Segundo um relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), que cobre o período de novembro de 2024 a outubro de 2025, "o deslocamento de mais de 36 mil palestinos na Cisjordânia ocupada constitui uma expulsão em massa de uma magnitude sem precedentes".
O documento aponta que "os deslocamentos na Cisjordânia ocupada, que coincidem com o deslocamento em massa de palestinos em Gaza, parecem indicar uma política israelense coordenada de transferência forçada em larga escala" nos territórios ocupados, o que levanta "preocupações sobre uma possível limpeza étnica".
Em 19 de fevereiro, o Alto Comissariado já havia expressado o temor de uma "limpeza étnica" nos territórios palestinos ocupados, citando ações israelenses como "a intensificação dos ataques, a destruição sistemática de bairros inteiros, a recusa em fornecer ajuda humanitária e as transferências forçadas".
Novas unidades habitacionais
O relatório registra, no período analisado, "o avanço ou a aprovação, por parte das autoridades israelenses, de 36.973 unidades habitacionais em assentamentos de Jerusalém Oriental ocupada e de outras 27.200 no restante da Cisjordânia".
Mais de 500 mil israelenses vivem atualmente na Cisjordânia — sem contar Jerusalém Oriental — entre quase três milhões de palestinos, em assentamentos considerados ilegais pela ONU com base no direito internacional.
A violência no território palestino ocupado por Israel desde 1967 aumentou significativamente após o ataque do movimento islamista Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, que deflagrou a guerra na Faixa de Gaza. Essa escalada continuou mesmo após o cessar-fogo em vigor na Faixa desde 10 de outubro.
Violência
O ACNUDH relata 1.732 incidentes de violência cometidos por colonos, que resultaram em vítimas ou danos materiais, contra 1.400 registrados no período anterior, de novembro de 2023 a outubro de 2024.
"A violência praticada por colonos continuou de forma coordenada, estratégica e amplamente impune, com papel central das autoridades israelenses", afirma o relatório.
O ACNUDH ressalta que a "transferência ilegal" de palestinos "constitui crime de guerra" e que, "em determinadas circunstâncias", tais atos podem "configurar crime contra a humanidade".
O chefe do ACNUDH, o austríaco Volker Türk, apelou a Israel para "cessar imediata e completamente a criação e expansão de assentamentos, retirar todos os colonos e pôr fim à ocupação" dos territórios palestinos. Ele também exigiu que Israel "permita o retorno dos palestinos deslocados e acabe com todas as práticas de confisco de terras, expulsões forçadas e demolição de casas".
O relatório ainda destaca o risco maior de deslocamento enfrentado por milhares de palestinos de comunidades beduínas situadas ao nordeste de Jerusalém Oriental, devido ao avanço de projetos de colonização na região.
Com RFI e AFP