EUA: latinos voltam ao centro da disputa eleitoral em pleito decisivo para futuro do governo Trump

O voto latino volta ao centro da disputa nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. Após ajudar Donald Trump a avançar em estados como Texas e Flórida em 2024, esse eleitorado se tornou prioridade para os democratas, que tentam recuperar apoio perdido ao focar em temas econômicos e explorar o descontentamento com a política migratória da Casa Branca. A incógnita é saber se a insatisfação será suficiente para alterar o comportamento nas urnas.

30 out 2026 - 12h32
Resumo
Nas eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, o voto latino é disputado como fator decisivo para o controle do Congresso e o futuro do governo Trump. Embora a economia siga como prioridade, a dura ofensiva migratória republicana reavivou temores e abriu espaço para a recuperação democrata no Texas. Na Flórida, apesar da insatisfação com as deportações e a inflação, a histórica fidelidade partidária dos cubano-americanos ainda mantém os republicanos em vantagem sobre a frágil oposição.

Com informações de Manu Terradillos, correspondente da RFI nos Estados Unidos

À medida que os norte-americanos votam nas eleições de meio de mandato desta terça-feira (3), uma das principais incógnitas para democratas e republicanos é o comportamento do eleitorado latino, grupo que cresce em importância política a cada eleição e que ajudou a impulsionar a vitória de Donald Trump na disputa presidencial de 2024.

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Em estados estratégicos como Texas e Flórida, os democratas entraram na campanha tentando recuperar parte desse eleitorado, após perdas significativas registradas há dois anos. O desafio é particularmente importante porque os latinos representam uma parcela crescente do eleitorado em estados decisivos para a composição do Congresso dos Estados Unidos.

No Texas, onde Trump conquistou 55% dos votos latinos na eleição presidencial de 2024, o debate mostra uma mudança de prioridades que ajuda a explicar tanto o avanço republicano quanto as tentativas democratas de recuperação.

Em Laredo, cidade localizada na fronteira com o México, o comerciante Mario resume uma percepção compartilhada por muitos eleitores da região. Para ele, a principal preocupação continua sendo a situação econômica.

"Muitas pessoas estão enfrentando dificuldades com o preço da gasolina, o valor dos aluguéis e os impostos. Acho que esses são os temas mais importantes para a população. A questão da imigração existe, há violência e sequestros de pessoas, mas o mais importante é estabilizar a economia aqui em Laredo, no Texas", afirma.

A economia ajudou Trump a ampliar seu apoio entre latinos em redutos tradicionalmente democratas, refletindo uma mudança de prioridades de parte desse eleitorado, que passou a dar mais peso à inflação, à renda e ao mercado de trabalho do que a temas historicamente associados às comunidades hispânicas.

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Democratas tentam corrigir erro estratégico de 2024

Entre dirigentes democratas e especialistas, existe hoje a avaliação de que o partido interpretou de forma inadequada as prioridades do eleitorado latino durante a última eleição presidencial. O candidato democrata ao Senado pelo Texas, James Talarico, tenta reconstruir pontes com esse segmento do eleitorado, especialmente em regiões fronteiriças.

 "Em 2024, os democratas deram muita ênfase à imigração, mas as pesquisas mostravam que, para os latinos, o mais importante era a economia, os salários, os empregos e as condições de trabalho. Houve uma desconexão", avalia o sociólogo Rogelio Sáenz, da Universidade do Texas em San Antonio. 

Essa desconexão ajudou a explicar uma mudança eleitoral observada em diversas áreas de maioria hispânica no sul do Texas, onde republicanos conquistaram resultados inéditos. Mas o cenário político mudou desde então.

A ofensiva migratória promovida pela administração Trump voltou a colococar a questão da imigração entre as principais preocupações do eleitorado latino, ainda que a economia continue ocupando o primeiro lugar para muitos eleitores.

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Política migratória volta a influenciar o voto

A intensificação das deportações e das operações conduzidas pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) provocou um impacto político que os democratas esperam converter em votos.

Segundo Rogelio Sáenz, a dureza das ações migratórias alterou a percepção de parte dos eleitores latinos que haviam apoiado Trump. "As condições relacionadas à imigração e às deportações têm sido tão cruéis. Muitas dessas pessoas latinas que votaram em Trump agora dizem: 'Estão levando pessoas que eu conheço'. Isso não foi o que Trump dizia que faria", afirma.

De acordo com o pesquisador, a imigração deixou de ser um tema secundário para voltar às primeiras posições entre as preocupações da comunidade latina. "A questão subiu. Não é a mais importante, mas passou a ser a segunda ou terceira mais importante", afirma.

As redes sociais desempenham papel importante nesse processo. Vídeos de operações do ICE circulam rapidamente pela internet e exercem forte impacto sobre jovens eleitores que votam pela primeira vez.

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É o caso de Ramón, de 18 anos, filho de mãe mexicana.

"A imigração me preocupa. Minha mãe, embora tenha documentos, está preocupada. Não importa se você tem documentos ou um green card para trabalhar. Levam você mesmo assim. Eles não fazem distinção", afirma.

Apesar da melhora dos números democratas nas pesquisas atuais, dirigentes do partido reconhecem que vencer entre os latinos continua sendo uma condição necessária, mas nem sempre suficiente, para alcançar bons resultados eleitorais.

Na Flórida, cubanos mantêm inclinação republicana

Se no Texas os democratas enxergam sinais de recuperação, a situação é mais complexa entre os cubano-americanos da Flórida.

Durante décadas, essa comunidade constituiu uma das bases eleitorais mais sólidas do Partido Republicano. Mesmo diante do crescente descontentamento com algumas políticas da administração Trump, pesquisas indicam que o vínculo político entre os cubano-americanos e os republicanos permanece forte.

Um levantamento recente da Universidade Internacional da Flórida (FIU) identificou uma aparente contradição. Grande parte dos entrevistados manifesta críticas às políticas adotadas por Trump, especialmente na área migratória. Ainda assim, muitos continuam preferindo candidatos republicanos.

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Para o sociólogo Guillermo Grenier, integrante do Instituto de Estudos de Cuba da FIU, a explicação passa por fatores históricos e culturais. "Os cubanos de Miami têm um perfil político um pouco diferente do de cubanos que vivem em outros lugares. Aqui, a identidade republicana faz parte da identidade cubana", afirma.

Segundo ele, embora exista insatisfação com determinadas decisões da Casa Branca, isso não significa automaticamente uma migração de votos para o campo democrata.

Descontentamento cresce, mas alternativa democrata segue frágil

"Os cubanos não estão satisfeitos com o que Trump fez especificamente em matéria de imigração", diz Grenier, ressaltando que esta insatisfação encontra limites políticos. "Não estão contentes com Trump, mas na prática não têm opções. Para exercer um voto dentro do próprio sistema de valores, é preciso haver alternativas. E o Partido Democrata não fez seu trabalho aqui", afirma.

A pesquisa da FIU mostra que 76% dos cubano-americanos rejeitam o aumento das deportações de cidadãos cubanos. Ao mesmo tempo, a economia aparece como uma das maiores preocupações do grupo. E é justamente nesse campo que surgem sinais de desgaste.

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"Somente 50% dos cubanos apoiam a administração na condução da economia. Isso mostra que as políticas de Trump os afetaram pessoalmente", afirma Grenier.

Segundo ele, o tema econômico tem peso crescente à medida que inflação, custo de vida e mercado de trabalho se transformam em preocupações cotidianas para a comunidade. O apoio republicano entre cubano-americanos continua elevado, mas já não parece tão automático quanto em eleições anteriores.

A principal dúvida é saber se esse descontentamento se converterá em mudança de voto ou se a histórica identificação republicana continuará prevalecendo nas urnas.

O que está em jogo nas eleições de meio de mandato dos EUA?

As eleições de meio de mandato, conhecidas nos Estados Unidos como midterms, ocorrem na metade do mandato presidencial e servem para renovar integralmente a Câmara dos Representantes e parte do Senado.

O resultado define o equilíbrio de forças no Congresso e influencia diretamente a capacidade do presidente de aprovar projetos, indicar autoridades e conduzir sua agenda política.

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Para Donald Trump, a votação desta terça-feira (3) funciona como um teste de força dois anos após sua volta à Casa Branca. Uma derrota republicana em uma ou nas duas Casas do Congresso poderá limitar a capacidade de ação do governo até o fim do mandato, em 2028.

Para os democratas, o objetivo é recuperar terreno em grupos eleitorais decisivos, especialmente entre os latinos, cujo peso cresce eleição após eleição e pode ser determinante para definir não apenas a composição do Congresso, mas também os rumos da política norte-americana nos próximos anos.

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