Carlos Noriega e Martin Chabal, correspondentes da RFI no Peru, com agências
A reta final da campanha foi marcada por um tema inesperado que tocou o orgulho nacional: o risco de Machu Picchu perder o título de "maravilha do mundo". A organização New7Wonders enviou uma carta pública aos dois candidatos exigindo compromissos concretos com a gestão do sítio arqueológico, que tem sido marcada por denúncias de corrupção na venda de ingressos, greves recorrentes e incidentes graves, como uma colisão de trens em dezembro de 2025.
O local é o pilar do turismo peruano, representando 35% do fluxo de visitantes internacionais, e qualquer degradação de sua imagem internacional pode se tornar o primeiro grande desafio para o próximo governante.
Keiko Fujimori, filha do falecido ex-presidente Alberto Fujimori, baseia sua campanha no legado de combate à hiperinflação e ao terrorismo, deixado por seu pai nos anos 1990, embora também carregue o peso das acusações de corrupção e autoritarismo que cercam seu sobrenome.
Ela se apresenta como uma líder resiliente que aprendeu com as três derrotas consecutivas em segundos turnos passados, focando agora em um discurso de segurança pública. Para muitos de seus apoiadores, Keiko representa a única barreira contra o avanço do que chamam de comunismo, enquanto seus detratores veem nela o retorno de um regime que violou direitos humanos.
Conservadora resiliente contra herói rural
Do outro lado, Roberto Sánchez personifica o voto de protesto das populações rurais e marginalizadas dos Andes. Psicólogo de formação e frequentemente visto com seu chapéu de palha de abas largas, Sánchez propõe romper com o modelo econômico liberal estabelecido pela Constituição de 1993 - ironicamente promulgada pelo pai de sua rival.
Suas propostas incluem a criação de um Estado plurinacional e uma reforma no sistema judiciário para que juízes sejam eleitos por voto popular. Embora insista que não é comunista e defenda valores conservadores em temas sociais, suas propostas de reforma econômica geram receio em setores do mercado.
O sentimento geral nas ruas da capital, Lima, e no interior do país é o de uma escolha pelo "mal menor". A polarização é nítida geograficamente: as pesquisas indicam uma ligeira vantagem para Fujimori na capital, enquanto Sánchez domina as intenções de voto no interior.
Em uma nação que viu oito presidentes passarem pelo poder desde 2016, a eleição de domingo não decidirá apenas o novo ocupante do palácio presidencial, mas testará a capacidade das instituições peruanas de lidar com a instabilidade crônica e com a preservação de seus maiores símbolos nacionais.