Terra dos cowboys e do petróleo, Texas desafia monopólio de Trump com nova geração de democratas

Os mais velhos se lembram com certeza do seriado Dallas, exibido no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, que reproduzia o imaginário texano como um reduto de cowboys ambiciosos, moldado pelo petróleo, pela pecuária e por valores conservadores. Quase meio século depois, o estado continua sendo um dos principais focos da extrema direita norte-americana. Mas, a um ano das eleições de meio de mandato, uma combinação de desgaste econômico, críticas à política migratória de Donald Trump e divisões internas do Partido Republicano abriu espaço para uma nova geração de democratas que acredita ser possível conquistar um território considerado inalcançável há mais de 30 anos.

18 out 2026 - 14h02
Resumo
Após 30 anos de hegemonia republicana no Texas, os democratas veem uma chance real de vitória com o deputado James Talarico na disputa pelo Senado. O candidato atrai moderados ao unir fé cristã, pautas sociais e apoio ao setor petrolífero. Ele empata nas pesquisas com o republicano Ken Paxton, enfraquecido por escândalos e processos. O cenário também reflete o desgaste econômico de setores locais e a perda de apoio latino a Donald Trump devido às rígidas operações migratórias na fronteira.

Nenhum democrata vence uma eleição estadual no Texas desde 1994. Ao longo dessas três décadas, o estado consolidou sua posição como uma das bases mais sólidas do Partido Republicano, elegendo governadores conservadores, enviando líderes republicanos ao Congresso e garantindo margens confortáveis para candidatos presidenciais da legenda.

O candidato democrata ao Senado dos Estados Unidos pelo Texas, James Talarico, discursa durante o evento realizado para celebrar os resultados das eleições primárias em Austin, no Texas, em 4 de março de 2026.
O candidato democrata ao Senado dos Estados Unidos pelo Texas, James Talarico, discursa durante o evento realizado para celebrar os resultados das eleições primárias em Austin, no Texas, em 4 de março de 2026.
Foto: © Joel Angel Juarez / Reuters / RFI

Nem mesmo as transformações demográficas registradas nas últimas décadas foram suficientes para romper esse domínio. O crescimento das áreas metropolitanas, o aumento da população de origem latina e a chegada de novos moradores vindos de estados mais progressistas alteraram parte do eleitorado, mas nunca a ponto de mudar o resultado final das urnas.

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Agora, porém, os democratas enxergam uma oportunidade rara. O principal rosto dessa aposta é James Talarico, deputado estadual de 37 anos e candidato a uma das duas cadeiras texanas no Senado dos Estados Unidos. Ex-professor e seminarista presbiteriano, ele tenta construir uma candidatura capaz de dialogar simultaneamente com democratas tradicionais, eleitores independentes e republicanos decepcionados com os rumos do partido.

No Texas, estado que não elege um democrata para o Senado dos Estados Unidos desde 1988, James Talarico espera surpreender o republicano Ken Paxton. Seu perfil destoa dentro do Partido Democrata: o ex-seminarista presbiteriano de 37 anos fala abertamente sobre seu desejo de se tornar pastor e coloca a fé cristã no centro de sua campanha.

"A presença de um candidato como ele é um acidente da história", analisa Pierre Martin, professor de ciência política da Universidade de Montreal, em entrevista à RFI. Segundo o pesquisador, Talarico consegue dialogar com eleitores conservadores e religiosos ao mesmo tempo em que defende pautas associadas à esquerda.

Fé cristã e defesa dos trabalhadores

Sua estratégia passa por um posicionamento pouco comum na política contemporânea dos EUA. Em vez de enfatizar temas que costumam dividir o eleitorado, Talarico procura combinar referências à fé cristã, defesa dos trabalhadores, críticas à desigualdade e valorização da indústria petrolífera, setor central para a economia texana. "Sempre colocarei o Texas acima de qualquer partido político", afirma o candidato. "Estou cansado de nos dividirem entre esquerda e direita."

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Em um terreno religioso amplamente dominado pelos conservadores, o texano busca na própria mensagem do Evangelho seus argumentos em defesa da justiça social. "A justiça econômica é mencionada 3 mil vezes em nossas Escrituras", afirmou no programa The Ezra Klein Show, lamentando que o tema esteja ausente do discurso da direita religiosa.

Su fé também fundamenta sua defesa do direito ao aborto. Em entrevista ao podcast de Joe Rogan, Talarico citou o consentimento de Maria durante a Anunciação: "Para mim, trata-se de uma afirmação (...) de que a criação deve acontecer com consentimento."

Ex-professor de inglês na rede pública, dono de um discurso bem estruturado e à vontade diante dos microfones, o candidato faz "claramente uma campanha contra o establishment", observa Tristan Cabello, especialista na esquerda norte-americana. Para o pesquisador, Talarico é uma espécie de "voz independente" dentro de uma esquerda "fragmentada e plural", perfil que ganhou destaque durante as eleições primárias.

O problema republicano se chama Ken Paxton

O crescimento de Talarico não pode ser explicado apenas por sua estratégia eleitoral. Boa parte da atenção dos analistas está voltada para as dificuldades enfrentadas por seu adversário republicano, Ken Paxton, procurador-geral do Texas e um dos aliados mais fiéis de Donald Trump no estado.

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Paxton chega à campanha carregando uma sucessão de controvérsias. Em 2023, sobreviveu a um processo de impeachment por acusações de corrupção e abuso de poder no Legislativo texano. Embora tenha sido absolvido politicamente, o episódio deixou marcas duradouras.

Nos anos seguintes, novas polêmicas continuaram a surgir. O Wall Street Journal informou que ele passou o réveillon de 2025 em Dubai ao lado de dois norte-americanos acusados de fraude na área da saúde. Paralelamente, sua imagem também foi afetada por um escândalo relacionado à sua vida pessoal, após a esposa pedir divórcio em 2025.

Mesmo entre republicanos, a candidatura não produz unanimidade. Em setembro, o senador John Cornyn advertiu que lançar um candidato com histórico tão controverso poderia colocar em risco uma cadeira que tradicionalmente pertence ao partido. A preocupação ganhou ainda mais relevância diante de pesquisas recentes que mostram uma disputa extremamente equilibrada. Levantamentos divulgados em outubro apontam Talarico ligeiramente à frente ou tecnicamente empatado com Paxton, dentro da margem de erro.

Trump percebeu o risco. Em um comício em San Antonio, o presidente reconheceu publicamente a importância estratégica da disputa e afirmou que perder uma cadeira do Texas poderia dificultar a manutenção da maioria republicana no Senado.

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O peso das operações migratórias

Se as dificuldades de Paxton ajudam a explicar a competitividade da eleição, elas não são suficientes para justificar a mudança observada em parte do eleitorado. Outro elemento importante está relacionado à política migratória do governo Trump. Desde o início de seu novo mandato, as operações conduzidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) foram ampliadas, especialmente em estados próximos à fronteira com o México.

O Texas ocupa posição central nessa política. Historicamente, o debate migratório mobiliza o eleitorado conservador texano. Durante anos, cobranças por maior controle da fronteira favoreceram candidatos republicanos. Nos últimos meses, porém, surgiram sinais de desgaste em setores da economia que dependem fortemente da mão de obra imigrante.

Empresários dos setores agrícola, pecuário e da construção civil passaram a relatar dificuldades crescentes para contratar trabalhadores. Associações rurais do Texas, Kansas e Oklahoma alertaram para impactos na cadeia de abastecimento e no custo de produção. As consequências também começam a aparecer entre eleitores latinos que apoiaram Trump em 2024.

O voto latino volta ao centro da disputa

Uma das novidades das eleições presidenciais de 2024 foi o avanço republicano entre eleitores latinos em diversas regiões dos Estados Unidos, incluindo áreas historicamente competitivas do Texas. Agora, parte desse eleitorado demonstra sinais de arrependimento. Benny Meléndez, empresário da construção civil e filho de imigrantes, é um exemplo frequentemente citado pelos democratas durante a campanha.

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Ele votou em Trump em 2024, mas afirma que as políticas adotadas desde então prejudicaram diretamente seus negócios. "Meu trabalho, meus lucros, meus trabalhadores foram reduzidos pela metade", afirmou.

"Fico horrorizado com todo esse medo e as separações de famílias, as mortes nas ruas e o assédio que enfrentamos."

A mudança de humor não parece isolada. Levantamento divulgado pela organização UnidosUS em maio indica que Trump poderá perder cerca de 20% do apoio que recebeu entre os eleitores latinos texanos durante a eleição presidencial de 2024. A movimentação ajuda a explicar por que os democratas voltaram a investir pesadamente no estado, algo que por muitos anos parecia um desperdício de recursos.

Uma disputa que vai além do Texas

Outra disputa importante acontece na corrida pelo governo estadual. O governador republicano Greg Abbott enfrenta a deputada democrata Gina Hinojosa, advogada criada em uma tradicional família católica de origem mexicana. Sua campanha aposta em uma mensagem pragmática. "Não peço aos eleitores que confiem nos democratas. Já é bastante difícil que confiem em mim", costuma dizer.

A frase resume um dos principais desafios enfrentados pela nova geração de democratas texanos. Mais do que convencer conservadores a abandonar suas convicções, o objetivo é atrair eleitores cansados da polarização política, frustrados com a economia ou decepcionados com candidatos republicanos envolvidos em controvérsias. Nenhum estrategista democrata acredita que o Texas tenha se transformado repentinamente em um estado progressista, uma vez que o conservadorismo continua profundamente enraizado em grande parte do território.

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O que está em jogo agora é algo diferente: a possibilidade de que a soma entre desgaste econômico, divisões republicanas e mudanças demográficas esteja tornando competitivo um estado que por décadas foi considerado uma fortaleza inexpugnável da ultradireita norte-americana.

Para Trump, que construiu parte de sua força política justamente no Texas, a disputa tem valor simbólico e estratégico. Para os democratas, representa talvez a melhor oportunidade em uma geração de provar que nem mesmo o mais emblemático dos redutos republicanos é permanente.

RFI com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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