Decisão de Trump sobre PCC e CV 'põe Lula em situação desconfortável na segurança, mas impacto eleitoral deve ser limitado', diz analista

Christopher Garman, diretor para as Américas da consultoria Eurasia Group, analisa os impactos econômicos e políticos da decisão da Casa Branca.

31 mai 2026 - 06h47
(atualizado às 07h20)
Para analista, além do impacto eleitoral, decisão de Donald Trump causa uma 'nuvem de incerteza de compliance' sobre o setor privado
Para analista, além do impacto eleitoral, decisão de Donald Trump causa uma 'nuvem de incerteza de compliance' sobre o setor privado
Foto: Daniel Ramalho/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas representou uma derrota diplomática para o governo Lula (PT), que vinha atuando desde o ano passado para tentar evitar a medida.

No entanto, para Christopher Garman, diretor para as Américas da consultoria Eurasia Group, o principal problema para o presidente brasileiro não está no fracasso das negociações com Washington, mas no desconforto político que a decisão cria em um dos temas mais sensíveis para o governo: a segurança pública.

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"Lula fica pressionado e numa posição incômoda de ter que criticar uma medida dura contra o crime organizado que tem apoio da opinião pública", afirma Garman, ponderando, contudo, que o impacto eleitoral tende a ser limitado.

"Eu diria que é um complicador a mais, mas também não é o tipo de coisa que realmente impacta a probabilidade de ele ganhar a eleição."

Em entrevista à BBC News Brasil, o especialista analisou os impactos políticos e econômicos da inclusão das facções brasileiras na lista de organizações terroristas dos Estados Unidos, que reúne atualmente 94 grupos, entre eles Hamas, Hezbollah e Al-Qaeda.

O anúncio foi feito dois dias depois de uma visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Washington, onde ele se reuniu com o presidente Donald Trump, para quem afirmou ter solicitado a classificação das facções.

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Apesar de reconhecer a influência da família Bolsonaro, Garman minimiza seu peso na decisão da Casa Branca, que há meses vinha discutindo o tema internamente. "Foi quase como se a decisão já estivesse na boca do gol e o Flávio Bolsonaro tivesse dado um empurrãozinho final."

Segundo o analista, a medida faz parte de uma estratégia mais ampla do governo Trump para endurecer o combate ao crime organizado na América Latina. Isso não significa, porém, que o Brasil tenha se tornado prioridade para Washington.

O fato de a designação das facções brasileiras ter levado mais tempo para ser anunciada do que em outros países da região reforça essa avaliação, segundo Garman.

Seus efeitos práticos no Brasil também tendem a ser limitados no curto prazo. A principal consequência, ele defende, será a criação de uma "nuvem de incerteza de compliance" para o setor privado, que terá de adotar controles mais rigorosos para garantir que seus negócios não envolvam interesses ou recursos ligados ao crime organizado.

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Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Christopher Garman afirma que decisão da Casa Branca será usada em campanha contra Lula e deve gerar incômodo
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC News Brasil - Na prática, o que a decisão dos Estados Unidos muda para o Brasil?

Garman - Deixando o impacto eleitoral de lado, porque existe um impacto político nas eleições, no lado econômico o que isso cria é uma nuvem de incerteza de compliance sobre o setor privado. Porque quando você faz a classificação como Organização Terrorista Estrangeira, qualquer entidade privada que transita ou faz negócios com o crime organizado pode ser considerada pelo governo americano como ajudando ou dando suporte a uma organização terrorista.

Qualquer um que seja considerado dessa forma é passível a todas as sanções que você pode aplicar a qualquer grupo terrorista. Na prática, entidades privadas vão precisar de um rigor maior para garantir que os negócios não representem interesses ou dinheiro do crime organizado. Talvez seja o ponto mais importante.

Em relação à ação militar americana no Brasil, pode esquecer. Eesse risco pode ser desconsiderado porque não está no radar. Claro, você pode pensar na condição da Venezuela, mas ali já existia um desejo de fazer uma ação militar para tirar o Maduro, e a designação servia também como justificativa jurídica para algo que já era discutido. Então, no lado militar, as mesmas razões pelas quais isso era muito improvável de acontecer continuam válidas. É uma decisão que vai mudar esse cálculo do governo americano contra um país democrático, grande e estratégico como o Brasil? Não. Não existe interesse nisso.

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A pergunta é mais: qual é o potencial de investigações do lado americano sobre o crime organizado no Brasil que possa implicar o setor privado? A gente tem que lembrar que essa designação já foi feita para cartéis no México, Equador, El Salvador, Honduras, Colômbia e na Venezuela. Não é algo que necessariamente afugenta investidores ou que vá transformar o Brasil em um pária em termos de investimentos diretos. Isso não aconteceu no México, não aconteceu na Colômbia.

Então por que aconteceria no Brasil? Até porque, o critério para fazer essas investigações e demonstrar conexão com cartéis não é simples. Teve três bancos pequenos no México que foram acusados de lavagem de dinheiro para cartéis. Eles sofreram sanções do OFAC [Office of Foreign Assets Control — órgão americano responsável por sanções econômicas e financeiras] e acabaram fechando. Mas eram bancos que já tinham um histórico de lavagem de dinheiro e estavam sendo investigados há muito tempo.

BBC News Brasil - Ao colocar facções brasileiras nessa lista ao lado de cartéis latino-americanos e organizações como o Hamas e o Hezbollah, os EUA elevam o Brasil a uma nova prioridade na agenda de segurança da Casa Branca?

Garman - Você tem hoje uma Casa Branca que vai focar mais a América Latina, com Trump saindo do Oriente Médio e olhando mais para o hemisfério, que já é prioridade estratégica. Existe uma prioridade crescente dos EUA em relação ao combate ao crime organizado transnacional na região, inclusive por razões de política doméstica americana. O combate aos cartéis e às organizações criminosas é uma agenda real do governo Trump. A designação das organizações terroristas faz parte dessa estratégia mais ampla.

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Agora, isso significa que o Brasil virou prioridade máxima dos Estados Unidos? Eu diria que não. As prioridades da Casa Branca continuam muito mais concentradas no México e em países da América Central e do Caribe, onde essas organizações têm impacto mais direto sobre o território e a segurança americanos.

O PCC, claro, já se transformou numa organização criminosa transnacional, com conexões inclusive na Europa, então existe uma preocupação crescente. Mas o fato de essa designação ter demorado mais para sair também mostra que o Brasil não ocupa o centro dessa estratégia. Por isso eu não vejo, no curto prazo, medidas concretas mais agressivas voltadas especificamente ao Brasil.

Então você pode ter investigações, mas o Brasil não está no topo da lista. E mesmo os países que estão no topo da lista levam tempo para gerar casos concretos, não é algo imediato. O mais provável é que nada aconteça no próximo ano.

BBC News Brasil - A decisão saiu dias após a visita do senador Flávio Bolsonaro a Washington. Qual o peso real que a família Bolsonaro teve nessa decisão?

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Garman - Existe um contexto de simpatia e afinidade ideológica com a família Bolsonaro, e claro que esse elemento ajuda. Flávio ter feito essa visita teve influência política. Mas isso já estava sendo debatido dentro do governo americano há meses.

Esse movimento já vinha sendo discutido desde o ano passado, e precisaria de uma ação diplomática muito forte para evitar algo que já vinha por inércia — e isso não aconteceu.

Quando Flávio vai lá e faz essa solicitação, acho que a Casa Branca já queria assumir uma postura mais dura contra o crime organizado na região. E aí os Brazil Hawks [grupo de linha dura em Washington em relação ao Brasil] ao redor do presidente acabaram empurrando isso. Então foi quase como se a decisão já estivesse "na boca do gol" e o Flávio Bolsonaro tivesse dado um empurrãozinho final.

Mas não foi uma medida feita apenas a pedido da família Bolsonaro. Eles tiveram influência, sem dúvida, mas isso também faz parte de uma estratégia mais ampla da Casa Branca de endurecimento contra o crime organizado na América Latina.

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BBC News Brasil - Isso sinaliza um apoio de Trump à candidatura de Flávio Bolsonaro? E pode levantar preocupações sobre interferência nas eleições?

Garman - Representa, sim, uma simpatia da Casa Branca pela oposição e pela direita no Brasil. O governo Trump já adota uma estratégia mais ampla de aproximação e apoio a movimentos de direita ao redor do mundo, e o Brasil não foge dessa lógica. Trump ter recebido Flávio, e Marco Rubio também ter participado dessas conversas, são sinais disso.

Trump tem uma certa identificação com o drama do ex-presidente. Ele se vê muito como Jair Bolsonaro: "Eu também fui censurado no meu país. Eu também fui perseguido pelos tribunais. Eu também estou sofrendo por forças progressistas que inibem a liberdade de expressão". Tem essa sinergia.

Isso acontece em um contexto em que Trump também tenta normalizar a relação com o Brasil. Ele recuou de uma estratégia mais agressiva de sanções e tarifas, embora a investigação 301 [referência à Seção 301 da legislação comercial dos EUA, usada para investigar práticas comerciais consideradas desleais] continue em andamento. Então acho que vêm tarifas mais altas, sim. Mas eu diria que isso acontece no contexto do Trump recuar da estratégia anterior.

Trump vai dizer numa campanha que prefere Flávio? Tenho dúvidas de que possa fazer alegações como essas. E aí entra a discussão sobre interferência. Eu não sei se um ou outro chefe de Estado dizendo que tem simpatia com uma corrente política é exatamente interferência. Até porque o impacto eleitoral é quase nulo. O fato de o Trump dizer que apoia o Flávio, vamos ser sinceros, acho que não impacta tanto a disposição do eleitor brasileiro. A decisão vai ser muito mais pelas ações domésticas.

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Onde realmente existe impacto é quando o governo americano entra com algum tipo de ajuda e muda a dinâmica eleitoral. Por exemplo: dar US$ 20 bilhões de crédito para o governo Milei às vésperas da eleição do ano passado teve impacto, porque evitou uma crise cambial.

Esse tipo de coisa eu diria que são ações que têm impacto na eleição. Mas não vejo a Casa Branca tomando medidas a ponto de impactar as eleições mais diretamente. Claro que tem todo um campo em que você pode ter ajuda de empresas de tecnologia e algoritmos, ajudas não transparentes, não comprováveis nem visíveis. Não sei como avaliar isso.

Mas ações como as que a gente viu na Venezuela ou na Argentina, de interferência maior, eu acho improvável. Agora, declarações de apoio, isso sim.

Para analista, classificação das facções como terroristas dá alívio momentâneo para campanha de Flávio Bolsonaro, mas não é capaz de mudar o ruma da eleição
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC News Brasil - Politicamente, qual é o saldo dessa decisão para Flávio Bolsonaro? Ajuda a reduzir o desgaste da crise do Banco Master?

Garman - No curto prazo, ele se beneficia um pouco, porque tem a cobertura da imprensa sobre o evento, o que dá um pouco de respiro para o ciclo noticiário do momento do Banco Master.

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Isso muda a eleição? Não muda. Porque eu também tenho um diagnóstico de que o vazamento dos áudios e do encontro de Flávio com Daniel Vorcaro são um tipo de evento negativo para a campanha dele, mas que tende a se dissipar ao longo do tempo, porque temos cinco meses até a eleição.

O risco para a campanha são novas denúncias que possam vir. Eu diria que, assim como o efeito do vazamento dos áudios, que não matou a candidatura dele e ainda existe tempo para recuperar, o impacto dessa decisão dos EUA tende a se dissipar ao longo do tempo. Eu não vejo isso como algo que muda o jogo eleitoral, mas dá um pouco de alívio para a campanha do Flávio.

BBC News Brasil - E para Lula, muda alguma coisa? A segurança é um dos temas sensíveis para ele nessa eleição.

Garman - Lula fica pressionado. Essa decisão dos EUA tem mais impacto para Lula do que para Flávio, porque coloca o presidente em uma posição difícil de ter que criticar uma decisão dura contra o crime organizado.

Algumas pesquisas que saíram mostram que grande parte da população concorda com a denominação das facções como organizações terroristas. Ele vai ter que criticar uma postura que a população apoia. É claro que se você pode colocar isso como interferência, tem maneiras de apresentar sem que tenha uma reação negativa tão forte, mas não é uma posição confortável. Por isso que o Itamaraty estava tentando tanto evitar a denominação, porque exacerba um pouco o 'calcanhar de Aquiles' do Lula, que nessa campanha é segurança.

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Por isso que eu acho que o problema para o presidente Lula não é o fracasso da negociação diplomática com os EUA, mas a posição em que ele foi colocado, de criticar uma medida dura contra o crime organizado, que tem amplo apoio na opinião pública. Esse é o problema.

Mas tem muito chão pela frente. É um complicador a mais, mas também vamos colocar no devido lugar. Não acho que é o tipo de coisa que realmente impacta a probabilidade de ele [Lula] ganhar. É um tema que traz um desconforto e vai ser usado na campanha. O Flávio vai dizer: "Por que você não apoia declarar as facções?". Lula vai ter que ter habilidade para reagir. No período pré-campanha não tem tanta relevância. Mas é uma flechinha que Flávio pode usar na campanha que ele não tinha antes.

BBC News Brasil - O senhor defende a possibilidade de surgir um outro nome da direita para o segundo turno. Após esse episódio, continua existindo espaço para outro candidato competitivo?

Garman - Continua. Há um certo cansaço com o bolsonarismo. Ao mesmo tempo, há outros candidatos que são muito críveis no tema da segurança: Ronaldo Caiado (PSD), por exemplo, tem um histórico fenomenal no estado de Goiás.

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Existem outros nomes que também têm credibilidade nesse tema. E não é porque você conseguiu dar um empurrãozinho para o governo americano designar as facções brasileiras como terroristas que isso automaticamente lhe dá mais credibilidade em segurança pública do que um nome como Caiado.

BBC News Brasil - Lula e Trump devem se encontrar nas próximas semanas na França, durante a cúpula do G7. Qual é a expectativa para esse encontro, que provavelmente será o primeiro entre os dois depois dessa decisão envolvendo PCC e Comando Vermelho?

Garman - A gente já estava cético que sairia um acordo comercial após a reunião entre eles, porque a gente não está vendo o lado brasileiro dando tanto, não estamos vendo as negociações avançarem. Isso reforça essa visão. Talvez haja uma reunião cordial e só.

BBC News Brasil - Mas a relação entre Lula e Trump dá uma esfriada nesse próximo encontro...

Garman - Ah, sim, com certeza. É um agravante essa decisão. Vamos ver se antes desse encontro vai sair a determinação da investigação 301 e aí podem sair novas tarifas para o Brasil.

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Se saírem novas tarifas, que é provável, aí o governo brasileiro vai tentar aumentar a lista de exceções e diminuir ainda mais o nível das tarifas. Então as negociações vão continuar. Mas eu não vejo grandes coisas saindo desse encontro do G7.

Acho que não vai ser aquela tarifa de 50% que acabou sendo derrubada pela Suprema Corte americana, mas também não deve ficar nos 10% ou 15% que outros países estão recebendo. Deve ser algo no meio.

BBC News Brasil - O que pode ser um complicador para o Lula...

Garman - Sim, mas diria que pode virar até um problema maior para o Flávio. Se vier uma tarifa de 20% ou 25%, que já é mais proibitiva, Lula vai dizer: "Olha, Flávio entregou o país. Foi por causa da família Bolsonaro que vieram tarifas proibitivas contra o Brasil e isso tirou empregos do Brasil". Então eu diria que, se a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas deixa Lula pressionado, a decisão do 301, que pode levar a novas tarifas, deixa Flávio pressionado também.

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