições terríveis', como define.
A vida da norte-americana Rachel Ann Leidig, de 36 anos, e do brasileiro Guilherme Lemes Cardoso e Silva, de 35, virou de cabeça para baixo há duas semanas. O artista visual, que é natural de Goiânia (GO), foi preso pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), no dia 11 de julho, após sair para buscar a filha Zahara, de 4 anos, na escola.
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“O sistema de imigração neste país está quebrado. Meu coração se parte por aqueles que estão detidos e não têm ninguém do lado de fora lutando e defendendo por eles. Sem apoio externo, é quase impossível para alguém lidar com o sistema de imigração e receber o devido processo legal, que todos merecem”, disse Rachel em conversa com o Terra.
O casal se conheceu em agosto de 2023 por meio de amigos em comum. Guilherme se formou em Direito no Brasil, mas trabalha como artista visual nos EUA desde 2016, enquanto Rachel atua como maquiadora.
Em fevereiro deste ano, ela descobriu que estava grávida e, em abril, eles oficializaram a união. Em maio, o casal se mudou para Sausalito, na Califórnia, mas Guilherme ainda estava dividindo o seu tempo entre a Califórnia e as Ilhas San Juan, em Washington, para poder ficar próximo da filha de 4 anos, cuja guarda é compartilhada com a ex-esposa.
O artista visual, no entanto, já estava se preparando para ficar de vez em Sausalito, tendo em vista que o nascimento do primeiro filho do casal está previsto para outubro.
“Estou preocupada com as consequências e com os danos psicológicos que isso pode causar à minha enteada Zahara. Estou preocupada com o meu filho, sabendo que ele sente toda a intensidade do meu estresse e da minha ansiedade. Estou tentando cuidar de mim e nutrir bem o meu bebê”, lamentou.
Denunciado pela ex-esposa
De acordo com Rachel, a ex-mulher de Guilherme ligou para a imigração para denunciar o brasileiro ao ICE. A maquiadora havia acabado de dar entrada no pedido de green card (visto permanente) do marido.
“Ela [a ex-esposa] sabe muito bem como o governo Trump está agindo e violando direitos constitucionais, é algo profundamente perturbador, egoísta, devastador e que coloca vidas em risco. É um abuso de privilégio”, declarou.
Desde que retornou à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump tem dificultado a entrada de estrangeiros no país e intensificado as ações da polícia de imigração. Em seis meses, o ICE deportou aproximadamente 150 mil pessoas, segundo a porta-voz do Departamento de Segurança Interna, Tricia McLaughlin. Segundo levantamento do The New York Times, são presos em média 1.200 imigrantes por dia, em meio a promessa do governo em prender e deportar 1 milhão de pessoas por ano.
Guilherme foi levado para um centro de detenção em Ferndale, em Washington, sob a justificativa de "suposta irregularidade em seu status migratório". Ele ficou preso por cerca de 38 horas com correntes nos tornozelos e pulsos antes de ser transferido para um centro de detenção em Tacoma, no mesmo Estado.
Durante esse período em Ferndale, Rachel contou que as condições "eram terríveis" e que ele estava dormindo no chão e vomitando por causa da comida que recebeu. “Ele me contou que precisa ser submisso aos agentes, senão é punido. Ele também disse que outro detento precisou amputar o dedo porque não estava recebendo cuidados médicos de uma infecção", afirmou
"Se os detentos não têm pessoas do lado de fora para ajudá-los, eles não têm dinheiro para comprar comida extra dentro da unidade e precisam economizar e racionar os alimentos entre as refeições. Isso é desumano, e muitas dessas pessoas não são criminosas e estão sendo tratadas como animais enjaulados", completou.
No dia 18 de julho, Rachel visitou Guilherme no centro de detenção em Tacoma. Ela teve problemas ao tentar falar com o marido: “Um agente que estava na recepção disse que não conseguia encontrar o formulário de autorização para a liberação. Expliquei que tinha vindo da Califórnia, que estou grávida de sete meses e não deveria estar viajando de avião nessa fase da gravidez, mas que precisava pegar os pertences do meu marido para poder mover o carro dele, que está nas Ilhas San Juan. Pedi para falar com o supervisor, mas ele se recusou.”
A maquiadora conseguiu conversar brevemente com o brasileiro e recebeu os pertences dele, com exceção do telefone. Segundo ela, o marido gravou o momento em que os agentes da imigração o detiveram e, por isso, seu telefone foi "extraviado".
O artista visual contou para a esposa que ele foi “encurralado” por 6 a 7 carros em uma estrada nas Ilhas San Juan, no caminho para buscar Zahara na escola. Ele pediu para ver o mandado de prisão após um agente do ICE o retirar do próprio carro, mas teve o pedido negado.
“Um agente mais corpulento o puxou para fora do carro, tomou o celular dele (pois o Gui estava gravando) e o empurrou contra o próprio carro para algemá-lo. O Gui contou que os outros agentes (todos mascarados) estavam atrás, rindo e fazendo piadas de que 'essa vez não iriam sair nas notícias'".
Ao questionar os agentes sobre o motivo da prisão, Guilherme recebeu informações contraditórias. “Ele informou aos agentes que possui formação em Direito no Brasil. Então, um agente entrou e disse que não encontraram o mandado, mas que o visto de trabalho dele estava vencido. Depois, outro agente entrou e disse que ele estava detido porque o visto de turismo havia expirado. Ou seja, o Gui foi alvo de muita desinformação”, explicou.
“O ICE e todos que trabalham com esse centro de detenção são completamente desorganizados. Cada interação com esse sistema parece uma tortura psicológica, como bater a cabeça contra a parede repetidamente”, continuou.
O que diz a imigração
No dia 22 de julho, a secretária Tricia McLaughlin, do Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS), respondeu à People que as acusações contra o ICE são “falsas”.
“Os fatos são que, na manhã de 11 de julho de 2025, o ICE conduziu uma operação de fiscalização direcionada para prender Lemes Cardoso E Silva, um imigrante ilegal do Brasil. Ele entrou nos EUA com um visto que permitia permanecer no país por no máximo seis meses. Ele ultrapassou esse prazo em quase oito anos. Durante uma abordagem de trânsito, os agentes do ICE identificaram Silva e informaram que havia um mandado de prisão contra ele por violações imigratórias. Silva foi preso sem uso de força ou comentários inadequados”, informou.
O Terra consultou André Bialski, advogado criminalista e sócio de Bialski Advogados, para entender o que o governo brasileiro pode fazer em casos como o de Guilherme.
"Nos casos de Guilherme e dos demais brasileiros presos pelo ICE, por se tratar de um procedimento judicial imigratório da Justiça americana há pouco que o Estado brasileiro possa fazer. A atuação do Brasil estará restrita às relações diplomáticas com os EUA e ao auxílio ao detido — por meio dos funcionários dos consulados e da embaixada, que poderão visitá-lo, orientá-lo sobre seus direitos e garantias fundamentais, comunicar-se com sua família etc., conforme assegurado pela Convenção de Viena sobre Relações Consulares”, afirmou.
Vaquinha
Amigos de Rachel e Guilherme organizaram uma vaquinha no GoFundMe para ajudar a cobrir os custos legais do processo do artista visual e para auxiliar na renda que o casal deixou de receber. Até esta terça-feira, 29, eles já arrecadaram mais de US$ 76.000 (cerca de R$ 425.000).
“Ele não é um criminoso, ele nunca foi um criminoso, e eles não se importam com quem estão prendendo. Estão simplesmente agarrando qualquer um. Estão despedaçando vidas e destruindo famílias”, disse.
Guilherme tem duas audiências marcadas para esta terça-feira, 29. “Esperamos que ele seja liberado mediante fiança, e estamos pedindo a mudança do local das audiências de Washington para San Francisco, Califórnia, para que ele possa voltar para casa comigo”, concluiu Rachel.
O Terra entrou em contato com o Itamaraty, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.