Biodiversidade: ONU vê avanço histórico na restauração de ecossistemas, mas cobra aceleração dos esforços

Enquanto a COP17 da Biodiversidade chega ao fim em Yerevan, na Armênia, a ONU publicou, nesta quinta-feira (29), um relatório sobre os esforços realizados ao redor do mundo para restaurar ecossistemas degradados. Embora os autores reconheçam o surgimento de "um dos maiores movimentos em prol da natureza da história moderna", alertam que o ritmo atual ainda está longe do necessário para cumprir as metas globais estabelecidas para 2030.

29 out 2026 - 13h51
Resumo
Relatório da ONU apresentado na COP17 aponta avanço histórico na restauração de 252 milhões de hectares em 149 países, liderados pela China, com o Brasil em sexto. Porém, o total cobre apenas 25% da meta global para 2030, exigindo triplicar o ritmo e quadruplicar o financiamento, sobretudo em áreas marinhas e de água doce. Em apoio à agenda, os Países Baixos anunciaram aporte de US$ 500 milhões no Fundo Florestas Tropicais para Sempre, criado pelo Brasil para remunerar a preservação florestal.

Atualmente, os países estão restaurando cerca de 252 milhões de hectares de ecossistemas, um nível sem precedentes, segundo o documento. Apesar do avanço, a área corresponde a apenas cerca de 25% do total que os governos se comprometeram a recuperar até o fim da década.

Foto de arquivo. Agentes do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) inspecionam madeira apreendida na floresta amazônica durante uma operação de combate ao desmatamento, em uma serraria em Nova Califórnia, estado de Rondônia, Brasil, em 8 de fevereiro de 2025.
Foto de arquivo. Agentes do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) inspecionam madeira apreendida na floresta amazônica durante uma operação de combate ao desmatamento, em uma serraria em Nova Califórnia, estado de Rondônia, Brasil, em 8 de fevereiro de 2025.
Foto: REUTERS - Ueslei Marcelino / RFI

"Este relatório registra a maior operação de restauração já documentada", afirmou Doreen Robinson, diretora adjunta da Divisão de Ecossistemas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), durante uma coletiva de imprensa em Nairóbi. A área atualmente em recuperação equivale a cerca de um quarto do território do Brasil. 

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O relatório, de 99 páginas, foi divulgado durante a COP17 da Biodiversidade, que termina nesta sexta-feira (30). A conferência marca a primeira avaliação coletiva dos avanços obtidos desde a adoção, em 2022, do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, considerado o principal acordo internacional para conter a perda de biodiversidade até 2030.

Pela primeira vez, os países signatários avaliam conjuntamente o progresso em relação às 23 metas do acordo. Nesta edição, o foco foi menos a adoção de novos compromissos e mais a verificação dos resultados concretos alcançados desde sua aprovação.

O Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal prevê, entre outras metas, a proteção de 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até o fim da década. 

Segundo o relatório, os esforços de restauração registrados em 149 países concentram-se principalmente em áreas terrestres, que somam 232 milhões de hectares. Em seguida, aparecem os ecossistemas de águas interiores, com 11 milhões de hectares recuperados, e os ambientes marinhos e costeiros, com 5,7 milhões de hectares. 

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Resultados aquém do esperado

O diagnóstico é o primeiro levantamento global sobre o cumprimento dos compromissos assumidos pelos países. Segundo a ONU, embora a recuperação de ecossistemas esteja ocorrendo em escala inédita, o avanço atual ainda é insuficiente para atingir as metas previstas para o fim da década.

O documento destaca que os resultados permanecem "muito aquém das metas estabelecidas" para ecossistemas de água doce, marinhos e costeiros. Esses ambientes "estão se degradando em ritmo particularmente acelerado", enquanto a restauração das áreas terrestres já alcançou aproximadamente metade da meta prevista para esse tipo de ecossistema. 

No âmbito da Década da ONU para a Restauração de Ecossistemas (2021-2030) e do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, os países se comprometeram a ampliar significativamente os esforços para conter a perda de biodiversidade e recuperar áreas degradadas. 

Além da recuperação da natureza, que pode envolver medidas como o reflorestamento e a restauração de rios e áreas úmidas, as iniciativas já resultaram na criação de mais de 1 milhão de empregos no mundo. A expectativa é que esse número chegue a 32 milhões até 2030. 

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Mesmo assim, o relatório conclui que o ritmo atual precisa triplicar para que a meta de restaurar cerca de 1 bilhão de hectares seja atingida até o fim da década. O financiamento anual destinado à restauração também precisará mais que quadruplicar, especialmente com uma participação maior do setor privado. 

A China lidera com ampla vantagem os esforços de restauração terrestre, com cerca de 127 milhões de hectares recuperados. Na sequência aparecem Mongólia, Cazaquistão e Etiópia. O Brasil figura em sexto, com 3,41 milhões de hectares restaurados.

Investimentos no TFFF

Dentro dos esforços internacionais de proteção da biodiversidade, o governo dos Países Baixos anunciou na segunda-feira (26) a intenção de investir US$ 500 milhões no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), mecanismo idealizado pelo Brasil e lançado oficialmente durante a COP30, em Belém.

O TFFF combina recursos públicos e privados e prevê pagamentos a países com florestas tropicais que consigam conservar essas áreas e reduzir o desmatamento.

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O mecanismo difere dos modelos tradicionais baseados exclusivamente em doações, porque remunera resultados de conservação, recompensando a manutenção das florestas em pé.

Além disso, prevê a participação direta de povos indígenas e comunidades tradicionais, responsáveis por grande parte da proteção desses territórios. Pelo menos 20% dos recursos recebidos pelos países deverão ser destinados a essas populações.

O aporte prometido pelo governo holandês será distribuído ao longo de dez anos. Segundo Haia, o investimento reforça o compromisso do país com as metas internacionais de clima e biodiversidade.

RFI e AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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