Clea Broadhurst, correspondente da RFI na China
A construção massiva e rápida de embarcações é a principal marca dessa expansão. Pequim já possui a maior frota naval do mundo em número de navios e continua a produzir destróiers, fragatas, navios anfíbios e embarcações auxiliares em ritmo acelerado. Entre 2019 e 2023, os estaleiros chineses lançaram 39 navios de guerra, demonstrando uma base industrial naval extremamente robusta. Essa capacidade é sustentada pela liderança da China na construção naval civil global, o que permite apoiar a produção militar e renovar a frota com agilidade. O objetivo é garantir presença permanente em alto-mar, exercer pressão em áreas disputadas e projetar o poder chinês além de suas costas.
Além da quantidade, a modernização dos porta-aviões é um dos pilares desse avanço. O Fujian, que entrou em serviço em novembro de 2025, representa um salto tecnológico, sendo o primeiro porta-aviões chinês equipado com catapultas eletromagnéticas. Esse sistema permite o lançamento de aeronaves mais pesadas e avançadas em comparação com os dois primeiros porta-aviões do país. Embora não confirmado oficialmente por Pequim, estimativas americanas sugerem que a China pode chegar a uma frota de nove porta-aviões no futuro.
A expansão naval chinesa não se limita ao número de navios, mas também à capacidade de operar em águas distantes. A Marinha do país busca ultrapassar a chamada "primeira cadeia de ilhas", um arco estratégico que vai do Japão às Filipinas e que historicamente marcou o limite da projeção de poder marítimo chinês. O porta-aviões Shandong já realizou diversos deslocamentos para o Mar das Filipinas, enquanto o Fujian tem participado de exercícios próximos ao Estreito de Taiwan. Esses movimentos demonstram a ambição de Pequim de ter uma frota capaz de atuar em múltiplos cenários simultaneamente e desafiar a presença militar dos Estados Unidos no Pacífico Ocidental.
Investimentos pesados
O aumento constante dos investimentos militares sustenta essa expansão. Para 2026, a China anunciou um crescimento de 7% em seu orçamento de defesa, chegando a cerca de € 250 bilhões, confirmando que a modernização das Forças Armadas permanece uma prioridade estratégica, mesmo diante de um cenário econômico mais lento.
A estratégia chinesa na região Indo-Pacífico é multifacetada. Pequim busca, em primeiro lugar, fortalecer sua dissuasão regional e ampliar sua influência em áreas estratégicas, como o Mar da China Meridional e o Mar da China Oriental. Além disso, a China pretende impor um novo equilíbrio de forças em torno de Taiwan, território que considera parte inalienável de seu território. Nesse contexto, o deslocamento de mais de 100 navios militares e da guarda costeira em dezembro de 2025, a maior demonstração naval chinesa até então, foi interpretado por analistas como um teste de coordenação militar em larga escala.
Instrumento de pressão
Para além da Marinha de guerra, Pequim também utiliza seus navios da guarda costeira como ferramenta de pressão em áreas disputadas. Essas embarcações são frequentemente empregadas no Mar da China Meridional em operações conhecidas como "zona cinzenta", que ficam abaixo do limiar de um confronto militar direto, mas servem para afirmar a presença chinesa e desgastar adversários.
Embora a China já supere os Estados Unidos em número de navios, Washington ainda mantém vantagens significativas, como uma frota de porta-aviões nucleares mais experiente, uma rede global de bases militares e décadas de expertise em operações navais. No entanto, a rápida expansão da Marinha chinesa gera preocupação entre países da região. A maior presença naval em mares já disputados eleva o risco de incidentes e escalada de tensões entre as potências.
No fundo, a China não se contenta apenas em construir mais navios. O país está desenvolvendo uma Marinha capaz de operar mais longe, por mais tempo e em múltiplas frentes. Essa evolução está gradualmente alterando o equilíbrio naval na Ásia e redefinindo os jogos de poder no Indo-Pacífico.