Relatório da ONU apresentado na COP17 aponta avanço histórico na restauração de 252 milhões de hectares em 149 países, liderados pela China, com o Brasil em sexto. Porém, o total cobre apenas 25% da meta global para 2030, exigindo triplicar o ritmo e quadruplicar o financiamento, sobretudo em áreas marinhas e de água doce. Em apoio à agenda, os Países Baixos anunciaram aporte de US$ 500 milhões no Fundo Florestas Tropicais para Sempre, criado pelo Brasil para remunerar a preservação florestal.
Atualmente, os países estão restaurando cerca de 252 milhões de hectares de ecossistemas, um nível sem precedentes, segundo o documento. Apesar do avanço, a área corresponde a apenas cerca de 25% do total que os governos se comprometeram a recuperar até o fim da década.
"Este relatório registra a maior operação de restauração já documentada", afirmou Doreen Robinson, diretora adjunta da Divisão de Ecossistemas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), durante uma coletiva de imprensa em Nairóbi. A área atualmente em recuperação equivale a cerca de um quarto do território do Brasil.
O relatório, de 99 páginas, foi divulgado durante a COP17 da Biodiversidade, que termina nesta sexta-feira (30). A conferência marca a primeira avaliação coletiva dos avanços obtidos desde a adoção, em 2022, do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, considerado o principal acordo internacional para conter a perda de biodiversidade até 2030.
Pela primeira vez, os países signatários avaliam conjuntamente o progresso em relação às 23 metas do acordo. Nesta edição, o foco foi menos a adoção de novos compromissos e mais a verificação dos resultados concretos alcançados desde sua aprovação.
O Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal prevê, entre outras metas, a proteção de 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até o fim da década.
Segundo o relatório, os esforços de restauração registrados em 149 países concentram-se principalmente em áreas terrestres, que somam 232 milhões de hectares. Em seguida, aparecem os ecossistemas de águas interiores, com 11 milhões de hectares recuperados, e os ambientes marinhos e costeiros, com 5,7 milhões de hectares.
Resultados aquém do esperado
O diagnóstico é o primeiro levantamento global sobre o cumprimento dos compromissos assumidos pelos países. Segundo a ONU, embora a recuperação de ecossistemas esteja ocorrendo em escala inédita, o avanço atual ainda é insuficiente para atingir as metas previstas para o fim da década.
O documento destaca que os resultados permanecem "muito aquém das metas estabelecidas" para ecossistemas de água doce, marinhos e costeiros. Esses ambientes "estão se degradando em ritmo particularmente acelerado", enquanto a restauração das áreas terrestres já alcançou aproximadamente metade da meta prevista para esse tipo de ecossistema.
No âmbito da Década da ONU para a Restauração de Ecossistemas (2021-2030) e do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, os países se comprometeram a ampliar significativamente os esforços para conter a perda de biodiversidade e recuperar áreas degradadas.
Além da recuperação da natureza, que pode envolver medidas como o reflorestamento e a restauração de rios e áreas úmidas, as iniciativas já resultaram na criação de mais de 1 milhão de empregos no mundo. A expectativa é que esse número chegue a 32 milhões até 2030.
Mesmo assim, o relatório conclui que o ritmo atual precisa triplicar para que a meta de restaurar cerca de 1 bilhão de hectares seja atingida até o fim da década. O financiamento anual destinado à restauração também precisará mais que quadruplicar, especialmente com uma participação maior do setor privado.
A China lidera com ampla vantagem os esforços de restauração terrestre, com cerca de 127 milhões de hectares recuperados. Na sequência aparecem Mongólia, Cazaquistão e Etiópia. O Brasil figura em sexto, com 3,41 milhões de hectares restaurados.
Investimentos no TFFF
Dentro dos esforços internacionais de proteção da biodiversidade, o governo dos Países Baixos anunciou na segunda-feira (26) a intenção de investir US$ 500 milhões no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), mecanismo idealizado pelo Brasil e lançado oficialmente durante a COP30, em Belém.
O TFFF combina recursos públicos e privados e prevê pagamentos a países com florestas tropicais que consigam conservar essas áreas e reduzir o desmatamento.
O mecanismo difere dos modelos tradicionais baseados exclusivamente em doações, porque remunera resultados de conservação, recompensando a manutenção das florestas em pé.
Além disso, prevê a participação direta de povos indígenas e comunidades tradicionais, responsáveis por grande parte da proteção desses territórios. Pelo menos 20% dos recursos recebidos pelos países deverão ser destinados a essas populações.
O aporte prometido pelo governo holandês será distribuído ao longo de dez anos. Segundo Haia, o investimento reforça o compromisso do país com as metas internacionais de clima e biodiversidade.
RFI e AFP