Dugongos, tartarugas marinhas, corais e manguezais: o golfo abriga uma fauna e flora marinhas de grande riqueza biológica, cujas espécies, algumas já frágeis, podem ser ameaçadas pelas bombas e pelo petróleo do conflito atual.
Cerca de 300 incidentes envolvendo riscos ambientais foram registrados desde o início da guerra pela ONG britânica Observatório de Conflitos e Meio Ambiente (CEOBS), incluindo ataques a petroleiros que criam riscos de marés negras.
Fator agravante: no golfo, o mar tem, em média, cerca de 50 metros de profundidade, é semifechado e conectado ao Oceano Índico apenas pelo Estreito de Ormuz, com uma renovação das águas muito lenta — entre dois e cinco anos —, o que limita a dispersão do petróleo ou de outros poluentes.
A região abriga a segunda maior população mundial de dugongos, também conhecidos como peixes-boi ou vacas marinhas, mamíferos marinhos herbívoros classificados como vulneráveis, com 5.000 a 7.500 indivíduos, além de cerca de outras dez espécies de mamíferos marinhos, incluindo baleias-jubarte e tubarões-baleia.
No total, mais de 2.000 espécies marinhas, que incluem mais de 500 peixes e cinco tartarugas — como a tartaruga-de-pente, classificada em perigo crítico de extinção —, são registradas nessas águas quentes. A elas se somam 100 espécies de corais, que, junto com os manguezais e os prados marinhos da região, formam zonas de reprodução e berçários essenciais para peixes e crustáceos.
Décadas de poluição
As dezenas de navios bloqueados no Golfo, carregando "cerca de 21 bilhões de litros de petróleo", constituem uma "bomba-relógio ecológica" para esses ecossistemas, já fragilizados pelo aquecimento global e pelo tráfego marítimo, alerta o Greenpeace.
"É um desastre ambiental anunciado", avalia Nina Noelle, do Greenpeace Alemanha.
Desde 1º de março, nove incidentes envolvendo petroleiros, incluindo ataques, foram reportados à agência de segurança marítima britânica UKMTO, dos quais oito foram posteriormente confirmados pela Organização Marítima Internacional (OMI). Outros três ataques foram reivindicados pelos Guardiões da Revolução iranianos, mas não foram confirmados por instâncias internacionais.
Em terra, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, classificou na segunda-feira como "ecocídio" os ataques israelenses a depósitos de petróleo em Teerã, denunciando "a contaminação dos solos e dos lençóis freáticos".
"As guerras das décadas de 1980 e 1990 mostram o quanto os ecossistemas do Golfo Pérsico estão expostos à poluição ligada aos conflitos, seja por danos causados a instalações petrolíferas em terra ou no mar, seja por derramamentos resultantes de ataques ao tráfego marítimo", explica à AFP Doug Weir, diretor do CEOBS.
A Guerra do Golfo de 1991 provocou um dos maiores derramamentos de petróleo ligados a um conflito armado. Foram necessárias décadas para sua recuperação: 11 milhões de barris de petróleo (1,75 bilhão de litros) foram derramados, contaminando 640 km de costas sauditas e matando mais de 30.000 aves marinhas, segundo vários estudos.
Poluição acústica
O impacto sobre os corais deve ser limitado, segundo John Burt, professor de biologia do Mubadala Arabian Center for Climate and Environmental Sciences. "O petróleo flutua, de modo que sua dispersão permanece na superfície e não interage realmente com os corais, exceto nas áreas mais rasas", explica.
"No entanto, o mesmo não pode ser dito sobre os sistemas entre-marés", como os pântanos salgados ou as planícies de lama, que margeiam o litoral e ficam expostos na maré baixa, onde os "efeitos de médio prazo" poderiam ser "significativos", afirma.
As aves marinhas são particularmente ameaçadas, pois os hidrocarbonetos destroem a impermeabilidade de suas penas, provocando hipotermia e afogamentos.
Sua migração também pode ser perturbada pelo ruído das explosões e pelas colunas de fumaça tóxica, já que a Península Arábica está no cruzamento de diversas rotas migratórias que ligam a Europa, a Ásia Central, a África e o sul da Ásia.
Por fim, "minas marinhas e outros engenhos explosivos podem causar perturbações acústicas que afetam mamíferos marinhos e outros animais", além de "danos por explosão a estruturas submarinas naturais, como os recifes", lembra Doug Weir.
Em 2003 e 2020, dois estudos publicados na Nature e na revista da Royal Society britânica estabeleceram uma relação entre o uso de sonares militares de média frequência e as baleias encalhadas.
com AFP