Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
A decisão do governo dos Estados Unidos de propor uma nova tarifa de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros ainda está longe de ser definitiva, mas os próximos dias devem ser decisivos para o futuro das negociações comerciais entre Brasília e Washington.
A medida foi anunciada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, o mesmo instrumento usado por Washington para investigar práticas consideradas "desleais" por parceiros comerciais. O novo pacote substitui parte das tarifas globais anteriores impostas por Donald Trump, derrubadas em fevereiro pela Suprema Corte americana.
O processo agora entra em uma etapa formal de consulta pública. Até 1º de julho, empresas, associações e representantes do setor produtivo poderão enviar comentários ao governo americano sobre os impactos das tarifas. Em 6 de julho, o USTR realizará uma audiência pública em Washington para discutir as medidas propostas. Já o dia 15 de julho é considerado o prazo legal para que o governo Trump oficialize, ou não, a entrada em vigor das tarifas.
Bastidores
Nos bastidores, autoridades brasileiras ainda tentam evitar que as tarifas sejam efetivamente implementadas. Segundo o governo Lula, negociações reservadas entre os dois países continuam ocorrendo desde a visita do presidente brasileiro à Casa Branca, em maio.
Apesar do endurecimento da retórica comercial, o próprio representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que as tarifas foram desenhadas de forma "bastante seletiva", com exclusões para produtos considerados estratégicos ou capazes de gerar impacto na economia americana, como café, carne bovina, petróleo, minerais críticos e aeronaves brasileiras.
O governo americano alega que o Brasil mantém práticas comerciais "irracionais" que prejudicam empresas dos EUA, incluindo disputas relacionadas ao comércio digital, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e aplicação de leis anticorrupção.
A nova ofensiva comercial ocorre em meio a uma crescente deterioração política entre os dois governos. Nesta terça-feira (2), Donald Trump publicou em sua rede social uma foto ao lado dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro no Salão Oval, incluindo Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro, poucos dias após a visita deles a Washington.
"Traidores"
O gesto foi interpretado em Brasília como um sinal político claro de aproximação entre Trump e o bolsonarismo em meio à crise tarifária. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu duramente e acusou os filhos de Jair Bolsonaro de atuarem contra os interesses do país.
"Eles foram lá pedir para uma nação estrangeira se meter nos assuntos brasileiros. São traidores", declarou Lula durante um evento no interior de Goiás.
Mais cedo, o presidente brasileiro já havia afirmado que o processo de diálogo entre os dois países estaria sendo "sabotado por interesses eleitorais e familiares" ligados aos Bolsonaro.
A tensão também aumentou após o governo Trump classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, medida apoiada pelo grupo político de Jair Bolsonaro e criticada pelo Palácio do Planalto.
Apesar da escalada diplomática, analistas em Washington avaliam que ainda existe espaço para negociação antes do prazo final de julho. Isso porque a nova proposta tarifária exclui mais da metade das importações brasileiras e preserva setores considerados estratégicos para a economia americana, como mineração, aviação e energia.
Outro fator que pesa nas negociações é o fato de os Estados Unidos manterem superávit comercial com o Brasil. Dados do próprio do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) mostram que, em 2025, os EUA exportaram US$54,4 bilhões para o mercado brasileiro, enquanto as exportações brasileiras para os americanos somaram US$39,9 bilhões.
Ainda assim, o governo Trump considera que as tarifas são necessárias para pressionar parceiros comerciais e reduzir práticas consideradas injustas pela Casa Branca.